Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Lúcio Cardoso: em busca do arcanjo rebelde

Escritor mineiro ainda não teve trazidos à tona o conhecimento aprofundado e o amplo debate de sua vida e obra; até hoje, na véspera dos 50 anos de sua morte, críticos e pesquisadores preferem apropriar-se do autor para defenderem suas próprias teses

Lúcio Cardoso (1912-1968): os católicos escritores (e críticos) não parecem hoje dispostos – como seria o desejado, volver um olhar retrospectivo para a obra do escritor mineiro | Foto: divulgação

Daqui a menos de um ano, em setembro de 2018, recordaremos os 50 anos da morte do escritor mineiro Lúcio Cardoso. Passados tantos anos, os brasileiros não escrevemos, de forma adequada, o epitáfio do católico escritor. O nome de Lúcio Cardoso funciona, hoje, como o de outros autores e temas, como uma espécie de objeto do desejo de críticos e pesquisadores, para os quais parece mais importante apropriar-se do autor para defender suas próprias teses do que para prover o conhecimento aprofundado e o amplo debate de sua vida e obra.

A teoria mimética parece interessante ponto-de-partida para a análise dos romances, novelas e contos de Lúcio Cardoso – o que seria tarefa muito apropriada a um doutoramento com o insigne professor João Cezar de Castro Rocha (UERJ) do que para uma curta crônica literária. Fato é que Lúcio é objeto do desejo mimético de grupos diversos, que, ao apropriar-se de sua obra, pretendem ter o primado da análise e repetir o protagonismo dele, Lúcio, 50 anos depois. Mas, afinal qual será o lugar no palco reservado a Lúcio em 2018? Teria alguma chance de destaque na Flip 2018, por exemplo, ou em qualquer outro evento cultural de destaque nacional?

Admitamos que a obra de Lúcio já foi redescoberta; e que isso se deu no final da década de 1990, “seja pelo relançamento de seus romances, seja pelo lançamento do filme “O Viajante” (direção de Paulo César Saraceni), baseado na obra homônima de Lúcio –, conforme uma das mais amplas pesquisas sobre a obra de Lúcio, feita por Esio Ribeiro, que tem símile nas pesquisas da obra (e da vida) de Lúcio feitas pelas professoras Valéria Lamego e Beatriz Damasceno; estudos seguidos dos trabalhos de Enaura Quixabeira, Cássia Santos e, preliminarmente, do diário da irmã do autor, Maria Helena Cardoso, (“Vida – vida”, 1973), em que deixou gravada com emoção as melhores pistas sobre o irmão escritor e artista múltiplo.

Os católicos escritores (e críticos) não parecem hoje dispostos – como seria o desejado, volver um olhar retrospectivo para a obra de Lúcio Cardoso e a de outros católicos escritores como Cornélio Penna e Octávio de Faria. E que possibilidades de prospecção encontrariam ali? Uma das hipóteses seria examinar o caso Lúcio Cardoso como artista múltiplo (ficcionista, poeta, cineasta, dramaturgo, pintor), a exemplo do que fizeram vários críticos europeus em relação a Julien Green, Bernanos, Mauriac etc. – criadores que se negaram a seguir a onda realista de seu tempo e se voltaram para a ficção de sondagem das almas.

Ao contrário disso, Marcelo Tadeu Schincariol, em artigo na revista “Rever”, dedicada a estudos da religião (PUC/SP) conclui, com desdém, que parece “controversa” a existência de um romance católico, tanto quanto a de uma crítica dita católica. O estudo é focado na obra do Centro Dom Vital (fundado em 1922) e nas publicações da revista “A Ordem”, ambas atuantes nas décadas de 30 e 40 – primeira fase sob a direção de Jackson de Figueiredo (1921-1929) e de Alceu Amoroso Lima (de 1929-64).

Contra a catolicidade

O Sr. Schincariol usa a liberdade que lhe garante uma Universidade Católica (PUC) – universidade esta que deve sua fundação aos esforços do grupo de católicos reunidos em torno, justamente, do Centro Dom Vital. Pois bem, Schincariol desconhece isso e examina de forma parcial e inapropriadamente, os movimentos criativo e crítico da revista “A Ordem”, acusando seus participantes de manterem uma “postura retrógrada em termos estéticos ou ideológicos”.

