Escritor goiano publica livro que transforma memórias pessoais em um museu sobre infância, afeto e pertencimento
17 agosto 2026 às 11h20

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Uma criança que não foi sonhada no tempo certo e um adulto que, anos depois, tenta se sentar ao lado dela. É a partir dessa frase/imagem que Rabiscos: um museu para se chamar de casa, primeiro livro de Matheus Godoy, constrói sua narrativa. A obra parte de experiências pessoais, mas não se prende à tentativa de contar uma história particular. Pelo contrário. Ao transformar memórias em salas de um museu imaginário, o escritor cria um espaço para que o leitor reconheça também as próprias lembranças, conflitos e afetos.
Matheus é escritor e estudante de Psicologia, além de estar em formação em Psicanálise. Sua trajetória também passa pela área de relações humanas e sociais e por estudos em Gestalt-terapia. Essa experiência atravessa o livro, mas não aparece como uma tentativa de transformar a literatura em tratado psicológico ou autoajuda. A narrativa está mais presente na maneira como ele observa as relações, os sentimentos e, principalmente, as contradições que fazem parte da experiência de existir.
A ideia do livro começou a tomar forma depois de uma visita à Casa Cor, em junho. O que poderia ser apenas um passeio por ambientes decorados acabou despertando no escritor uma série de lembranças, segundo contou o jovem à reportagem do Jornal Opção. “Essa atmosfera gerou em mim um aspecto muito doido, muito interessante. Porque eu lembrei dos meus pais. O fato de que as músicas que tocavam eram músicas que a gente ouvia juntos. Os livros que estavam lá expostos eram livros também que a gente tinha lido, que a gente estava experienciando juntos”, conta.
A partir daquele momento, a Casa Cor deixou de ser apenas um espaço físico e tornou-se uma imagem para pensar a própria existência. “O ambiente como um todo era um ambiente de casa. Tanto que o livro veio justamente para falar de como transformar tudo isso em casa”, explica.
É dessa tentativa que nasce a ideia central da obra. Para Matheus, escrever é também uma maneira de organizar, ainda que de forma imperfeita, aquilo que foi vivido. “Acho que a lógica por trás do livro é essa de rabiscar uma experiência, rabiscar uma existência até que ela possa ser um convite para que a gente esteja em casa, para que a gente construa uma casa de alguma maneira, para a gente conseguir existir”, explica à reportagem.

Uma história que não quer expor ninguém
Apesar de partir de experiências pessoais, o escritor revelou que escolheu a autoficção para construir a narrativa. A decisão teve, primeiro, uma razão bastante concreta: não expor as pessoas que fizeram parte de sua história.
Em vez de transformar relações reais em personagens facilmente identificáveis, o escritor preferiu retirar a literalidade dos acontecimentos. O que permaneceu foram os sentimentos, os conflitos e as perguntas que aquelas experiências provocaram. Mas a escolha pela autoficção também tinha outro objetivo: fazer com que a história deixasse de ser apenas dele. “Eu prezei por dar uma visão poética, por dar uma visão de que qualquer pessoa que lesse aquele livro conseguiria se identificar de alguma maneira também”, afirma.
A estrutura de Rabiscos também foge da ideia de uma narrativa linear. Em vez de apresentar a vida em uma sequência organizada de acontecimentos, Matheus criou um percurso formado por salas.
A escolha conversa diretamente com a maneira como as lembranças aparecem na vida real. Uma música pode levar alguém para a infância. Um cheiro pode recuperar uma pessoa. Um livro pode fazer surgir uma conversa esquecida há anos. A memória não respeita uma linha reta. O livro também não. “Apesar de ele ser muito fácil de ler, muito leve, por conta do aspecto poético dele, não é uma poesia, nem é prosa. É algo que está dentro e entre isso”, define o escritor.
A obra também incorpora músicas e obras de arte à narrativa, reforçando a sensação de que o leitor está percorrendo uma exposição. “É como se a gente realmente estivesse entrando num museu”, diz.
Para Matheus, essa estrutura também é uma maneira de respeitar a própria desorganização da vida. “Porque a nossa vida não é organizada. A nossa vida não é um ritmo literário bonitinho, uma bibliografia. Ela é totalmente desorganizada. A gente pensa coisas, a gente fala coisas, a gente tem visões diferentes”, reflete.
