Adalberto de Queiroz

Especial para o Jornal Opção

Nos artigos anteriores desta série, comecei perguntando: o que acontece a um cosmopolita quando o mundo em que o cosmopolitismo fazia sentido deixa de existir? Examinei pela lente de minhas leituras e de conversas com pesquisadores o que isso significou de trágico para Stefan Zweig, que respondeu com o desespero — e, quem sabe, protesto —, ao se suicidar em Petrópolis.

Depois, trouxe uma amostra da vida de Paulo Rónai, outro centro-europeu no Brasil, que encontrou no trabalho um saudável narcótico e se fez um literato, evitando a depressão e crescendo para além do mero tradutor que poderia ter sido.

Em seguida, no que fora o mais trabalhoso e complexo até aqui, desses artigos sobre escritores europeus que adotaram o Brasil como pátria, abri as portas da compreensão pessoal (e, espero de meia dúzia de leitores) para o talento e a inovação do filósofo tcheco brasileiro Vilém Flusser.

Otto Maria Carpeaux capa de ensaios reunidos 500

Agora, há algumas semanas, titubeio entre como mostrar o personagem desses quatro cavaleiros do apocalipse nazista, também obrigado a migrar para o Brasil, onde se tornou um mestre da crítica – o austríaco Otto Maria Carpeaux, nascido Otto Karpfen, em 1900, e que morreu no Brasil em 1978, depois de uma profícua carreira na crítica feita em jornal inicialmente e, depois, nos inúmeros livros, pois parecia ter lido tudo e se tornado uma biblioteca ambulante (ou uma enciclopédia — uma espécie de Karpogoogle sobre cultura).

Se os imigrantes sentem o desenraizamento, isto é, viver sem raiz como uma condição comum a todos que atravessam esse tipo de fronteira, Otto não parece ter sentido tão profundamente essa condição, pois escolheu esquecer sua nacionalidade austríaca, seu passado, sua fé e escrever com sua vida uma nova história.

Há similaridade entre guinadas de Koestler e as de Carpeaux. Uma vez estabelecido no Brasil, o crítico austro-brasileiro se diz disposto a tudo fazer em prol da causa católica, mas, às vésperas da morte, pede à mulher que não permita o símbolo da cruz em seu túmulo

Diante da mesma catástrofe histórica pela qual passaram os europeus da diáspora causada pelo nazismo, ele respondeu de uma forma totalmente diferente. Chegou ao nosso país e começou escrevendo em francês e, auxiliado por um tradutor, publicava seus artigos, até decidir-se a aprender o português, mas há uma história anterior que merece ser contada.

Otto Maria Carpeaux foto reprodução ok5 867
Otto Maria Carpeaux: o crítico era um Carpogoogle da cultura ocidental | Foto: Reprodução

O poeta e crítico literário Wladimir Saldanha nos recorda que, ao deixar Viena, Otto vagou de porto em porto como refugiado até chegar ao Consulado Geral do Brasil em Antuérpia, em julho de 1938 e, em Bruxelas, encontrou um texto de Machado de Assis (a crônica “O velho Senado”), que o animaria a aprender o português. Portanto, resume Saldanha: “Sai com essa decisão para o novo país [Brasil], onde escreverá sem auxílio de biblioteca, já que deixara todos os seus livros na Europa. Munido apenas de um missal e de sua prodigiosa memória, zarpa rumo ao Brasil, onde logo impressionaria por sua cultura” .

Otto era um austríaco erudito com seu missal romano numa precipitada fuga de Viena para os trópicos. E isso me faz pensar em Vilém Flusser, que deixou sua pátria (Tchéquia), inicialmente rumo a Inglaterra e, depois, para o Brasil munido de um livro de preces judaico, que se perdeu no caminho.

O sr. Karpfen, tendo já se tornado Otto Maria Carpeaux e batizado católico romano, mantém seu missal até à morte, mas perde sua fé. Na precipitada fuga de Viena, tem em sua posse apenas aquele livro de rezas.