O crítico exalta a fase de Alceu Amoroso Lima quando este dá uma guinada política à esquerda; toma o partido de Otto Maria Carpeaux na sua famosa polêmica com o ortodoxo Gustavo Corção; quando este defendera a obra do francês François Mauriac contra, justamente, o ataque do próprio Carpeaux; ressaltemos que ele, Carpeaux, também, católico no início de sua carreira de escritor (à época de “Caminhos para Roma” (2ª. Ed. 2014, Vide Editorial) – “acaba tomando o partido dos esquerdistas e oferece à causa deles os seus últimos e mais rasos artigos, até morrer a morte miserável de um “homem sem religião”, em 1978” –, segundo Bruno Mori, presa de um pensamento liberal esquerdizante – como o fez Alceu ao final de sua vida.

Quando domina esse tipo de aproximação com o romance católico, está criado um ambiente propício a não valorização dos autores e de suas obras. Entanto, oportuniza ambiente novo para a releitura e a interpretação que a obra dos católicos escritores, incluindo Lúcio Cardoso.

Há uma lacuna deixada pelos críticos agnósticos e academicistas que, ao se aproximarem das obras de Lúcio Cardoso, de Octavio de Faria ou de Cornélio Penna só o fazem para tentar extrair dali aquilo que sirva à confirmação de suas teses; e para carimbar esses escritores católicos como agentes de “posturas retrógradas” em estética ou em política; sem registrar a “grandeza” de estes não terem aderido à “novidade literária” (o realismo socialista, tão em voga, ao tempo dos autores citados). O ponto central é quase sempre “a presença do Mal na ficção de Lúcio Cardoso”. É oportuno que outra visão se exponha diante de obra tão rica.

No caso de Lúcio é talvez emblemático porque era para todos o que Rachel de Queirós bem resumiu no epíteto de “o menino que era um arcanjo rebelde” foi sendo esquecido pela crítica (não pelos leitores). O catolicismo de Lúcio está explícito na sua humanidade, na sua maneira de reagir à vida; e as dúvidas fazem parte da Fé. Só posso crer que recepção à sua obra continua se dando com expectativas às vezes superestimadas por parte dos leitores católicos (esperando nele um catequista) e subestimadas por parte dos infiéis – os primeiros desejam algo mais doutrinário e catequético e estes esperando nele, apenas e tão somente, a presença do Mal – e disso a melhor e mais ampla amostra é seu longo Diário.

Afinal, que catolicismo era esse? Cássia Santos aponta em seu “Polêmica e controvérsia em Lúcio Cardoso” (2001) “o questionamento e a ânsia por Deus que caracteriza” os personagens de Lúcio Cardoso – uma pista se anuncia.

O catolicismo de Lúcio

“Morro de tudo o que vivo: sinto que a existência, em certos momentos, é quase um sacrilégio”, escreve Lúcio Cardoso em seu diário

Em setembro de 1949, Lúcio escreve em seu Diário: “Se Deus existe – e sei, sinto que existe – está comigo. Não é possível participar de tantas formas de vida, delas estando tão ausente. E morro de tudo o que vivo: sinto que a existência, em certos momentos, é quase um sacrilégio.”  Não tivesse Lúcio a chama do convertido, não seria capaz de meditar sobre as contradições de sua condição humana, voltando-se sempre à confissão de sua pequenez diante de Deus. Um cristão sensível, lúcido, mas perdido, às vezes, entre o claro escuro da existência, como qualquer católico.

Basta um mínimo de misericórdia por parte do leitor (ou do crítico) para compreender que essas confissões se avultam no seu Diário, quando não recebem vocalização em seus inúmeros personagens de novelas ou romances. Às voltas com a produção de um filme que parece só lhe trazer problemas – Lúcio, em 1949, registra uma verdade prece, no seu diário:

Que Deus me dê a simplicidade de ver as coisas em sua própria verdade, no seu jogo natural entre a luz e o dia – e não transfiguradas e em ânsias. Que o dom é ver a vida escorrer no seu apelo à permanência, insensível à ameaça da morte – e não ver somente a morte, no seu trabalho sutil de transposição, misturando-se aleivosamente às formas mais felizes da criação. É esta fraqueza dos que não dos que não sabem viver em superioridade à matéria nua, confundindo-a, subjugando-se ao seu poder. Enquanto o que é espírito, paira e sobrevive na tranquilidade, contemplando o que é inerte na clara expansão da sua inexistência.”