Essa desorganização, no entanto, não aparece como um problema a ser corrigido. Ela faz parte da experiência humana. Pensamentos se contradizem, sentimentos mudam, pessoas que amamos podem nos machucar e momentos felizes podem coexistir com lembranças dolorosas.
Entre as partes mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais prazerosas da escrita, Matheus destaca uma sequência de capítulos que aborda justamente essa ambivalência das relações. Entre eles estão “O Colo” e “Mordaça”. A escolha dos títulos revela parte da tensão.
O colo representa acolhimento, proteção e cuidado. A mordaça, por outro lado, representa o silêncio, a perda da voz e a impossibilidade de dizer aquilo que se sente. Mas, para Matheus, essas duas coisas podem existir dentro de uma mesma relação. “São três capítulos que estão juntos e que falam sobre eu compreender as minhas relações de uma maneira que elas são ambivalentes. Então, ao mesmo tempo que as pessoas podem cuidar de outras, elas podem também amordaçar, de alguma maneira, essas pessoas.”
É justamente essa contradição que o escritor tenta investigar. Uma pessoa pode oferecer proteção e, ao mesmo tempo, limitar. Pode amar e, ainda assim, fazer com que o outro sinta que não pode falar. E é dessa contradição que surge uma questão ainda mais dolorosa: “A gente fica preocupado de que, se essas pessoas que me amam também me amordaçam, elas tiram a minha voz de alguma maneira, então em quem eu posso confiar?”
A pergunta não aparece no livro como uma questão de resposta simples. Matheus parece interessado justamente no desconforto provocado por ela. As relações humanas não são formadas apenas por afetos positivos ou negativos. Muitas vezes, as duas coisas convivem.
Escrever também foi revisitar a própria história
Se transformar experiências pessoais em literatura permitiu que Matheus criasse uma narrativa mais universal, o processo de escrita também exigiu que ele voltasse a lugares difíceis da própria história. “Foi muito difícil. Foi muito doloroso, assim. O livro me gerou muitos sentimentos, muitas coisas, tanto positivas, negativas, indiferentes”, relata.
Para construir a obra, ele precisou recuperar acontecimentos, sensações e relações. Ao mesmo tempo, precisou decidir o que deveria permanecer e o que deveria ser retirado. “Tive que buscar na minha história vários aspectos para poder montar o livro e tirar ao mesmo tempo”, conta.
Esse movimento de colocar e retirar foi fundamental para que a narrativa não se tornasse apenas uma reprodução da vida do autor. “Também teve esse ponto: tive que tirar muita coisa e tirar muita literalidade daquilo para gerar essa visão universal.”
O resultado é uma obra que parte da intimidade, mas não pretende aprisionar o leitor na intimidade do autor.
Matheus não espera que o leitor termine o livro com uma única interpretação. Se existe um desejo para a obra, é justamente que cada pessoa encontre alguma coisa própria no percurso. “Eu gostaria de que cada leitor levasse um pouco de si dessa experiência.”
A transformação, nesse caso, não precisa ser grandiosa. Pode estar em uma lembrança que passa a ser vista de outra maneira, em uma relação que ganha outro significado ou simplesmente na percepção de que determinadas partes da própria história ainda precisam ser acolhidas. “Eu gostaria de que cada um pudesse olhar para o livro e entendesse que tem algo dele ali dentro e que algo possa ser transformado, possa ser modificado, possa ser mais bem colocado, bem visto. Então, que haja realmente uma transformação.”
Rabiscos: um museu para se chamar de casa nasce de uma história particular, mas tenta não permanecer preso a ela. Ao transformar a própria experiência em literatura, Matheus Godoy cria um espaço para falar sobre pertencimento, memória, afeto, silêncio e as marcas que carregamos ao longo da vida.
No fim, talvez o museu seja menos sobre as obras expostas e mais sobre quem caminha por suas salas. Cada leitor entra carregando sua própria história.
E talvez sair seja justamente isso: voltar para casa, mas olhando para si mesmo de um jeito diferente.
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