Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Notas de um viajante brasileiro na América (3)

Robert Frost, Emily Dickinson, Herman Melville, Mark Twain e Wallace Stevens sempre estiveram em meu radar de leitor e procurar conhecer mais sobre as suas vidas sempre me pareceu um desejo natural. Ao visitar as casas que são dedicadas à memória de quatro deles, constato que há uma humanidade que salta dos objetos, dos móveis, dos fracassos e sucessos vividos nessas casas. Ou seja: “A recordação tem frente e fundos,/
É tal e qual uma casa” consoante ao poema de Emily Dickinson

“A recordação tem frente e fundos,
É tal e qual uma casa” (Emily Dickinson)

Mesmo não acreditando que a biografia de um poeta ou de um narrador possa sobrepor-se à sua obra, há algo de curiosidade não satisfeita quando pensamos na obra, no ser que a criou e nas circunstâncias que rodearam seu criador.

Essas considerações se antepõem aos pensamentos e emoções que vivo, ao concluir este relato da viagem literária que realizei neste quase um mês nos Estados Unidos, com um interregno na região do Québec, no Canadá. O fato é que as visitas às casas-museus (principalmente quando estas são bem estruturadas) pode suplementar a leitura da biografia desses autores, e dá-nos condições de imaginar-lhes a vida circundante enquanto criavam peças que hoje, passados tantos anos, ainda nos inspiram a imaginação.

Cinco vultos da literatura feita nos Estados Unidos, do final do século XIX a meados do século XX, com exceção de Melville, que viveu de 1819 a 1891, e Emily, de 1830 a 1886, mas ambos influentes em toda a geração posterior de poetas e narradores americanos. O fato de estes escritores se reunirem em dado momento de suas vidas na região visitada, a New England (Nova Inglaterra), parece também não ser gratuito, pois ou nasceram aqui ou foram atraídos para a região pelo nível de educação superior que a região oferecia e o ambiente literário favorável a uma “carreira literária”.

No caso de Emily, não houve bem uma carreira porque mesmo com uma produção enorme – quase 1800 poemas, como se sabe, foram deixados e não mais do que uma dezena foram publicados em vida. E às vezes de forma anônima. Melville vive a frustração de um esforço hercúleo que representa seu “Moby Dick” e uma recepção pífia da crítica e dos estudiosos de sua época, o que exigiu de Melville escrever contos para revistas como forma de manter sua família.

Em um recanto paradisíaco no campo em Pittsfield, Massachusetts, Melville encontrou paz para produzir, mas a imaginação estava no mar

Robert Frost precisou se mudar para a Inglaterra para ter seu primeiro livro publicado e foi mais (e antes) aceito pelos meios literários ingleses do que em sua própria terra, embora tenha sido depois aclamado com o prêmio Pulitzer por quatro vezes e como herói nacional, com direito a medalha de ouro do Congresso dos Estados Unidos pelos serviços prestados à cultura, à literatura e à cidadania.

Além de ter acesso às mais recentes biografias e estudos críticos que enriquecem a fortuna crítica desses autores, o viajante tem uma certa nostalgia da eternidade, pois estes homens e esta mulher que reaparecem nas casas em certos traços, manuscritos, anotações, uma nódoa na mesa de trabalho, um objeto de especial apreço que tiveram em vida, tudo deles nos remete à possibilidade de lhes estar revendo vivos e como contemporâneos nossos. Há uma humanidade que salta dos objetos, dos móveis, dos fracassos e sucessos vividos nessas casas.

Sabe o viajante que a biografia não pode superar a obra, nem viaja tantas milhas atrás desse tipo de emoção barata encontrável em documentários ou filmes com detalhes distorcidos, às vezes, para atender uma birra dos seus autores.

