Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Giacomo Leopardi – Além do pessimismo, a “Poesia consoladora”

O poeta italiano, considerado anti-Pascal, é um incrédulo, um negativista, um descrente, mas sua poesia toca em algum lugar na alma do cristão que se torna impossível não gostar dele, tanto quanto é impossível descrever esse gosto em poucas palavras

Giacomo Leopardi: poeta italiano que soube como poucos fazer de sua poesia no ritmo da natureza, interpretando suas vicissitudes

Eu tinha tudo para não gostar da poesia de Giacomo Leopardi[i], afinal o poeta italiano é considerado “o anti-Pascal” – só isso já bastaria para manter distância! – é um incrédulo, um negativista, um descrente etc. e, no entanto, ele me agrada. Por quê? – pergunta o meu interlocutor invisível. Esta crônica é um esboço de resposta e deve ter sequência em outras porque é impossível abarcar a lírica de Leopardi em tão pouco espaço. E, no entanto, há quem diga:

“Falando como quem confessa, a poesia de Leopardi sempre me foi um modelo: formalmente clássica – mas bem romântica na intensidade da emoção…” (Érico Nogueira, poeta e crítico[ii]).

Saiba que Giacomo Leopardi nasceu em Recanati, província de Macerata, em 1798 e morreu em Nápoles em 1837, tendo seus restos mortais desde 1839 sido transferidos para o túmulo de Virgílio, situado nos jardins da igreja de Santa Maria di Piedigrotta.

Bem se vê que as anotações são de um fã do poeta? – argumenta de novo meu interlocutor invisível. Ao que respondo serem apenas informações coligidas para o leitor bem situar a posição do poeta que é considerado por John Macy[iii] como “o grande gênio italiano do século XIX…um poeta melancólico, pessimista, mas cantor nato. De quem podemos dizer que foi o Byron da Itália – um Byron menos prolífico, porém mais delicado e apurado na forma.”

Se “de Goethe a Laforgue, passando por Leopardi, a literatura vive a decisão de interpretar as vicissitudes humanas, numa época cheia de mutações na história da espécie[iv]; então, é dever diante de meus seis leitores, também esboçar uma confissão da conturbada relação que passionalmente mantenho com o poeta italiano que soube como poucos fazer de sua poesia no ritmo da natureza, interpretando suas vicissitudes. Estamos diante de um caso muito bem-sucedido de um poeta único, que com seus versos venceu a desventura. No Canto XXXII, (Palinódia) com a epígrafe de Petrarca (“O sempre suspirar a nada leva”), ele anuncia sua cosmovisão:

“Errei, cândido Gino[v], um tempo enorme
E erroneamente errei. Mísera e vã
Pensei a vida, e mais que as outras oca
A era que decorre. Intolerável
Minha língua soou, e foi, à alegre
Prole mortal, se é que mortal chamá-la
Se deve ou pode. Em meio a assombro e escárnio,
Do Éden aromado onde ela mora,
A prole nobre debochou-me, e disse
Que, desprezado ou infeliz, de gozos
Ou ignorante ou incapaz, pensei
Ser seu o meu destino, e do meu mal
Parceira a espécie. […]
“[…]                      Reconheci e vi
a pública alegria, e as doçuras
Do destino mortal. E vi o excelso
Estado, vi o valor do que é terreno,
E toda em flor a estrada humana, e vi
Que nada por aqui despraz e dura.
Nem menos conheci estudos, obras
Estupendas, e o gênio e astúcia, e o alto
Saber deste meu século. Nem menos
de Tânger a Catal, da Ursa ao Nilo,
e de Boston a Goa, competindo
No rastro da felicidade arfarem
Reinos, impérios e ducados; tê-la
Ou pela trança flutuante, ou mesmo
Pela pontinha do boá. E vendo,
E meditando sobre as largas folhas
Profundamente, do meu grave, antigo
Erro, e de mim, eu tive então vergonha.”