Ainda no mesmo período, o Diário de Lúcio registra sua visão prática do catolicismo em meio às incertezas de um filme inacabado (A mulher de longe):

“Sempre ouvi dizer que para se ser católico, é necessário ter força de vontade. O que é inegavelmente verdadeiro, mas não no sentido absoluto da palavra, pois que tenhamos vontade ou não, a maioria de nós é indelevelmente católica. (Eu sei que só é católico o praticante, mas mesmo assim…) Não quero fazer aqui a conhecida diferença entre ser cristão e ser católico, pois a meu ver só há um modo de ser cristão, é ser católico. Assim, o difícil não é ter força de vontade para ser católico, mas para viver catolicamente. Sofro diariamente, e com uma intensidade que seria desnecessário afirmar, fundo, bem no fundo, flutuando livremente, esse sentimento, tolo, eu sei, de que talvez estivesse assim invalidando algumas de minhas possibilidades mais autênticas…. Repito, tolice, mas, ainda assim, invencível sentimento.) Catolicamente é difícil, é terrível viver, mas não seria a única maneira possível? Como suportar certas contradições, certos erros, certas deficiências e obscuridades? Como suportar essa horrível atração do caos? Como juntar os dois eus diferentes que me formam?”

Ora, quando Lúcio fala das contradições, está para este leitor claro que o apelo da vida com opção pela sexualidade dita então “invertida” (hoje o politicamente correto manda dizer: gay ou homo afetivo e me curvo a meus leitores!) – sua homossexualidade somada a uma imaginação poderosa – como a de Julien Green (escritor norte-americano francês) – dão-lhe elementos sobejos para a sua autoaceitação e para a aceitação por alguns de seus pares conservadores. Sobre o apelo do corpo, os chamados do sexo que para o autor eram coisa proibida, mas não impossível, sabendo que suas escolhas sexuais não eram aceitas como normais à época – a consciência do autor também o relembrava:

“Não, a carne é inútil, impossível é contentarmo-nos com tão pouco. O único caminho é ser casto, ante a sensação de pobreza que a posse física nos transmite. A tanto desejo de expansão – de aniquilamento quase – esbarramos com um muro que recebe os nossos soluços com a tristeza impassível das coisas vedadas. E se não sugamos a alma, se não morremos desse beijo, o que temos entre nossas mãos, por cinco minutos, é um cadáver.”

Parece faltar a Lúcio um diretor espiritual, alguém que orientasse aquele potencial criativo incrível para uma criação focada e que lhe propiciasse mais satisfação. “No sr. Lúcio Cardoso algo existe do visionarismo apocalíptico de um Julien Green. Talento admirável, como raras vezes se tem verificado em nossas letras…. É um romancista, mas poderia ser também, se lhe aprouvesse, um grande poeta trágico.” – diz-nos o exigente crítico Agrippino Grieco, analisando o primeiro romance do jovem ficcionista de “Maleita”.

É ainda de Grieco a melhor prospecção da alma do católico Lúcio romancista precoce de “Maleita” e aperfeiçoado em “Crônica da casa assassinada” e nas novelas exuberantes e tecnicamente perfeitas (segundo Lêdo Ivo). Diz Grieco que Lúcio “parece possuir uma alma atraída pelo claustro. Não o conheço, nunca o vi de perto, nada sei da sua vida íntima, mas penso que deve ser um solitário, um taciturno, avesso às fáceis camaradagens de café e às tão ruidosas quanto inúteis parolagens de esquina”.

Não sabia o velho e respeitável crítico que Lúcio era um sedutor e aperfeiçoaria esta característica para o sentido positivo de fascinar, encantar – segundo Saraceni em minutos era capaz de convencer uma dona-de-casa burguesa a receber a si e a amigos em uma festa improvisada, em que logo tornava-se o centro com sua figura de conquistador pela fala e pela beleza física. Isso o leva a fugir da solidão do claustro mental do romancista (e do dramaturgo) para o levar à busca do prazer de conviver com outros e de ser aceito; artifícios para fugir da solidão imensa em que habitava. Isso o leva a transformar-se a si mesmo em personagem de seus escritos e viver como um funâmbulo entre os chamados do espiritual e os apelos da carne.

