Quando viajo, e o faço com frequência, sempre leio alguns livros de escritores nascidos no país para entender melhor sua arte, modo de viver e sua cultura. Mesmo vindo pelo filtro da ficção, este é um grande auxílio para me preparar para o melhor da viagem.

No primeiro semestre de 2026, viajei para a Europa Central e elegi quatro escritores para aprofundar leituras, antes e durante o percurso de quase dois meses: o húngaro Paulo Rónai, o tcheco Vilém Flusser e os austríacos Otto Maria Carpeaux e Stefan Zweig.

Eles têm em comum o fato de terem escolhido o Brasil como país de refúgio, fugindo da perseguição nazista em suas terras de origem. Este é o primeiro de quatro artigos que pretendo dedicar a cada um deles e começo por Zweig, talvez o mais lido e o mais mal compreendido dos quatro.

O escritor Stefan Zweig (1881-1942) talvez não se deixe compreender apenas pela obra que escreveu. Seus livros sobrevivem porque condensam uma experiência histórica extrema, mas essa experiência se torna mais nítida quando se entra nas cidades que habitou, nas amizades que cultivou, nas cartas que enviou e nas paisagens pelas quais passou.

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A trajetória que vai da casa burguesa judaica da Schottenring 14, em Viena, até um bangalô em Petrópolis não é uma sucessão de endereços. Dá-nos a medida da distância percorrida por um homem e pela civilização que o formou.

Sua morte não é o ponto focal aqui, pois já o foi em muitas instâncias, incluindo o célebre “Morte no Paraíso — A Tragédia de Stefan Zweig” (Alberto Dines).

O que eu desejo, sim, é ressaltar o triunfo da vida que permanece em seus livros e na influência que continua tendo por gerações sucessivas, mais de oito décadas após sua morte. Esse triunfo não é uma figura de retórica: está, por exemplo, na energia com que Zweig, já em Petrópolis, seguia escrevendo e correspondendo-se — terminando “O Mundo de Ontem” e “Xadrez” em meio à fadiga do exílio, quando poderia simplesmente ter parado.

A idade do ouro da segurança

Em “O Mundo de Ontem”, Zweig dá um nome à atmosfera de sua infância: a idade de ouro da segurança. Donald Prater, um de seus biógrafos, abre o livro com essa afirmação: a Viena em que Zweig nasceu, em 28 de novembro de 1881, dava a ilusão da mais perfeita segurança e estabilidade.

Além da segurança financeira de uma família abastada, havia uma confiança difusa na continuidade das coisas, na ordem, no patrimônio, nas instituições, na cultura e no progresso. O futuro, para o jovem vienense, parecia uma forma de expansão — a paixão pela arte, o desejo de aprender novas línguas, o interesse pelas viagens, pelos livros, concertos e amizades. Não era ainda uma fuga.

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Dá-se ali, no entanto, uma primeira fissura. Para Zweig, a escola em Viena era fria, hierárquica e incapaz de acolher a vida interior dos estudantes. Sua revolta juvenil não o afasta de Viena, mas, paradoxalmente, faz com que ele descubra outra Viena — fora da sala de aula, nos teatros, cafés, livrarias, museus, na música e nas conversas sobre arte. A cidade educava onde a instituição falhava. O menino que desconfiava do método escolar tornou-se escritor porque encontrou, na cultura vienense, uma escola mais vasta e mais livre.

Salzburgo prolongaria essa relação entre trabalho intelectual e paisagem. Num artigo para “O Estado de S. Paulo”, intitulado “A montanha dos capuchinhos”, o escritor Mario Vargas Llosa percebeu que a residência escolhida por Zweig, entre 1919 e 1934, não era mero pano de fundo biográfico.

Das janelas de sua casa no monte Kapuzinerberg, em Salzburgo, a vista de Zweig alcançava a cordilheira na fronteira com a Alemanha — onde, em Obersalzberg, Hitler viria a consolidar sua residência de montanha, o futuro “Ninho de Águias”, sobretudo a partir da compra da propriedade em 1933 e das expansões que se seguiram.