Referência

Otto Maria Carpeaux, crítico literário austro-brasileiro: “É no modo a-histórico de pensar que reside parte da grandeza do poeta Giacomo Leopardi”

Leopardi escreveu poucos versos, mas são versos de uma potência tão significativa que levaram o autor a ser uma referência no cânone ocidental. A herança do leopardismo nas letras brasileiras – segundo Marco Lucchesi – “parece menos discreta de quanto se tem imaginado” – e “manifesta-se em múltiplas formas, do âmbito exegético ao propriamente poético” (Roberto Mulinacci); registrando inúmeras traduções dos 33 Cantos e de parte da prosa do Recanatese em língua portuguesa.

Leopardi teria sido um romântico típico? A resposta de Carpeaux[vi] é um redondo não. O crítico austro-brasileiro sugere que “no modo a-histórico de pensar” é que “reside parte da grandeza do poeta Giacomo Leopardi; só é preciso interpretar essa sua atitude não como protesto romântico contra o seu tempo, e sim como protesto contra todos os tempos. Leopardi não foi romântico: a sua formação era intensamente greco-latina; defendeu como Monti, o uso da mitologia na poesia; detestava o subjetivismo romântico (Cosa odiosíssima è il parlar molto di se); censurou os cinquecentistas porque teriam “romantizado” a Antiguidade, mas ele mesmo também “romantizou”, e tão fortemente que deixou à posteridade uma imagem pálida à maneira de Lamartine. É que o romantismo lhe foi imposto pela vida. Leopardi foi um dos homens mais infelizes de todos os tempos”.

A infelicidade de Leopardi começa com sua doença e espalha-se por sua alma; foi infeliz, principalmente, porque foi um homem doente, mas Carpeaux ressalva: “Doente sim, mas os sofrimentos físicos e as humilhações pessoais não lhe quebraram o espírito forte” [era um homem de pequena estatura e infeliz no amor]. Há nos poemas de Leopardi o que Carpeaux designa por “dureza de pedra de seus versos”; na prosa “a lucidez crítica” que perpassa os diários (principalmente o infinito Zibaldone); e a força moral se mostra nas “Operette morali” – que são um “autêntico sistema filosófico do pessimismo”.

Entretanto, se Leopardi chega ao limite de um pessimismo, “por assim dizer, utilitarista” (como o tédio em nossa Clarice Lispector), ele possui o dom de alcançar na poesia um consolo que nos é dado, como leitores, como antídoto aos males do mundo. Portanto, se de um lado, o pensador condena as funestas ilusões de felicidade, o poeta produz “a poesia consoladora” – e esta e não os diários e a filosofia de Leopardi foi o que conquistou o mundo. Sabe-se mais de sua poesia do que de todo o resto.

Seria impossível a existência do poeta Giacomo Leopardi sem Virgílio, sem Petrarca, sem Tasso, sem o Dante Alighieri – sem os gregos dantes e sem os clássicos latinos –, se todo esse acervo de grandes poetas não houvesse elevado a Itália aos píncaros da poesia do Ocidente, certamente Leopardi não estaria sendo lido agora. Ele é uma espécie de resposta poética personalíssima ao seu tempo e um desafio aos leitores do futuro; e não por acaso os italianos transportaram-lhe os restos mortais para um lugar sagrado para a Poesia: o túmulo de Virgílio Marão (Publius Vergilius Maro ou Marão (70 a.C./19 a.C.) – agora repousam juntas duas gerações da grande poesia italiana! No Canto XXXVI – Scherzo (trad. Ivo Barroso), Leopardi mostra-se um amigo da tradição clássica:

“Quando em criança eu vinha
Das Musas estudar a disciplina
Uma delas tomou-me pela mão
E nesse dia inteiro
Me levou fagueiro
A ver sua oficina.
Mostrou-me parte a parte
Os instrumentos d´arte
E artefatos diversos
Com os quais os seus cultores
Se aplicam nos lavores
Das prosas e dos versos.
Porque a lima não visse,
Perguntei onde estava. A Deus disse:
Gastou-se a lima: há-de fazer sem ela.
Mas eu: E não cuidastes
Gasta trocá-la por uma outra boa?
Sim, respondeu-me, mas o tempo voa.”

