Trabalhei no Tribunal de Contas do Estado de Goiás por três anos, isso no gabinete do conselheiro Sebastião Tejota. Não me lembro exatamente quando foi. Algumas lembranças dispensam calendário. Em dois aniversários de colegas do gabinete, citei de cor um mesmo trecho de uma crônica de Vinicius de Moraes sobre a amizade. O conselheiro fazia questão de participar dessas pequenas confraternizações. Gostava daquele momento em que o expediente dava uma breve trégua para celebrar alguém de sua equipe.

No terceiro aniversário, antes mesmo que eu começasse a repetir as palavras de Vinicius, Tejota sorriu um meio riso e tratou de me interromper. Disse que todos já conheciam o discurso e que eu deveria encontrar outras palavras para homenagear o aniversariante. Claro que obedeci. Creio que recorri a algumas palavras do filósofo chinês Confúcio (551 – 479 a.C.). Segundo ele, é no sucesso e na desgraça que descobrimos, respectivamente, a quantidade e a qualidade dos amigos.

Como acredito que você, altaneiro leitor, queira saber que trecho viniciano era esse, trago-o aqui:
“A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”.

Nunca encontrei definição mais bonita para a amizade. Vinicius enxergou nela uma capacidade rara: a de multiplicar-se sem perder intensidade. Diferentemente do ciúme do amor, a amizade não exige exclusividade. Pelo contrário, ela cresce quando ocorrem novos vínculos. Um amigo nos apresenta outro, que nos apresenta um terceiro, e assim a vida vai tecendo, fio a fio, uma rede de afetos da qual brota boa parte da nossa alegria de existir. As melhores lembranças quase sempre têm amigos por perto. Uma festa perde o brilho quando não há com quem compartilhar os risos. Uma pescaria dificilmente rende boas histórias quando se pesca sozinho. A amizade transforma momentos comuns em memórias duradouras.

Foi justamente nessa divisão do objeto da amizade em outros afetos que me tornei amigo de Bariani Ortêncio. Houve uma ponte para esse encontro: o amigo jornalista Valterli Guedes, frequentador da aprazível casa de Bariani, que um dia me levou consigo. Minha amizade com Valterli, por sua vez, nasceu graças a outro amigo em comum: o escritor Eurico Barbosa, membro da Academia Goiana de Letras. Hoje, quando olho para trás, percebo que essa corrente perdeu dois de seus elos quase no mesmo ano. Eurico foi embora em junho de 2024. Bariani partiu em dezembro de 2023. Permanecem, entretanto, as amizades que ambos me ajudaram a construir.

O mesmo local em que Bariani fazia seus exercícios físicos no interior do parque; hoje sem ele
|Foto: Sinésio Dioliveira

Já navegando pelos 97 anos, Bariani, que foi a cem, continuava fiel ao hábito de caminhar no Bosque dos Buritis, vizinho à casa em que morava na Praça Cívica. Era ali que nossos encontros aconteciam, quase sempre nas manhãs de sábado, que era quando eu podia ir lá. Eu seguia pelo parque fotografando passarinhos, árvores, flores; ele seguia em seu ritmo tranquilo, cumprimentando conhecidos, conversando um pouco aqui, um pouco ali. Havia algo reconfortante naquela rotina. Em algumas manhãs, eu o encontrava jogando malha com os amigos num campo que levava seu nome. Uma vez joguei com eles. Ele era um homem que fizera da boa convivência um modo de existir.

Havia um pequeno ritual que poucos talvez tenham percebido. Em um trecho da mata, Bariani sempre parava junto a um pau-ferro para fazer alongamentos antes de iniciar sua caminhada. A árvore lhe servia de apoio; ele, sem perceber, transformava-a em um lugar de memória.
No lançamento da Trilha Bariani Ortêncio, ocorrido em junho deste ano e promovido pela Prefeitura de Goiânia, por meio da Agência Municipal do Meio Ambiente, passei novamente por aquele lugar. A árvore permanecia intacta, um pouco maior. Apenas o homem que costumava se apoiar nela já não estava ali. Naquele instante, compreendi que certas ausências também se tornam parte da paisagem.

Desde então, sempre que volto ao Bosque dos Buritis, não consigo olhar para aquele pau-ferro sem pensar em Bariani. A árvore continua cumprindo silenciosamente a sua missão valiosa de árvore. Mas, para quem teve o privilégio de ser amigo daquele escriba caminhante, é impossível não sentir que, naquela árvore, está faltando Bariani.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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