O que desejo quando vou a um lugar desses é celebrar a memória desses grandes autores, reverenciar-lhes a obra e a vida, compreendendo os revezes e alegrando com a pequenas (e grandes) vitórias, as piadas que por vezes explodem numa sala de jantar da família Clemens – na casa dedicada a Mark Twain; salta num jardim da casa dos Dickinsons – com seu mascote Oscar, um felino que tem certa fleuma britânica; o pequeno galinheiro no andar térreo da casinha de Derry, onde os Frosts viveram suas ansiedades e privações, mas também onde muitos poemas tiveram seu nascedouro.

Enfim, recomendo ao viajante que leia essas linhas que se aventure por destinos literários, pois há um clima especial emanando de tudo: ambiente, livros, roupas, móveis. Às vezes, mesmo uma velha lareira é capaz de contar-nos histórias de antanho. Herman Melville talvez soubesse isso, quando à guisa de conseguir sustento que o seu monumental “Moby Dick” não conseguia prover ao clã, escrevia histórias curtas para uma revista mensal, como é o caso de “I and My Chimney[i]” (Eu e Minha Lareira), disponível em seletas dos melhores contos de Melville.

Sem ter o retorno crítico e financeiro do hoje clássico “Moby Dick”, Melville ganhava o sustento escrevendo contos para revistas mensais

“Eu e a minha lareira, cabeças brancas e velhos fumadores, moramos no campo. Atrevo-me a dizer que nós estamos aqui a transformar em autênticos autóctones: e particularmente a minha lareira porque ali se afunda um pouco mais cada dia.”

Da janela de seu quarto de escrita, Melville e sua poderosa imaginação de escritor enxergava “The Mount”, o mais alto pico (nem tão alto assim) daquela região de Massachusetts, mas era o mar que enxergava. Não era seu quarto, mas o barco que tantas vezes tomara, antes de converter todas a emoções marinhas no maior romance de muitos anos na América (“Moby Dick”):

“Eu tenho um sentimento do mar, aqui no campo… Meu quarto parece a cabine de um navio; e de noite quando acordo e ouço o vento assobiando na janela, minha fantasia me diz que há muitas velas na casa e que é melhor subir ao telhado e preparar a lareira.”

Ou no jardim de Dickinson, onde o viajante sente-se culpado por invadir a privacidade da reclusa de Amherst e se delicia com o passo leve de Oscar, o gato que é mascote da casa, onde uma virgem, há quase um século e meio escreveu inúmeros versos, certa de que “Publicar – é como leiloar/A consciência humana – /A pobreza justificaria/Essa mesquinharia”.

Do jardim de Emily, em Amherst, notei o chamado que fazia a seu irmão depressivo (Austin):

“Aqui está um brilhante jardim,
Onde não houve uma geada ainda
Em suas indefectíveis flores.
Escuto o murmúrio das abelhas vivas.
Por favor, meu irmão
venha para o meu jardim!”

“Aqui está um brilhante jardim,
Onde não houve uma geada ainda
Em suas indefectíveis flores.

Escuto o murmúrio das abelhas vivas.
Por favor, meu irmão
venha para o meu jardim!”

São os ecos dessas vozes do passado que permanecem em nossa mente quando deixamos os locais que cultuam a memória desses gigantes da literatura. E talvez na próxima semana ainda haverá o cronista de resgatar as piadas do maior humorista da América de seu tempo: Mr. Clemens, mais conhecido em todo o mundo por seu pseudônimo: Mark Twain.

Até lá! e lembre-se do que Emily anotou em seu caderno de versos em 1871 (a tradução é de dona Aíla de Oliveira Gomes):

“A recordação tem frente e fundos,
É tal e qual uma casa;
Ela tem também um sótão
Para o refugo e o rato.

E tem o porão mais fundo
Que pedreiro já cavou.
Cuidado, que dos desvãos
Não nos venha assombração”.

Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O Rio Incontornável” (Mondrongo, 2017).

[i] MELVILLE, Herman. “I and My Chimney”, arquivo digital complete em https://www.gutenberg.org/files/2694/2694-h/2694-h.htm

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