O nada

Era preciso que um poeta surgisse naquele espaço hierático da “bota italiana” para provar ao mundo que a lírica não estava morta. Ei-lo, o frágil, a verter tantas lágrimas animadoras que podem ser lidas com entusiasmo, mesmo com os olhos e a razão de um otimista incorrigível, é possível lê-lo e flagrar a atualidade de sua poesia; mas sobretudo ei-lo sendo lido pelos que creem na dor e na “angústia permanente” que advém do francês Pascal, com uma diferença notável: “Leopardi é um Pascal sem a Graça divina” – assegura Carpeaux. Embora sua angústia permanente “seja pascaliana, como pascaliana é sua inquietação, seu sofrimento físico”; “isso confere à sua poesia a cor romântica”. E se angústia, segundo Heidegger, é a condição da possibilidade do vir do nada, o mundo como tal, na angústia, se aprofunda no nada em sua totalidade, porque na angústia nenhuma possibilidade de ação interpela mais o sujeito; o poeta Leopardi é presa dessa “anulação de toda possibilidade” onde “o ser-aí experimenta o nada em carne e osso”.

E do nada sentido até os ossos é que se faz a poesia de Leopardi: ela está plena de natureza, de cores, de tons, com exatidão e substantivos insubstituíveis (e às vezes intraduzíveis) um mundo “de cinzas e de lavas e de pedras” e, assim, o pequeno sofredor Recanatese reage dando a sua resposta personalíssima às transformações do mundo à sua volta. Não é com política, ação prática, mas com palavras exatas que o poeta reage às transformações à sua volta – eis o italiano Leopardi. Canto XLI – Do Mesmo (trad. Alexei Bueno):

“Humana coisa pouco tempo dura,
É um dito perfeito
Do ancião de Quios,
Folha e homem, a Natura
Trata com semelhança.
Mas esta voz no peito
Pouquíssimos recolhem. À esperança,
Filha de tolo ardor,
Todos rendem seu preito.
[…]

Criado em ambiente aristocrático, rodeado de livros, mas fechado para o mundo exterior, em clima religioso e ameno, tendo sido batizado e feito primeira-comunhão como católico, em meio ao ambiente ameno, em lar de nobres falidos, Leopardi abandona a fé; a esperança; mas não perde o rumo individual.

Domou sua angústia para guiar o leitor ao que intitulo de descrença construtiva – algo que é capaz de não paralisar o agente e o faz produzir poesia como a utilidade prática advinda do Nada, mas com Autenticidade (ou Eigentlichkeit, no sentido Heideggeriano do termo). Difícil entender “a esperança/filha de tolo ardor” quando o leitor não é um descrente, mas é típico do século XIX cavar um sepulcro no peito para a esperança (com e/E), pois se trata de um século ateísta.

“A se stesso”

Uma amostra competente do domar e domar-se é o poema “A se stesso” – um de seus versos mais famosos – que constituem a suma do pessimismo; aqui na tradução de Érico Nogueira (que pode ser cotejada com outras, por exemplo de Alexei Bueno) – neste caso, uma tradução que enfatiza o classicismo de Leopardi, pela ênfase na escolha das palavras que ao homem do século XXI podem parecer estranhas, mas que são fruto do esforço de retomar “no mais curto dos Cantos” o efeito que o autor pretendeu dar, pois, para o tradutor “Giacomo Leopardi, no poema em questão, resume sua poética e sua Weltanschauung[vii].

Peço a atenção do leitor para uma nota do jovem tradutor que é fundamental para entender suas escolhas bem pensadas e às vezes mal-entendidas pelo leitor mais apressado:

Notemos, antes de mais, a solenidade que os hipérbatos, tão caracteristicamente leopardianos, conferem a esta breve composição – sem nada lhe tirar em clareza e precisão da linguagem. Num curto poema de dezesseis versos, em que mescla o verso de seis ao de dez sílabas, o poeta compõe uma variação do salomônico omnia vanitas. Contrariamente ao livro bíblico, porém, aqui não há, diante da vaidade de tudo, nenhum consolo no vinho, na família e na obediência a Deus: o mundo é lodo, e um poder inexorável aniquila toda a criação”. “Não é toa que Schopenhauer, bem como o primeiro Nietzsche, morria de amores por esse poeta” – conclui Érico Nogueira.

Segue o poema em amostra bilíngue:

 

A si mesmo

Trad. Érico Nogueira

A Se Stesso

Original G. Leopardi

Repousarás pra sempre,

Cansado coração. Foi-se o extremo

(eterno o cria) engano. Foi-se. Eu sinto

em nós de tais enganos

não a esperança: só o desejo é findo.