A história do desencanto e do desalento de Carpeaux, no seu percurso (ou guinada) de europeu conservador e católico até decidir por uma militância esquerdista, no Brasil do final da década de 1960, não exime o articulista de levantar outros véus da vida de um homem sobre o qual já se disse tudo e, talvez, sobre quem muitas batalhas ainda se travam sobre o aspecto de sua ideologia, não sem ressaltar que para ele talvez isso não fosse tão importante.

Otto Maria Carpeaux caminhos para Roma 500

Isso é o que Carpeaux deixa entrever em “Homens e destinos ”, ao falar de Alighiero Tondi, escritor da geração de 1908, filho de livre-pensador, educado sem religião, convertido em 1936 ao catolicismo romano, fazendo-se jesuíta, nomeado vice-presidente do Instituto de Cultura Superior e Religiosa, em Roma. Conquistador de muitas almas descrentes durante o Ano Santo de 1950 e, em 1952, se torna membro do Partido Comunista Italiano. E conclui:

“Já estamos em meio do infernal chassez-croisez dos comunistas e ex-comunistas. A direção das mudanças, para a direita ou para a esquerda, não parece ter a importância que lhe atribuem… Arthur Koestler acaba de descrever seu tortuoso caminho de vida — meninice em Budapeste, estudante em Viena, emigrante na Palestina, jornalista em Berlim, comunista na Rússia, correspondente de guerra condenado à morte na Espanha franquista, representante máximo do anticomunismo ocidental — em sua autobiografia ‘Arrow in the Blue’, mais uma prova do que o caracteriza: seu extraordinário talento de repórter…”.

Jornalista por profissão e crítico literário por vocação, Carpeaux deixou-nos uma obra constituída por coletâneas de ensaios sobre literatura, cultura, música, textos de intervenção política, prefácios e introduções. Some-se a isso a publicação de obras de cunho generalista

Há similaridade com as guinadas de Carpeaux do jovem autor de “Caminhos para Roma: Aventura, Queda e Vitória do Espírito” (1934), publicado em Viena com o nihil-obstat do monsenhor Jakob Fried, ao homem que, uma vez estabelecido no Brasil, se diz disposto a tudo fazer em prol da causa católica, mas, às vésperas da morte, pede à esposa que não permita o símbolo da cruz em seu túmulo.

Otto Maria Carpeax capa de História da Literatura Ocidental 500

Na apresentação da reedição desse primeiro livro de Carpeaux, Bruno Mori sintetiza o caminho espiritual de Carpeaux assim:

“Otto Karpfen, filho de pai judeu e de mãe católica, conclui seus estudos de Química, na Universidade de Viena, em 1925, casa-se em 1930. Decide assinar-se, uma vez convertido ao catolicismo em 1932, Otto Maria Karpfen. Deixa a Áustria logo após a anexação à Alemanha, deixa a Bélgica pouco antes da invasão da Polônia. Conservador da herança cultural europeia, traz também cartas de recomendação de eminentes católicos.

“(…) vem a estabelecer-se na cidade do Rio de Janeiro em 1941, onde passa a ganhar o sustento como articulista de jornais e diretor de bibliotecas. Durante 1944 e 1945, cinco anos subsequentes às suas duas primeiras obras em português, atinge a sua maior estatura com a redação dos volumes da ‘História da Literatura Ocidental’. Dissipa-se, pouco a pouco, a concentração de espírito. Embora tenha escrito em favor da deposição de João Goulart, acaba tomando o partido dos esquerdistas e oferece à causa deles os seus últimos e mais rasos artigos, até morrer a morte miserável de um ‘”homem sem religião’ em 1978. O temor de confessar abertamente a fé perante uma corporação materialista de tolos responde pelo visível declínio de um homem que aqui chegara disposto “a prestar serviços úteis à causa católica, à qual devotei a vida. ”

Otto Maria Carpeaux capa de biografia de Mauro Souza Ventura 500

Serviços de grande utilidade e grande erudição, sim, isso Carpeaux nos legou, pelo volume de obras publicadas e pelo respeito angariado no mundo literário (e musical, pois também foi autor de obras sobre música clássica), e se vê envolvido em várias polêmicas, como a acusação de plágio (de textos de Walter Benjamin) e até a quase farsesca acusação de colaboração com os nazistas, mas o que fica é sua contribuição à formação literária brasileira, como acentua seu biógrafo Mauro Souza Ventura:

“A trajetória e a obra crítica de Otto Maria Carpeaux (1900-1978) podem ser compreendidas como um capítulo especial no processo de formação da cultura literária no Brasil. Isto se deve a múltiplos fatores, mas, sobretudo, por sua atuação constante entre as décadas de 1940-1970, período no qual ele exerceu aquilo que pode ser denominado de crítica prática, feita de centenas de artigos publicados em jornais e revistas diversos, num ritmo quase semanal. Jornalista por profissão e crítico literário por vocação, Carpeaux deixou-nos uma obra constituída por coletâneas de ensaios sobre literatura, cultura, música, textos de intervenção política, prefácios e introduções. Some-se a isso a publicação de obras de cunho generalista, como a ‘Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira’, de 1949, ‘Uma Nova História da Música’, de 1958, ‘A Literatura Alemã’, de 1964, ou a monumental ‘História da Literatura Ocidental’, publicada entre 1959 e 1966. Contribuiu igualmente para esse processo sua atividade de bibliotecário nas décadas de 1940-50 e a participação no projeto das enciclopédias Barsa, Delta Larousse e Mirador, nos anos subsequentes.”

Zweig, Rónai, Flusser e Carpeau experimentaram com intensidade a situação crítica do estranhamento. Carpeaux, Flusser e Zweig viveram uma parte importante de suas vidas como deslocados e conseguiram observar temporalidades e historicidades distintas

Quanto às questões polêmicas em torno do meu personagem, decidi não citar documentos consultados sobre o tema porque o assunto já foi exaurido em livros e teses sobre a vida do autor austro- brasileiro.

Otto Maria Carpeaux história da música ok2500

Destaco aqui a comunicação apresentada por Eduardo Gomes Silva nos Anais do XXVI Simpósio Nacional de História (ANPUH), São Paulo, julho 2011 — “Reacionário” ou “progressista”? A disputa acadêmica e editorial em torno da memória de Otto Maria Karpfen/Carpeaux que pode ser uma boa síntese dessas polêmicas.

O austríaco Carpeaux se mostra disposto a esquecer a Europa, embora, como acentua o poeta, tradutor e crítico literário Ivan Junqueira : “Carpeaux jamais seria o que foi no Brasil sem aqueles anos que viveu em Viena, Berlim, Roma e Amsterdã”. No seu ensaio “Reminiscências vienenses ” deixa pistas desse desejado esquecimento da cidade de origem como um mal-estar na memória:

“Quando perguntam pela minha cidade natal, costumo responder: ‘Sou de Viena, sim, senhor; mas, pelo amor de Deus, não me falem em valsas nem em psicanálise’. Não desconheço os encantos do ritmo de três tempos — os primeiros compassos da valsa mais banal serão capazes de comover, por um instante, um vienense que pretende viver e morrer longe da sua terra. (…) A psicologia da cidade às margens do Danúbio Azul não se resume em alguns termos pseudocientíficos já usados pelos caixeiros-viajantes e pelos speakers de rádio em toda parte; e o Danúbio não é azul, na verdade, e sim verde-sujo, um rio prosaico que corre entre chaminés e terrenos baldios, longe das igrejas góticas e palácios barrocos do centro. Viena é cidade de trabalho. Aqui sabem disso principalmente os médicos. Viena já foi a Meca deles. Uma rua de Viena, no bairro dos edifícios universitários, imortaliza o nome do professor Skoda, fundador da clínica moderna. Foi ele que rompeu com as teorias fantásticas dos médicos do seu tempo, sentando-se perto da cama do doente, observando ceticamente, lembrando o aforismo de Hipócrates: ‘A Vida É Breve, a arte é longa, a ocasião é fugitiva, a experiência é falaz, o julgamento é difícil’… Ainda hoje, a folha branca na qual estou escrevendo se me escurece, sombras caem em cima do papel, e os primeiros compassos da valsa mais banal seriam capazes de comover profundamente. Não há, nessa reminiscência nada de bailes nem de bailados, mas um eco triste do apagado ‘exultate, jubilate’ que cantam os anjos de Viena.”

