Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Willa Cather e a imaginação dos pioneiros

Escritora norte-americana fala de fronteiras e ocupação dos grandes espaços da América; dela se pode reafirmar com Carpeaux que “o catolicismo foi elemento significativo de sua arte”

Em 1923, Willa Cather recebeu o Prémio Pulitzer de Ficção por “One of Ours” (1922), romance ambientado no período da Primeira Guerra Mundial | Foto: Reprodução

Willa Cather, pseudônimo de Wilella Silbert Cather, nasceu em 7 de dezembro de 1873, tendo falecido em 24 de abril de 1947. A escritora norte-americana Cather alcançou reconhecimento por seus romances sobre a vida de fronteira na região das Grandes Planícies (EUA), em obras como “Ó, Pioneers!”, “A morte vem buscar o arcebispo”, “My Ántonia” e “The Song of the Lark”. Em 1923, recebeu o Prémio Pulitzer de Ficção por “One of Ours” (1922), romance ambientado no período da Primeira Guerra Mundial.

Em dado momento, Willa Cather se via filiada às lições do mestre de “A arte da ficção” (Henry James): “Para mim, ele era o escritor perfeito…a principal mente que já se aplicou à literatura na América. Todos nós, seus alunos queremos imitá-lo”. E em tom de confissão, conclui: “Comecei imitando Henry James”.

Willa Cather, entretanto, encontrou seu modo próprio de expressão e foi por este reconhecida; sendo autora de inúmeros belos romances, entre os quais confesso amar aquele que considero sua obra-prima “A Morte Vem Buscar o Arcebispo”; além, é claro, de “Ó, Pioneers!”, este inspirado no poema de mesmo nome de Walt Whitman.

Se é verdade que Tolstói diz a respeito de Dickens que “todos os personagens de Dickens são meus amigos pessoais”, também o é o que Claire Scorzi, uma amiga dos áureos tempos dos blogs dizia em 2005: “Todos os meus escritores favoritos são meus amigos pessoais. Não os conheço como indivíduos, a maioria deles já faleceu. Contudo eles me falam – como amigos. Cúmplices. Como pessoas a quem amo mesmo quando discordamos. E como eu discordo de Doris Lessing, de Fernando Pessoa, de Bilac – mas meu coração se abre carinhosamente para abrigá-los… “.

Ao final de uma apaixonada leitura de “A Morte Vem Buscar o Arcebispo”, posso afirmar que me sinto amigo desses dois personagens humaníssimos e cristãos – os padres Vaillant e Latour, ou, simplesmente, padres Joseph e Jean, missionários franceses, missionários nos Estados Unidos, do Novo México, aos desertos do Arizona e às montanhas rochosas do Colorado.

De Willa Cather, disse mestre Otto Maria Carpeaux que “o catolicismo foi elemento significativo de sua arte”, no que posso adicionar que é com sua arte que Willa aproxima o leitor de essência mesma do cristianismo, na escolha de personagens de carne-e-osso que são capazes de entender o milagre da vida, em meio às provações do dia-a-dia, no cotidiano duro da vida de missionários.

A melhor fotografia do Padre Vaillant no romance está num trecho das páginas 170-172 – onde se lê:

“Embora trabalhasse com padre Joseph (Vaillant) havia já vinte e cinco anos, jamais lograra solucionar as contradições de sua natureza. Simplesmente as aceitava, e, quando Joseph se ausentava por longo tempo, dava-se conta de que as amava todas. O seu vigário era um dos homens mais verdadeiramente espirituais que jamais conhecera, embora estivesse tão apaixonadamente apegado a tantas coisas deste mundo. Por mais que gostasse de comer e beber bem, não apenas observava rigorosamente todos os jejuns da Igreja como jamais se queixava da pobreza ou escassez do passadio nas suas longas jornadas missionárias. A inclinação do padre Joseph pelo bom vinho poderia ter sido considerada falta num outro homem. Mas, de constituição franzina, ele parecia necessitar de algum forte estimulante físico que lhe suportasse os súbitos arroubos de vontade e imaginação. Repetidas vezes, o Bispo vira um bom jantar, uma garrafa de clarete [vinho francês], transformarem-se, a seus olhos, em energia espiritual. De um pequeno festim, que tornaria outros homens sonolentos e desejosos de repouso, o Padre Vaillant saía revigorado, e trabalhava durante dez ou doze horas com aquele ardor e absorção que davam resultados tão duradouros”.

“(…) Nada do que se pudesse dizer do Padre Vaillant bastaria para explicá-lo. O homem era muito maior do que a soma de suas qualidades. Acrescentava um fulgor a qualquer espécie de comunidade humana em que lhe acontecesse ingressar. Um hogan Navajo, qualquer pequeno amontoado, abjetamente pobre, de choças mexicanas, ou a companhia de Monsenhores e Cardeais em Roma – dava tudo no mesmo.”

