A sempre-viva e rediviva Amália Hermano Teixeira em e-book
29 agosto 2026 às 21h00

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Paulo Rolim
Contar a trajetória de Amália Hermano Teixeira (1916-1991) é revisitar uma das mais singulares histórias de dedicação à educação, à ciência, à cultura e à preservação da natureza em Goiás.
Mulher de múltiplos saberes e inquietações, pertenceu a uma geração de pioneiros que ajudou a pensar o Estado para além de suas fronteiras, compreendendo muito cedo que desenvolvimento, conhecimento e preservação deveriam caminhar juntos.
Professora, pesquisadora, jornalista, advogada, escritora e ambientalista, Amália transitou por diferentes campos do conhecimento. Daí a propriedade do termo “polivalente”, escolhido para integrar o título da obra que agora recupera sua vida e seu legado
Nascida em Natividade, no então Norte de Goiás — território que décadas mais tarde passaria a integrar o Estado do Tocantins —, Amália construiu uma trajetória excepcional em uma época na qual às mulheres ainda eram impostas inúmeras barreiras de acesso aos espaços de decisão, à pesquisa científica e à produção intelectual.

Educação, natureza e conhecimento
Na educação, Amália teve atuação marcante nos Clubes Agrícolas de Goiás, especialmente na década de 1950. O trabalho desenvolvido nessas organizações aproximava a escola da realidade do campo, levando aos estudantes conhecimentos relacionados à agricultura, ao cultivo, à utilização racional dos recursos naturais e à valorização da terra.
Vista à distância de mais de sete décadas, essa atuação assume significado ainda maior. Temas hoje incorporados ao cotidiano — educação ambiental, sustentabilidade, preservação dos recursos naturais e consciência ecológica — já estavam, ainda que sob outras denominações, entre suas preocupações.
Na observação e no estudo da natureza, Amália encontrou também uma de suas grandes paixões: as orquídeas. Seu nome ficou associado à botânica e, de maneira especial, à Cattleya nobilior amaliae, perpetuando-o no universo das orquídeas brasileiras.

Natureza, sensibilidade e conhecimento conviviam em seu cotidiano. Muito antes de a defesa do meio ambiente adquirir a dimensão pública e mundial que possui hoje, Amália já manifestava preocupação com a conservação das riquezas naturais, integrando uma geração precursora da consciência ambiental em Goiás.
Uma intelectual de muitas dimensões
Seria insuficiente, entretanto, lembrá-la apenas como educadora, pesquisadora ou ambientalista.
Amália escreveu para jornais, realizou pesquisas, participou da vida cultural goiana e dedicou-se à preservação da memória histórica do Estado. Sua produção alcançou também a historiografia, tendo entre seus legados a obra “História de Goiás”, publicada postumamente.
O livro eletrônico sobre Amália amplia as possibilidades de acesso, circulação e preservação documental, levando fotografias, textos e registros históricos a leitores muito além de Goiás. Nesse sentido, a tecnologia não substitui a memória: coloca-se a serviço dela
Ao seu lado esteve Maximiano da Matta Teixeira, companheiro de uma longa jornada de vida, projetos e realizações. O casal participou intensamente da vida social e cultural da nova capital e estabeleceu relações com importantes personalidades do meio intelectual e artístico brasileiro, entre elas Jorge Amado, Zélia Gattai e Roberto Burle Marx.

Literatura, artes, botânica, arquitetura, política e história encontravam espaço nesse universo de relações, em uma época de construção de uma cidade, de uma identidade e de novas possibilidades para Goiás.
Amália participou desse processo como mulher e intelectual, enfrentando limitações, preconceitos e convenções sociais sem abdicar da liberdade de pensar, pesquisar, escrever e agir.
História de vida em páginas eletrônicas
É essa Amália — intelectual e humana, pública e familiar, cientista e sensível — que ressurge em “Amália Hermano Teixeira Ambientalista e Polivalente1”.
O e-book reúne fotografias, documentos, recortes de artigos publicados por Amália, matérias de jornais, registros históricos, relatos e memórias de viagens, além de textos que reconstroem diferentes momentos de sua vida. O conjunto permite compreender a personagem dentro de seu tempo e perceber o quanto determinadas ideias que defendeu permanecem contemporâneas.
Legado de Amália Hermano permanece nas pesquisas que realizou, nos textos que escreveu, nas pessoas que ajudou a formar, na defesa da natureza, na memória cultural e no nome de uma orquídea que atravessa o tempo carregando consigo parte de sua história
A idealização do livro nasceu da iniciativa de Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado e de Narcisa Abreu Cordeiro, com o propósito de resgatar, organizar, preservar e difundir a memória e o legado de Amália.
A proposta ganhou amplitude com outros autores, documentos, fotografias, depoimentos, registros familiares e referências históricas, resultando em uma obra concebida não apenas como biografia e homenagem, mas também como fonte para futuras pesquisas sobre a história cultural, educacional e ambiental de Goiás.