Essa, aliás, é a hipótese do crítico Wilson Martins, ao comentar “Vida – vida”, memória de Maria Helena Cardoso, que seria segundo ele o grande romance que o irmão da autora jamais teria escrito.

“Viver a experiência amorosa e sexual com o Outro representa para Lúcio Cardoso, à semelhança de Rimbaud, viver uma estação no inferno” – afirma Enaura Quixabeira Rosa e Silva, em “Lúcio Cardoso: paixão e morte na literatura brasileira”. Ela aponta para a contradição do viver uma vida integral, sendo gay num país em que a homossexualidade era, então, um pecado mortal. Essa “aporia entre carne e pecado” diz Enaura está presente, por excelência, na “Crônica da casa assassinada”, mas que era comum nas palavras que integram o cotidiano do escritor “culpa, remorso, tormento” e, acrescento, consciência do pecado.

Quando desaparecia do pequeno círculo de amigos, Rachel de Queiroz lhe perguntava por onde andara, Lúcio sempre respondia com um lacônico “no inferno”. Lêdo Ivo diz em suas memórias, reunidas sobre o título de “Confissões de um poeta” que, logo que chegou ao Rio de Janeiro (1943) e nos idos de 1944, era comum encontrar-se com Lúcio, Octavio de Faria, Adonias Filho, no famoso bar Amarelinho onde “o tecido literário e artístico” dominava as conversas dos “gloriosos ociosos”. Diz Lêdo Ivo: “ao cair da noite, o grupo se dissolvia… Cada um ia para o seu destino. Lúcio Cardoso, estimulado por muitos chopes, preparava-se para a escalada da noite, que o levaria a trilhar ruas misteriosas e a deter-se diante um real ou fictício Hotel da lanterna” … Sobre isso Lúcio deveria repisar o que fizera, repensar, lembrando antes de ter-se “suicidado” de todos os excessos, ele, Lúcio que dizia ter nascido com uma marca indelével (uma monstruosidade) do pecado – como filho de Adão e, sobretudo, por sua “marca” de opção sexual. No Diário Completo Lúcio afirma: “nasci com alguma coisa monstruosa, exagerada e aberrante […] “Quantas vezes, regressando destas infindáveis noites de desperdício, a que me obrigo e que realmente tanto detesto” […] “sinto que sou apenas uma máquina desatinada e cega”.

Definitivo é o motor desse comportamento pecaminoso e a culpa que alguns críticos querem psicanaliticamente coisa artística, mas que ao católico, soa como a consciência do pecador. Ouçamos a voz de Lúcio sobre o frequente tema da solidão – depois de referir-se ao livro “O riso” de Henri Bergson classificando-o de um “pequeno livro magistral”, Lúcio se pergunta ‘o que é o riso`? ao que responde: “sem pretender entrar na sua metafísica, acho apenas que é a explosão de um ser recôndito e monstruoso, uma pura vitória do “outro” que irracionalmente nos habita. Não somos nós, não é a consciência que dita aquele ruído – ao contrário, esquecemos tudo, entregamo-nos a uma noite inesperada e violenta, transmitindo através desse cascatear absurdo, a voz de alguém que ordinariamente o espírito domina.”

A solidão de um ser dividido

O sonhador Cardoso pode ser visto (e lido) como um ser em meio a uma avalanche de sonhos ruins e de pesadelos

Observe bem o leitor estes trechos do rico dia de reflexões que foi 20/08/1949:

“Gostaria de falar dessa solidão que reside nas extremas regiões do homem, nessa zona recuada onde já não vigoram mais as regras simples da moral, e onde tudo será caos governado pelo mais impiedoso instinto, se o conhecimento de Deus não interviesse e pacificasse esse mundo primitivo”.

É inútil negar, o homem é obsedado pela ideia de Deus. Tudo o que faz – quer se manifeste à luz do sublime ou do ignominioso, é um esforço para provar a si mesmo, consciente ou não, a realidade ou o mito da sombra de Deus.

(…)

“Pois Deus é incompreensível, e aí reside sua grandeza Os tolos, os que não podem deixar de reduzir as coisas à sua própria altura, julgam-no uma equação resolvida – mas, quanto mais é profunda a nossa fé, mais fechado e mais espantoso é o segredo.