O escritor peruano criou essa metáfora que não resiste à análise de datas, mas, ainda assim, a ironia trágica do olhar permanece: Zweig contemplava aquela paisagem sem suspeitar de que, do outro lado da fronteira, se assentavam as bases da tragédia política que destruiria sua obra, seu continente e, por fim, sua própria vida. De um lado, um humanista escrevia sobre Nietzsche e Hölderlin; do outro, a tragédia nazista era gestada em silêncio até se tornar a onda que cobriria a Europa.

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A montanha, a pequena cidade e a proximidade da música compõem uma imagem de maturidade criativa, mas também de uma Europa que já começava a se fechar. As paisagens, aqui, não apenas ilustram a vida: participam dela. O Danúbio, os hotéis, os navios, as montanhas, os jardins, as salas de concerto e as bibliotecas formam uma espécie de vocabulário material de Zweig. Vargas Llosa vê nesse olhar lançado da montanha algo próximo de uma premonição: não muito longe dali, os nazistas iniciavam sua marcha rumo ao preconceito, à violência e ao desastre. É um caso exemplar de paisagem que funciona como personagem.

A construção de uma rede

A vida de Zweig foi também a construção de uma rede. Freud, Romain Rolland, Joseph Roth, Richard Strauss e Thomas Mann não são apenas nomes que ornamentam uma biografia; são pontos de uma constelação intelectual europeia. A amizade, para Zweig, era uma forma de circulação de ideias, de apoio e de hospitalidade.

No Brasil, essa rede se recompõe de outro modo: Paulo Rónai e Otto Maria Carpeaux, escritores a quem dedico os próximos artigos desta série. Esses importam não apenas como leitores ou críticos, mas como outros exilados e mediadores culturais, homens que fizeram da língua, da tradução e da crítica maneiras de reconstruir um mundo comum.

Porém, Carpeaux e Zweig, duas presenças fortes no exílio brasileiro, não seguiram o mesmo destino interior. Comparando o estado de alma dos dois exilados vienenses, o poeta e crítico Ivan Junqueira observa, no prefácio a “Ensaios Reunidos” de Carpeaux, que, “enquanto Carpeaux adotou a firme e irrevogável decisão de apagar o seu passado europeu, Zweig mergulhou no desespero e na nostalgia que acometem os déracinés”; e que, se um “adotou o país que o hospedara e rapidamente aprendeu o idioma que nele se falava”, o outro “sucumbiu à depressão que o levou ao suicídio”. Carpeaux veio para ficar, postula Junqueira. Zweig, ao contrário, nunca deixou de estar, psiquicamente, em Viena.

O exílio, no entanto, mostra o limite dessa reconstrução. Londres, Nova York, Buenos Aires e, por fim, Petrópolis não equivalem a uma simples liberdade de movimento. Cada deslocamento carrega perdas: a língua de uso, os leitores habituais, a biblioteca, a rotina, a posição social e a sensação de que a Europa ainda podia ser uma casa. Por isso, a imagem do “judeu errante nos trópicos” precisa ser usada com cuidado. Ela não deve transformar a trajetória em destino retrospectivo, nem apagar a origem privilegiada de Zweig. Seu peso está justamente no contraste: o exílio desaloja alguém formado pela segurança material e cultural de Viena.

A presença de Lotte Zweig

As cartas antes da “derradeira viagem” ajudam a corrigir a imagem excessivamente polida do memorialista.

No texto de Paulo Sérgio Pinheiro sobre a correspondência de Stefan e Lotte Zweig entre Nova York, a Argentina e o Brasil, de 1940 a 1942, surgem as preocupações financeiras, os pedidos de ajuda, os parentes, a fadiga prática e o desgaste psicológico. Esse Zweig não é somente o autor celebrado de biografias e novelas; é um homem que tenta sustentar a vida cotidiana quando o chão histórico desapareceu. As cartas dão corpo ao que a autobiografia, por sua forma mais ordenada, tende a sublimar.

Stefan Zweig e Lotte sua mulher foto reprodução
Stefan Zweig e Lotte: suicidaram-se juntos, no Brasil, em 1942 | Foto: Reprodução

Petrópolis é o ponto extremo dessa geografia — mas seria pobre tratá-la apenas como cenário final. A casa de Zweig, sua varanda, seus jardins e as montanhas da cidade devem ser lidos contra a redução automática ao suicídio. Ali ainda existem escrita, trabalho, convivência e tentativa de refúgio. A própria escolha do endereço carrega um símbolo que talvez nem o autor tenha notado: a casa fica no número 34 da Rua Gonçalves Dias, nome do poeta de “Canção do Exílio”, célebre poeta brasileiro recebendo, sem saber, um exilado célebre da literatura europeia.