Assinam o e-book Narcisa Abreu Cordeiro, arquiteta e urbanista, pesquisadora, escultora, ambientalista e escritora; Ana Carolina d’Abreu Carvalho Pires, genealogista, escritora, pesquisadora e médica especializada em diagnóstico por imagem; Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, professor, historiador, escritor, pesquisador e doutor em Geografia; Jacira Rosa Pires, arquiteta e urbanista, professora, pesquisadora e escritora; Maria Luiza Póvoa Cruz, jurista, advogada, escritora, professora e egressa da magistratura; e Paulo José Américo Rolim, editor, produtor cênico, jornalista e escritor.
Da memória histórica ao livro eletrônico
A publicação em formato digital acrescenta outra dimensão ao projeto. Se Amália dedicou grande parte de sua existência à circulação do conhecimento, a tecnologia permite agora que sua própria história ultrapasse os limites físicos de bibliotecas, arquivos e coleções particulares.
O livro eletrônico amplia as possibilidades de acesso, circulação e preservação documental, levando fotografias, textos e registros históricos a leitores muito além de Goiás. Nesse sentido, a tecnologia não substitui a memória: coloca-se a serviço dela.

Publicada pela VoxLetter Editora Digital, a obra pretende também aproximar novas gerações de uma personagem importante para a compreensão da participação feminina na formação intelectual, científica e cultural do Centro-Oeste brasileiro. Resgatar Amália significa reconhecer a presença de mulheres que ajudaram a construir Goiás e nem sempre receberam, em seu tempo, a dimensão histórica correspondente às suas realizações.
O encontro com a Aflag
Embora Amália Hermano Teixeira não tenha sido membro de nenhuma instituição acadêmica, há especial simbolismo no local escolhido para o pré-lançamento: a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag)-Casa Rosarita Fleury, em Goiânia.
Fundada em 9 de novembro de 1969 por Rosarita Fleury, Nelly Alves de Almeida e Ana Braga, a Academia surgiu em um contexto no qual as mulheres ainda enfrentavam restrições para ocupar espaços tradicionalmente reservados aos homens no ambiente acadêmico e literário.
Sua criação representou a conquista de um espaço próprio para escritoras, musicistas, artistas e intelectuais goianas. Desde então, a Aflag consolidou sua presença na vida cultural de Goiás, abrangendo diferentes manifestações artísticas e humanísticas e contribuindo para a preservação da memória e a valorização da produção feminina.
Mais de meio século depois, permanece como espaço de encontro entre tradição e contemporaneidade, memória e criação. Receber uma obra dedicada a Amália Hermano Teixeira em sua sede ultrapassa, portanto, a simples escolha de um local para uma solenidade: é o encontro simbólico entre duas histórias marcadas pela afirmação da presença feminina na cultura goiana.
Amália Hermano vive
A obra que agora chega aos leitores apresenta não apenas os feitos de uma personalidade extraordinária, mas a dimensão humana de uma mulher que soube unir conhecimento, sensibilidade e ação.
Seu legado permanece nas pesquisas que realizou, nos textos que escreveu, nas pessoas que ajudou a formar, na defesa da natureza, na memória cultural de Goiás e até no nome de uma orquídea que atravessa o tempo carregando consigo parte de sua história.
Daí a expressão que sintetiza o espírito deste reencontro: Amália é sempre-viva porque sua obra permanece. E é rediviva porque, a cada vez que sua história é recuperada e contada, volta a ocupar o lugar que lhe pertence na memória de Goiás.
Paulo Rolim, escritor, jornalista e editor, é colaborador do Jornal Opção.