(…)

“Certamente há homens sem esperança, mas entre todos é o ser mais triste, pois representa o ateu completo. O único para quem nada tem motivo, para quem este mundo tosco e cheio de aresta informes representa um todo fechado, uma finalidade.[i]

Lúcio nos recorda a admiração que tinha pelos católicos franceses Bernanos e Julien Green – o primeiro com quem encontrou duas vezes (quando este morou no Brasil) e Green que Cardoso confessa ter lido desde a adolescência. Ambos são analisados na “Revue de Lettres Modernes” (B. T. Fitch, 1967) sob a mesma perspectiva de uma nota de Lúcio – por se encontrarem “sob a alucinação e o sonho (o que está na gênese da obra dos dois católicos escritores franceses)” – tornam-se “prisioneiros de um sonho” (no caso de Green e de Lúcio; o que os fazem viver “numa espécie de círculo mágico” (a expressão é de Julien Green).

Quando estes falam dessas alucinações o que domina é o “olhar interior” tomado por uma iluminação – este o segredo da escrita e da leitura que nenhum agnóstico poderá entender se não for capaz de uma descida a esse “círculo mágico”, com esse tipo de olhar para a escrita dos católicos escritores – olhar de quem vislumbra o Bem, mesmo que aparentemente vencido pelo Mal. No final, a luz interior é o de que estão saturadas todas as verdadeiras narrativas, peças e poemas de um católico que exerce o ofício de escritor. Não há nisso nenhuma prisão (como quer supor o crítico realista) e sim um processo libertador. Como diz o próprio Lúcio Cardoso: “Que são os fatos de que nos lembramos, senão a consciência de uma fugitiva luz pairando oculta sobre a verdade das coisas?”

No dia 20 de agosto do movimentado ano de 1949, o cineasta amador Lúcio Cardoso mostra-se exausto e deixa o registro de uma espécie de prece (à maneira de uma Flannery O´Connor) que reflete esta espécie de luminescência:

“Perdoai, meu Deus, transformar os flácidos rostos de barros em máscaras de ferro. Perdoai-me acreditar que o impossível é possível, que a mistura humana escalda e se torna dúctil aos nossos dedos sem piedade. Perdoai a minha loucura, e a minha sacrílega fé na transfiguração das coisas. Bem sei, dia virá em que tudo será apenas como um punhado de cinzas, que eu remexo já sem nenhuma ambição. Perdoai-me por essa hora, quando o tempo se desfizer e eu apenas contemplar, ferido, a refração do meu delírio”.

Para o francês Georges Bernanos “o romancista é um homem que vive seus sonhos” (cit. para Fitch, 1967) – por consequência, o sonhador Cardoso pode ser visto (e lido) como um ser em meio a uma avalanche de sonhos ruins e de pesadelos, na maior parte do tempo de sua sofrida vida de 56 anos, dos quais seis anos foram passados na condição de hemiplégico e desprovido da capacidade de escrever. Lúcio não põe sua escrita a serviço da doutrinação, mas por outro lado não esconde o que veem os olhos da sua alma. Aí se encontra a maestria do católico escritor e não do escritor católico.

O poeta Lêdo Ivo destaca a diferença do romance de Lúcio em relação aos dos “grandes ficcionistas” da geração de 30 e que faziam sucesso naquela época – com o regionalismo social. Embora “Maleita” ainda lembre o romance nordestino, Lúcio toma o rumo do romance e da novela de sondagem das almas; neste gênero (a novela), aliás, Lúcio é considerado mestre pelo poeta Lêdo Ivo, que cita “A professora Hilda”, “O desconhecido”, “Inácio”, “Anfiteatro” como exemplos de perfeição de técnica narrativa e domínio do tempo, da economia exigida pela novela; essa marca é que faz sua ficção desaguar no chamado realismo simbólico (A.C. Villaça), caracterizado pela ruptura com a realidade exterior (de Maleita) e um mergulho no humano, uma espécie de sondagem dos abismos (Mãos vazias). “Quando pedirem para dizer o que fui, lembre-se de mim: nem leviano, nem grave; humano” – este talvez seja o melhor epitáfio para católico escritor considerado como “o arcanjo rebelde” (Rachel de Queiroz).

Adalberto de Queiroz é jornalista e poeta, autor de “Frágil armação” (2ª. Edição, 2017) (e-mail do autor: [email protected])

[i] Diários, 2012, ed. crítica de Esio Ribeiro) – anotações seguidas ao dia 19/09/1949.

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