Perdi o entusiasmo de ir ao cinema. Para mim, o streaming foi uma das melhores invenções da modernidade, sobretudo porque me livrou da obrigação de passar um longo tempo com a bunda pregada numa poltrona. O último filme comprido que vi no cinema foi Gandhi: mais de três horas de duração. Putz! Em casa, a experiência é outra. Posso pausar o filme para beber água ou suco, fazer um xixi (ou…), rever uma cena.

Por isso, vou esperar A Odisseia, de Christopher Nolan, sair dos cinemas e chegar a alguma plataforma de streaming. Pelo que li sobre o filme, ele anda dividindo opiniões: há elogios por reacender o interesse pela obra de Homero e críticas pela falta de profundidade psicológica e emocional, além de um roteiro considerado frágil. Logo poderei conferir tudo isso no conforto da minha poltrona.

Antes de me ingressar no curso de Letras da antiga Universidade Católica de Goiás, eu não tinha ouvido falar dos poetas Homero e Virgílio, respectivamente grego e romano. Foi na disciplina Teoria da Literatura que esses e outros poetas chegaram ao meu conhecimento. Entre os outros estava também o poeta romano Quinto Horácio Flaco, que, em A Arte Poética, disse algo que sempre me dá um peteleco na cabeça quando me proponho a escrever sobre alguma coisa: “Vós que escreveis, escolhei matéria à altura de vossas forças e pesai no espírito longamente que coisas vossos ombros bem carregam e as que eles não podem suportar”. Espero, altaneiro leitor, que meus ombros suportem o peso do assunto que me propus aqui carregar.

Há uma passagem da Odisseia, de Homero, que parece ter sido escrita para explicar uma das dificuldades mais antigas da política: palavras artificialmente melífluas, como o ardiloso canto das sereias. No retorno a Ítaca, Ulisses passou diante da ilha rochosa das sereias, criaturas cujo canto era tão sedutor que levava os navegantes à perdição: encantados, eles se dirigiam à ilha, e suas embarcações se espatifavam contra as rochas. Conhecendo o perigo, Ulisses manda que seus companheiros tapem os ouvidos com cera de abelha e determina que o amarrem ao mastro do navio. Quer ouvir o canto, mas impedido de obedecer a ele.

Para o poeta romano Quinto Horácio Flaco (65 a.C. – 8 a.C.), escrever exige reconhecer os próprios limites; recomenda escolha de uma matéria à altura das forças de quem escreve e saber quais pesos os ombros são capazes de carregar | Foto: Reprodução

A política moderna trocou a ilha das sereias pelos palanques, estúdios de televisão, redes sociais e horários eleitorais, mas o canto continua parecido. Muitos políticos sabem que a primeira batalha eleitoral é travada pela linguagem. Prometem aquilo que o eleitor gostaria de ouvir, apresentam soluções simples para problemas complexos e oferecem um futuro quase sempre mais luminoso do que aquele que a realidade permite entregar. O discurso sempre é doce, convincente e cuidadosamente afinado. O perigo começa quando confundimos a beleza da promessa com a verdade do que está sendo prometido. E algo semelhante ao que diz o provérbio popular: “por fora bela viola; por dentro pão bolorento”.

As sereias de Homero não obrigavam ninguém a ir à ilha rochosa. Bastava seu canto hipnótico. O poder estava justamente em fazer com que o próprio marinheiro desejasse aproximar-se delas. Algo semelhante ocorre na política. O candidato raramente precisa impor uma ideia, basta fazê-la parecer irresistível. A promessa de prosperidade, segurança, justiça, empregos, saúde, educação e uma vida melhor pode ser perfeitamente legítima. O problema surge quando a promessa deixa de ser compromisso e passa a ser instrumento de sedução. Enfim só lorota.

É aí que a metáfora de Ulisses se torna especialmente útil. Ele não pediu aos companheiros que acreditassem cegamente nele. Ao contrário: reconheceu antecipadamente sua própria fragilidade diante do canto e criou um mecanismo para impedir que sua vontade momentânea destruísse aquilo que desejava preservar. Talvez esteja aí uma das mais antigas lições sobre prudência política: não basta saber que existe o perigo; é preciso criar condições para não sucumbir a ele.

Nós, eleitores, também precisamos de alguma cera nos ouvidos, e isso não para não escutarmos os políticos, mas para não nos deixarmos dominar pelo que dizem. É preciso ouvir as promessas sem nos embriagarmos com elas; separar o possível do utópico, o compromisso da fantasia, o discurso do histórico de quem discursa. Há quem se deixe encantar a tal ponto que passa a enxergar mitos onde existem apenas homens sobre uma ilha rochosa, cantando ardilosamente para que nos aproximemos deles, obedientes e com andores para carregá-los em nossas costas.

E há uma ironia nisso tudo: Ulisses queria ouvir as sereias. Não desejava viver sem o canto; desejava escutá-lo sem morrer por causa dele. Talvez esteja aí uma lição para nós, eleitores: não precisamos ser surdos aos políticos, mas devemos permanecer amarrados ao mastro da razão para que o encanto das palavras não nos arraste para as rochas da ilha.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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