O escritor e psicanalista Mário Frazão concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Opção e falou sobre a trajetória que o levou a transformar experiências pessoais, estudos de psicanálise e a experiência acumulada em mais de 90 livros escritos como ghostwriter em sua primeira obra de cunho não acadêmico, Não Procure Seu Ex, Procure Seu Eu – A psicanálise dos términos: por que é tão difícil seguir quando o casal acaba. Natural de Minaçu, em Goiás, Mário retorna à capital goiana no dia 28 de agosto para o lançamento do livro, pela Luzes Editorial.

Da voz dos outros à própria narrativa

Durante anos, Mário esteve acostumado a escrever histórias de empresários, artistas, atletas e políticos sem necessariamente aparecer como autor. A mudança para uma narrativa em primeira pessoa exigiu um novo exercício.

“A dificuldade foi mais de organizar o tempo, entre minhas demandas e clientes e meu projeto pessoal”, afirma. Segundo ele, havia também uma necessidade pessoal que só foi percebida durante o processo.

“Existia um anseio por falar a partir de mim mesmo que conscientemente eu desconhecia.” A obra levou três anos para ser concluída, período que, segundo o escritor, acabou sendo positivo. “Deu tempo de enfrentar novos términos e ter mais material para o livro”, conta.

A experiência como ghostwriter, porém, também ajudou a construir o olhar que Mário lança sobre as relações humanas. “Sempre digo que não escrevo ‘para’ o outro, escrevo ‘no lugar’ do outro”, explica. Para ele, esse exercício exige uma capacidade particular de se colocar na perspectiva alheia.

“Isso demanda um exercício muito complexo de alteridade.” Ao escrever sobre si, no entanto, percebeu que os medos que testemunhava nos autores para quem trabalhava também estavam presentes nele. “O que descobri é que eu tenho as mesmas questões, dúvidas e medos quando se trata de mim”, revela.

Quando o término vira luto

O livro nasceu da confluência entre experiências pessoais, observações feitas na clínica e a percepção de que a sociedade costuma minimizar o sofrimento causado pelo fim de uma relação. Mário conta que passou anos observando os próprios processos de luto após términos e percebeu que outras pessoas apresentavam dificuldades semelhantes.

“A cada término que eu vivia, o sofrimento parecia ser mais intenso e exigia de mim um gasto maior de energia”, relata. A experiência também apareceu nas demandas de pacientes e colegas psicanalistas, reforçando a percepção de que aquele não era um sofrimento isolado.

A partir dessa constatação, o autor passou a questionar a forma como a dor provocada pelo fim de um relacionamento é tratada. “Como as dores de amor sempre foram — e continuam sendo — tratadas como algo menor, menos importante e, por conseguinte, menos grave, o poder de desorganização que essas dores têm sobre a nossa vida também é negligenciado.”

Para Mário, frases aparentemente bem-intencionadas, como “vira a página” ou “foi um livramento”, podem contribuir para desconsiderar a dimensão do processo vivido por quem acabou de perder um vínculo importante. “Essas frases, por mais bem-intencionadas, não apenas não ajudam quem está no processo, como demonstram o reducionismo dessa dor”, avalia.

“Procure seu eu”

A proposta central do livro é deslocar o foco da tentativa imediata de superar ou substituir o antigo parceiro para a necessidade de compreender o próprio sofrimento. Mário explica que a intensidade da dor não significa necessariamente que aquela pessoa tenha amado mais. “Não é porque alguém está sofrendo muito que amou demais”, afirma.

Segundo ele, muitas vezes a intensidade do sofrimento está relacionada ao quanto a pessoa renunciou a si dentro da relação. “Em geral, sofre mais quem abriu mão de si em função do outro e, portanto, agora sente menos sustentação de si mesmo com a partida do amor.”

Por isso, a orientação presente no título funciona como uma provocação: em vez de procurar o ex, procurar a si próprio. Mário defende que o processo não deve ser acelerado por uma nova relação ou por tentativas de fugir da solidão. “Sem pressa para encontrar outro amor, sem autossuborno pra suportar a solidão e prestando atenção na sintomatização que o próprio corpo produz”, orienta.

Para o escritor, enfrentar a dor pode ser necessário para que uma eventual relação futura seja construída de maneira mais saudável. “Sem fugir do sofrimento, para que a próxima relação, caso haja, nos encontre inteiro e não aos pedaços.”

Ele resume a ideia em uma frase que sintetiza a proposta da obra: “Não existe essa de um amor para curar outro amor, porque amor não é band-aid.”

Literatura, linguagem e psicanálise

A relação de Mário com a psicanálise começou ainda durante a graduação em Letras na Universidade Federal de Goiás, por volta de 2009 e 2010. “Eu conheci a psicanálise ainda na Faculdade de Letras”, lembra.

O contato permaneceu ao longo de sua formação acadêmica, inclusive durante o mestrado em Linguística, quando estudou o transe mediúnico no candomblé. “A psicanálise não veio depois, ela veio junto”, explica.

Mais tarde, a formação na Escola Paulista de Psicanálise ampliou esse repertório e passou a ter também uma função profissional, especialmente no trabalho como ghostwriter. “Muitos clientes meus queriam falar sobre mente humana, e a psicanálise é o que me dá essa base teórica para produzir textos consistentes e confiáveis nessa temática”, afirma.

Mais de 90 histórias e uma própria

As mais de 90 obras escritas para outras pessoas também deixaram marcas na forma como Mário compreende o comportamento humano. Empresários, artistas, atletas e políticos compartilharam com ele experiências que acabaram formando uma espécie de repertório de histórias, conflitos e escolhas.

“É uma bagagem constitutiva do meu modo de pensar, de ser e, também, de escrever”, diz. “Todas as histórias que ouvi e escrevi me atravessam.”

O escritor afirma que essa experiência contribuiu para formar uma visão múltipla sobre o ser humano. “Elas me ajudam a compor essa perspectiva caleidoscópica que é o ser humano.”

De volta às origens

O lançamento em Goiânia, marcado para 28 de agosto, também representa um retorno simbólico às origens. Natural de Minaçu, Mário iniciou em Goiás sua trajetória no mercado editorial antes de consolidar a carreira em São Paulo. O evento na capital goiana ocorre um mês depois do lançamento paulista e foi motivado, segundo ele, pela cobrança de amigos.

“Foram os amigos de Goiânia que me exigiram, nas redes sociais, fazer um lançamento aí”, conta, entre risos. A volta, entretanto, tem um significado que vai além da divulgação da obra. “Para mim é muito bonito isso, uma realização maior que o próprio livro”, afirma.

A própria história pessoal do escritor também se conecta ao retorno. Seu primeiro marido, com quem viveu durante dez anos e que se tornou personagem da obra, saiu de Goiânia com ele para São Paulo. “De alguma forma existe um cenário de fundo que começa em Goiás”, narra.

Agora, Mário volta à cidade onde iniciou sua trajetória profissional para apresentar uma obra em que, pela primeira vez, não escreve no lugar de outra pessoa. “Eu me expus bastante, na medida necessária para criar a identificação com o leitor que eu tanto almejo”, destaca.

Depois de anos dando voz às histórias alheias, o escritor coloca a própria experiência no centro da narrativa para discutir uma dor que, segundo ele, é universal: o que acontece com o indivíduo quando um relacionamento termina e ele precisa, antes de qualquer coisa, reencontrar a si mesmo.

Leia também:

Drops Vaca Amarela dá largada às comemorações de 25 anos do festival