Lotte Zweig, em particular, não pode permanecer como figura lateral dessa paisagem. Doente, ela sofria de crises recorrentes de asma, agravadas à noite; e esse sofrimento foi registrado pelo próprio Zweig, numa de suas últimas cartas: ele descreve a mulher tossindo na escuridão, enquanto os cães da pequena vizinhança latiam insistentes do outro lado.

É um desses detalhes mínimos que a autobiografia, mais ordenada, tende a apagar, mas que a carta preserva e que aponta para um dos fatores que pesaram na decisão do casal.

Exilada como o marido, Lotte seguiu sendo sua secretária e colaboradora até o fim, datilografando os últimos manuscritos.

Há uma cena, presente na cinebiografia “Stefan Zweig — Adeus, Europa” (2016), de Maria Schrader, que resume essa última convivência: os dois na varanda da casinha, ela recostada, recuperando-se de uma crise, o olhar voltado para a montanha ao lado do marido. Não é a imagem de uma vítima passiva do exílio de outro, mas a de alguém que compartilhava, até no repouso forçado pela doença, a mesma paisagem e o mesmo fim.

A Casa Stefan Zweig, hoje, torna essa tensão visível ao transformar a residência numa instituição de memória. Lá, o Memorial do Exílio e o Canto dos Exilados deslocam a narrativa de um casal para uma história mais ampla: a dos artistas, intelectuais e cientistas perseguidos que encontraram no Brasil um lugar de acolhimento entre 1933 e 1945.

Hospitalidade e experiência concreta

É nesse ponto que “Brasil, um País do Futuro” também merece retornar à narrativa. O Brasil foi, para Zweig, ideia e lugar: promessa de hospitalidade e experiência concreta, país observado de longe e país vivido em condições históricas muito particulares.

Stefan Zweig capa de Brasil país do futuro

A distância entre a imagem otimista do livro e o cotidiano derradeiro de Petrópolis não deve ser resolvida depressa; ela é uma das tensões mais reveladoras de sua passagem brasileira.

No centro de tudo permanece a palavra “segurança”. Zweig reconhece, ao olhar para trás, que o progresso técnico não garantiu progresso moral e que a civilização se mostrou frágil diante da violência.

Próximo da intuição freudiana de uma camada civilizatória vulnerável, ele sabe que sua geração aprendeu a viver sem chão, liberdade ou segurança. Ainda assim, não consegue renunciar por completo à fé recebida na juventude.

“Zweig estava desfigurado: triste, abatido, sem esperança, cheio de pensamentos aziagos. Bernanos animou-o: conversava com ele docemente.”

Aquilo que se absorve “do ar do tempo” na infância, escreve ele, não pode ser inteiramente arrancado. Mesmo depois da catástrofe, subsiste uma esperança ferida: a de que o colapso seja apenas um intervalo no movimento humano de reconstrução.

Bernanos e o suicídio de Zweig

Essa ambivalência impede que Zweig caiba numa única imagem. Não é somente o nostálgico da Europa desaparecida, nem apenas a vítima do exílio, nem o autor popular de narrativas breves, o biógrafo profissional… É o escritor que percebeu a precariedade do mundo que o havia formado e que, apesar disso, continuou a medir o presente pela promessa moral daquela formação. Viena e Petrópolis não são polos estáticos; são extremos de uma mesma pergunta: o que acontece a um cosmopolita quando o mundo no qual o cosmopolitismo fazia sentido deixa de existir?

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Stefan Zweig e Georges Bernanos: encontro no Brasil | Foto: Reprodução

O romancista Geraldo França de Lima registra, em “Bernanos no Brasil” (coletânea organizada por Hubert Sarrazin), a visita que Zweig fez à sua casa em Cruz das Almas, em Barbacena (MG). É o encontro entre duas maneiras de enfrentar a catástrofe europeia. São dois homens de visões de mundo opostas, unidos pela mesma tragédia.