Repousa sempre. Assaz

palpitaste. Não val coisa nenhuma

os pulsos teus, nem de suspiro é dina

a terra. Amargo e tédio

a vida, além mais nada; e lama é o mundo.

´Stá quieto. Desespera

a última vez. À estirpe nossa o fado

não deu mais que o acabar-se. Então despreza

a ti, a natura, o bruto

poder que, absconso, a comum dano impera,

e a infinita vaziez de tudo.

Or poserai per sempre,

Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,

Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,

In noi di cari inganni,

Non che la speme, il desiderio è spento.

Posa per sempre. Assai

Palpitasti. Non val cosa nessuna

I moti tuoi, nè di sospiri è degna

La terra. Amaro e noia

La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.

T’acqueta omai. Dispera

L’ultima volta. Al gener nostro il fato

Non donò che il morire. Omai disprezza

Te, la natura, il brutto

Poter che, ascoso, a comun danno impera,

E l’infinita vanità del tutto.

 

Eterna desventura

É também de Érico Nogueira, a confirmação do que dissera Carpeaux, que Leopardi é um poeta “que é tudo menos um romântico”. Sobre o poema traduzido, acentua que deve a poesia de Leopardi servir à meditação. “A se stessoé a mais pura quintessência de uma poesia feita para meditar a eterna desventura, a constante sensação de deslocamento que, desde o romantismo, caracteriza boa parte da poesia ocidental – a brasileira inclusive, Ciao, bello.”

Ciao, Érico, o infeliz poeta não é infeliz apenas no amor, nas relações pessoais, com os rumos de um partido ou com o grêmio a que se filia. Leopardi “está sempre em desacordo consigo mesmo e infeliz com a experiência da própria humanidade” – nutre uma infelicidade com o gênero humano, com o destino da humanidade, a quem por empatia socorre…com versos.

O domínio da literatura já foi o domínio da vida e parece ter sido esse o caso de Leopardi. Diz um de meus ilustres seis leitores que a junção do achado de Matthew Arnold citado por Merquior (“The end and aim of literature is a criticism of life.”) – a uma frase de George Eliot (pseudônimo da escritora inglesa Mary Ann Evans), serviria como bom argumento para lermos mais (Leopardi e outros): “Se combinarmos esse trecho do Arnold, que realmente é bom – àquele de George Eliot em que ela diz que a literatura é a coisa mais próxima da vida, creio que temos uma motivação mais do que suficiente para que se leia literatura!

Infelizmente, o “domínio da literatura” está bem esquecido e posto em segundo plano – como esquecidos ficam por décadas alguns escritores fundamentais à formação do cânone ocidental, como Leopardi, Pascal, Bernanos, Merquior (o Carpeaux dos outros”, na acepção de Pedro Cezar Castro Rocha), José Geraldo Vieira, Tasso da Silveira e tanti quanti, para me referir a diferentes lugares como França, Europa e Bahia.

José Guilherme Merquior diz com propriedade que o silêncio constrangedor que se faz sobre alguns ou sobre o todo domínio da literatura deve-se ao fato de termos perdido o sentido da “Paidéia” grega que fazia de Homero um luminar da convivência social – e se a paidéia pós-moderna não se abebera na “crítica da vida” de um Leopardi, um Eliot, de um Pascal, é apenas por não se ter mais uma Paidéia.

Ora, a “crítica da vida” corresponde ao fim e alvo da literatura, e não (como fórmulas mais sintéticas podem dar a entender) a literatura tout court; pois a presença dessa aristotélica causa final (the end and aim…) permite frisar a essencialidade da relação literatura/vida social `sem subestimar as características técnicas do fenômeno literário` (o tipo específico de discurso que constitui o texto artístico; o tipo também específico de experiência em que consiste o seu consumo etc…). A crítica da vida em Leopardi inclui um amarga decepção com a passagem rápida e o ardor que a juventude tão passageira vem lhe cavar a sepultura da esperança em pleno peito:

“[…] Enquanto é rubra a flor
De nossa idade acerba,
A alma oca e soberba
Cem doces pensamentos cria em vão,
Morte e velhice ignora; nada adverso
Supõe no corpo o homem galhardo e são
Mas louco é quem não vê
A asa veloz da juventude voar
E como junto ao berço
A pira e a urna estão”
(Do Mesmo, trad. Alexei Bueno).
Ora, sabe-se desde Platão que “efêmera é a Beleza” como efêmera é a vida. O que Leopardi amplia é a extensão personalíssima de sua consciência do efêmero na ausência de uma esperança no porvir. Por isso, é poeta para ser lido por quem já tem os pés no chão firme do pensamento e da existência, para que não lhe faltem os andaimes necessários a continuar firme seguindo “a asa veloz da juventude”.