Otto Maria Carpeaux capa de as revoltas modernistas500

O austríaco Karpfen que virou o brasileiro Carpeaux, mesmo na gangorra da fé, andou no fio da navalha produzindo (e muito) todo o tempo que passou no Brasil. Se perdeu a fé religiosa, não a perdeu na literatura e na crítica. Seu nome consta do dicionário digital dos emigrados da Europa Central (em inglês, “International Biographical Dictionary of Central European Emigrés” ) e seu biógrafo (Mauro Souza Ventura) faz referência à produção de 442 artigos de jornal sobre literatura e arte, durante o período de 1941-1977, com periodicidade semanal, além dos mais de 1500 ensaios publicados em cerca de 15 livros.

Embora não tendo uma editora com gestão germânica, em virtude de proibições da legislação brasileira, Carpeaux conseguiu publicar muito. É sintomático que, no seu leito de morte, quem por último o visita no hospital é o editor Joaquim Campello, da Alhambra, e conversam sobre a coleção “História da Literatura Ocidental” cuja edição estava em andamento.

O Brasil foi o 2º país de asilo mais importante da América Latina nos anos 1930 (328.607 imigrantes entre 1931-1940); cerca de 16.000 alemães/austríacos de fala alemã entraram no país nesse período. Escritores de fala alemã mais representativos no exílio brasileiro: Stefan Zweig (1881-1942), Paula Ludwig, Leopold von Andrian-Werburg, Ulrich Becher, Marthe Brill, Hugo Simon. Intelectuais que “fizeram carreira” e se tornaram referência da cultura brasileira: Otto Maria Carpeaux (1900-1978), Herbert Moritz Caro (1906-1991), Anatol Rosenfeld (1912-1973), Vilém Flusser (1920-1991), Paulo Rónai (1907-1992) e o casal Egon e Frieda Wolff fazem parte do grupo da “diáspora intelectual centro-europeia”.

Otto Maria Carpeaux pequena bibliografia500

(Vale consultar o “Dicionário dos Refugiados do Nazifascismo no Brasil”, editado pela Casa Stefan Zweig, com coordenação de Israel Beloch, consultoria de Fábio Koifman e produção de Kristina Michahelles.)

Sabe-se que, ao contrário do México e da Argentina, os escritores de fala alemã exilados no Brasil não conseguiram fundar editora própria nem publicar facilmente em editoras brasileiras (por força do decreto-lei 3.175/41 antissemita), o que explica a menor importância do Brasil como polo de produção da literatura de exílio alemã.

Todos os autores dessa série de artigos experimentaram com intensidade, dada a vivência do exílio, a situação crítica do estranhamento. Carpeaux, Flusser e Zweig viveram uma parte importante de suas vidas como deslocados e nessa condição conseguiram observar de forma peculiar temporalidades e historicidades distintas (…):

“A assimilação, o desenraizamento ou o suicídio foram as respostas dadas a um tempo de crise, mas também foram marcas do compromisso ético desses intelectuais. A perda do lugar de fundação como condição de vida permitiu que muitos exilados se reinventassem nesse processo, bem como criassem novos possibilidades sobre a interpretação do mundo que a sua volta parecia entrar e permanecer em colapso. Os exilados, excluídos de sua comunidade de origem e de qualquer destino coletivo, tornaram-se cientes da responsabilidade de criar o seu próprio trajeto e assim fizeram Carpeaux, Flusser e Zweig”, conclui Maurício Parada, em sua tese “Reinvenções de Si: O Exílio Como Deslocamento e Crítica”, tese apresentada, em 2016, ao evento III Jornadas de Trabajo sobre Exilios Políticos del Cono Sur en el siglo XX .

Esses três, excluídos de sua comunidade de origem e de qualquer destino coletivo, tornaram-se cientes da responsabilidade de criar o próprio trajeto de uma nova vida no país adotado. Quando incluímos o quarto elemento, somos levados a concluir com Von Brunn: “Sua vida [Carpeaux] faz pensar na autobiografia de Stefan Zweig, ‘O Mundo Que Eu Vi’, exilado como ele no Brasil. Mas, ao passo que o autor de ‘Uma Partida de Xadrez’ morreu no paraíso, Otto Maria Carpeaux venceu esta partida e fez-se uma nova pele, uma nova cultura e uma nova identidade no Brasil”.