“Zweig estava desfigurado: triste, abatido, sem esperança, cheio de pensamentos aziagos. Bernanos animou-o: conversava com ele docemente.”

O polemista de “Os grandes cemitérios sob a lua” abre o coração de católico convicto para acolher um agnóstico, deixando por um instante a ferocidade que lhe era característica para revelar uma capacidade de compaixão por alguém que respeitava e que havia lido.

Queria, certamente, a adesão do austríaco a um protesto ao mundo contra as barbáries que Hitler praticava contra os judeus. Dias depois, Zweig se suicidaria em Petrópolis.

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Casa de Stefan e Lotte Zweig em Petrópolis | Foto: Reprodução

Retrato de um tempo presente

É tentador ler, retroativamente, o verso de Jorge de Lima sobre a cumplicidade universal: “somos afinal cúmplices… de muitas desgraças”, que aparece como uma sombra projetada sobre o destino de Zweig, ainda que o poeta não o mencione nominalmente. Circulou, em certos círculos ligados à memória de Bernanos, a suspeita de que ele próprio teria carregado consigo algum peso de não ter conseguido dissuadir o amigo do desespero.

A posteridade de Zweig mostra que ele ainda encontra inúmeros leitores. Um dossiê assinado por Raquel Cozer, publicado no “Estadão”, em 2011, trata a vida de Zweig como “retrato de um tempo presente” justamente porque o escritor continuava a provocar o Brasil contemporâneo.

Na França, uma reportagem de Mohammed Aïssaoui no “Le Figaro” registrava, em 2014, uma permanência editorial incomum: novas traduções, inéditos, reedições e circulação ampla de títulos como “Novela de Xadrez”, “Carta de uma Desconhecida” e “Viagem ao Passado”. Não é apenas uma sobrevivência de catálogo. É uma obra que reaparece sempre que a cultura europeia, a ideia de progresso ou a experiência do exílio precisam ser interrogadas de novo.

Esse é o cerne deste artigo (primeiro de uma série): não mais uma biografia de Stefan Zweig, mas o esboço de uma geografia de sua vida, feita de cidades e travessias, de amizades e separações, de janelas, convés de navios, bibliotecas e jardins e, sobretudo, da tentativa de conservar alguma humanidade quando a própria história parece ter retirado o chão sob os pés.

No próximo artigo desta série, sigo para Paulo Rónai, outro exilado, outra geografia, outro modo de reconstruir um mundo comum por meio da língua e da tradução.

Fontes consultadas sobre Zweig

•       Stefan Zweig, O Mundo de Ontem.

•       Donald Prater, biografia de Stefan Zweig.

•       Mario Vargas Llosa, “A Montanha dos Capuchinhos”, O Estado de S. Paulo, 12 set. 2004.

•       Ivan Junqueira, prefácio a Ensaios Reunidos, de Otto Maria Carpeaux (Rio de Janeiro: Topbooks, 2005).

•       Raquel Cozer, “Retrato de um tempo presente”, O Estado de S. Paulo, 22 jan. 2011.

•       Paulo Sérgio Pinheiro, “Correspondência da derradeira viagem”, O Estado de S. Paulo, 22 jan. 2011.

•       Casa Stefan Zweig.

•       Mohammed Aïssaoui, “Stefan Zweig, un prodige de l’édition”, Le Figaro, 15 abr. 2014.

•       Sébastien Lapaque, “La maison brésilienne de Stefan Zweig”, Le Figaro, 2 out. 2013.

•       Tribuna de Petrópolis, “A Casa Stefan Zweig e suas preciosidades culturais, históricas e literárias” (nota sobre a coincidência do endereço na Rua Gonçalves Dias).

•       Stefan Zweig — Adeus, Europa (Vor der Morgenröte), dir. Maria Schrader, 2016 — cena do casal na varanda da casa de Petrópolis.

•       Deonísio da Silva, entrevista sobre Lotte & Zweig, Observatório da Imprensa — sobre a asma de Lotte Zweig, com base nas cartas obtidas por Alberto Dines.

Nota sobre a série: Este é o 1º artigo de uma série de quatro. Os próximos serão dedicados a Paulo Rónai, Otto Maria Carpeaux e Vilém Flusser.