Nesta segunda-feira, presenciei dois vizinhos discutindo numa rua do Centro. Passo sempre por ela, indo a pé, quando vou tomar café da manhã numa lanchonete próxima ao local da confusão. Achei que haveria pescotapas, mas o embate ficou apenas no ringue verbal. Ainda bem. Moravam em casas uma diante da outra. Um deles tinha uma caçamba em frente à sua residência, na qual estava sendo colocado o entulho resultante da reforma de sua casa. O outro, sabe-se lá por qual raciocínio — ou melhor, por falta dele —, entendeu, digamos assim, que também podia descartar uma coisarada do seu quintal na caçamba.

O dono, naturalmente, não gostou. Disse cobras e lagartos. E com certa razão. O vizinho folgado, percebendo que a coisa poderia não terminar bem, pediu desculpas estrategicamente. Foi então que ouvi uma frase que chamou a minha atenção. Não lembro da exatidão dela. Era algo como: que o pedido de desculpas não cabia naquela situação, porque aquilo não havia sido um erro cometido por distração ou acaso, mas uma atitude proposital, tomada com plena consciência do que se estava fazendo.

A frase me trouxe uma lembrança de alguns anos atrás, quando comprei o apartamento em que moro. Antes de me mudar, resolvi fazer uma reforma. Por recomendação de um morador do prédio, que acabei conhecendo ao adquirir o imóvel, contratei um pedreiro. Elogios a este não faltaram: profissional, caprichoso, responsável, experiente. Botei fé. Há, portanto, palavras que só o tempo consegue submetê-las à prova, revelando, afinal, se aquilo que dizem corresponde à verdade. No decorrer do serviço, descobri que havia um detalhe que contrastava com as recomendações. O homem era um mala, um espertalhão.

O pedreiro trapaceiro percebeu que eu era cru no assunto e me passou uma lista de materiais numa quantidade maior do que a necessária à obra. Assim, cimento, tinta, argamassa, pisos e outras coisas desapareceram. Foi uma ex-namorada que me alertou sobre a gatunagem do pedreiro. Ela era corretora de imóveis e manjava de reforma.

Foi preciso que eu alugasse uma caçamba. Foi aí que um vizinho resolveu entrar de sócio comigo. Sem combinar, começou a colocar na minha caçamba os restos de sua obra. Não cheguei a vê-lo fazendo isso; fui alertado pelo servente que auxiliava o pedreiro malandro. Procurei a síndica. No meu caso, a reclamação resolveu. O vizinho pôs fim à sociedade informal, que alguns por aí, obscenamente, chamam de “sociedade caracu”. A caçamba voltou a ser minha, e o vizinho passou a cuidar dos próprios entulhos.

Foi por isso que a discussão desta segunda-feira me chamou tanto a atenção. A cena era outra, as pessoas eram outras, mas o comportamento era semelhante. O que estava em jogo não era uma caçamba. Era a velha tentativa de obter vantagem às custas de alguém. Gesto da famosa “Lei de Gérson”, à qual adeptos não faltam.

Há erros que acontecem por distração, desconhecimento ou falta de cuidado. Nesses casos, um pedido de desculpas pode reparar alguma coisa. Mas há uma diferença entre errar e escolher fazer o que se sabe que não deve ser feito. Quando a pessoa age conscientemente e só pede desculpas depois de ser descoberta, o pedido tem menos de arrependimento e mais de conveniência.

No fundo, certas caçambas não recebem apenas restos de obra. Recebem também pequenas amostras do caráter de quem passa por elas. E há gente que, diante de uma caçamba alheia, enxerga não o limite do outro, mas uma oportunidade para externar sua pequenez.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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