A paisagem recriada por Willa Cather é memorável neste livro. Os leitores viajamos com os dois padres missionários e temos o céu imenso da região por testemunha da dedicação cristã e de suas lutas às vezes inglórias contra os eventos naturais (neve, tempestades de poeira, imensas extensões desérticas, e os cânions…), de suas amizades com os Navajos e os mexicanos da perdida Arquidiocese do bispo Latour e das pedras de Santa Fé e a sua tão sonhada catedral à francesa (em estilo românico do Midi France).

“A viagem de volta a Santa Fé era coisa de umas quatrocentas milhas. O tempo alternava entre tempestades de areia enceguecedoras e sol brilhante. O céu estava cheio de movimento e mudança, ao passo que o deserto abaixo dele se estendia monótono e parado; e havia muito céu, mais do que no mar, mais do que em qualquer lugar do mundo. A planície ali estava, sob os pés do viandante, mas quando se olhava em derredor, só se via um brilhante mundo azul de ar ardente e nuvens movediças. Alhures, o céu era o teto do mundo, mas ali a terra era o chão do céu. A paisagem por que o viandante ansiava quando estava muito distante, a coisa que o cercava de todos os lados, o mundo em que na realidade vivia era o céu, o céu!”

Cavalgando pela estrada de Albuquerque a Santa Fé, o jovem bispo Jean-Marie Latour se perde em meio a árida região do Novo México central, perde-se, tem sede e se inspira na paixão de Cristo [no grito arrancado pelos algozes ao Salvador na cruz: “J’ai soif !“ (Tenho sede!)] para prosseguir em busca de seu vicariato e de sua missão. Ao final do livro, o arcebispo Latour contempla o pôr-do-sol, nas proximidades de sua catedral firmada na pedra de Santa Fé, deixando a imaginação às recordações de toda uma vida dedicada à causa da Igreja numa missão distante de sua França (distante do seu Puy-de-Dôme), sem perspectiva nas lembranças, desligado do tempo, do calendário e assim resume Cather:

“Não tardaria que se desligasse do tempo marcado no calendário, que já deixara de contar para ele. Estava postado no meio de sua própria consciência; nenhum dos seus estados de espírito pregressos se perdera ou fora esquecido. Estavam todos ao alcance da mão, e eram todos compreensíveis”.

Como imagino, compreensível era também a ideia de que um dos pensamentos de Pascal que fizera o Bispo construir (incentivando os novos padres de seu vicariato a plantarem árvores) tantos jardins em meio à aridez, era uma luz em sua vida: “o homem se perdera e fora salvo num jardim.”

Foram assim os últimos dias do padre Latour, sob o poder das lembranças, as leituras de Santo Agostinho, Madame de Sevigné e de seu conterrâneo natural de Auvergne, na França – ninguém menos do que o escritor Pascal, seu favorito.

Em 2014, desfrutei de uma longa temporada no Novo México, onde convivi com essa mesma paisagem que fora vital aos personagens de Willa Cather. Consultando velhos papéis na biblioteca Zimmermann, da Universidade do Novo México, no outono de 2014, encontro cartas da Autora a sua família em que se mostra apaixonada pelo local e confessando que poderia morar lá. – “Moi aussi”, pensei à época, antes de voltar e me fixar aqui.

O cenário é o mesmo, com as modernidades introduzidas desde o século XIX, mas em síntese a Natureza é a mesma que apaixonara a autora e refletia em seus personagens; pois, o ar do Novo México “aliviava o coração e, de mansinho, bem de mansinho, abria o ferrolho, corria os trincos e libertava o espírito do homem para o vento, o azul dourado, para a manhã, a manhã!”.

O leitor notará as qualidades deste belo livro e o talento de uma grande escritora, de quem por certo desejará ler mais coisas. E se uma tempestade anunciada se esfumaçar com a tarde que cai que em seu jardim, dileto leitor, neste nosso país com o verão mais chuvoso de que se tem notícia – como foi o caso deste cronista, ao final da leitura, pense que é no jardim que tudo começou – de Adão ao Cristo, pois afinal (*):

“Jesus está em um jardim, não de delícias como o primeiro Adão, onde este se perdeu e com ele todo o gênero humano, mas num jardim de suplícios, de onde se salvou e com ele todo o gênero humano”. (Pascal)

Aos leitores católicos, vale lembrar o sinete do anel do padre Vaillant (i.e., valente, bravo): “Auspice Maria” (lat. que significa “Sob a proteção de Maria”). Que a leitura lhe permita abrir os ferrolhos e trincos do espírito, liberando-o para sonhar com a boa literatura de Willa Cather, e que desfrute do seu jardim, fazendo novos amigos.

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Fontes: “A Morte vem Buscar o Arcebispo”, Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1985, trad. do poeta José Paulo Paes; “História da Lit. Ocidental”, de Otto Maria Carpeaux, pág. 1969, vol. 7; (*)”Pensamentos”, Pascal, pág. 168, 553.

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Excelente, Adalberto. A percepção do modo como os jardins (hortos) e o deserto (da tentação) se relacionam no drama da salvação e na estrutura da obra é muito valiosa!