O cerne da questão

: Folha de rosto de “Poesia Completa e Prosa de Giacomo Leopardi”, publicação da Nova Aguilar

E como a pressa nos caracteriza, ao leitor que chegou até aqui, passado um quarto de hora de leitura, chegamos ao cerne da questão. Ora, se “a literatura vive a decisão de interpretar as vicissitudes humanas, numa época cheia de mutações na história da espécie”; então, cabe, diante de tantas hipóteses, esboçar a conturbada relação que passionalmente mantenho com o poeta italiano. O que me apaixona aqui é a incrível capacidade de usar a própria vicissitude como forma de salvação pessoal. Claro esteja que não falamos da salvação cristã, mas de acesso ao paraíso da Poesia, com o ritual e a respeitabilidade devidas a um sacerdote, diante de um altar sacrificial, praticando uma espécie única de religião individual (a leopardiana), por vezes imaginada por jovens escritores como a única religião – a Poesia.

Dos pensamentos de Giacomo Leopardi salta-me esse trecho (Prosa/Pensamentos, LIII) – o suficiente para não te explicar minha paixão pelo oposto de mim em Leopardi, que tanto me atrai e faz pensar. “Afirmava o filósofo antigo Bíon[viii]: “É impossível agradar a todos, senão tornando-se um pasticcio ou vinho doce.” Enquanto perdurar o estado social dos homens, esse impossível será sempre perseguido entre os que o admitem e os que acaso não creem fazê-lo; assim como, enquanto perdurar nossa espécie, os mais conhecedores da condição humana perseverarão até à morte em busca da felicidade, prometendo-a a si mesmos.”

A citação é o suficiente para que eu me volte à “Carta para um jovem do século XX” que o organizador do excelente volume de Poesia e Prosa de Giacomo Leopardi (o sr. Marco Lucchesi) escreveu como prefácio à obra completa da editora Nova Aguilar, em 1996. A carta continua para jovens, idosos e nem tanto deste século XXI e emula um projeto não concluído de Giacomo, homem do século XIX – século de um ateísmo declarado e publicista, de escrever uma carta ao jovem do século vindouro:

“Leopardi não é um homem de letras, mas um acontecimento”; “para Schopenhauer, ninguém chegou a tratar da miséria humana de nossa vida de modo tão profundo e encantador como Leopardi”; “o fenômeno de sua poesia é todo intensidade”; “chegamos a seus poemas com um misto de distância e adesão, solidariedade e tremor, assombro e admiração. Saímos da superfície e mergulhamos num plano abissal. Impossível não sermos tocados pela sua poesia. Impossível não sentirmos um grande entusiasmo. Tudo de forma suave e severa”

– Basta! São suficientes alguns trechos das considerações de Lucchesi à “Carta”, em pouco mais de dez páginas, toda ela imperdível, para qualificar como imperdível o livro Giacomo Leopardi. “Poesia/Prosa” na edição citada.

Bem jovem ainda, Leopardi deu mostras do seu enorme talento – tanto nos estudos das línguas clássicas e na precocidade da criação literária que surpreende seus tutores: o sacerdote Sebastiano Sanchini, dom Vicenzo Diotallevi e o jesuíta Giuseppe De Torres; um a um foram sendo superados pelo precoce gênio de Leopardi. Aos dezesseis anos, já traduz do grego e compõe em Latim um trabalho (“Porphyrii de vita Plotini”), oferecido ao pai; e um de seus mais famosos poemas (“O Infinito”) que é lenda e traduzido em diversos idiomas, foi escrito quando o autor tinha 21 anos. Mas como pode Leopardi marcar a literatura italiana (e mundial) com apenas cerca de 41 poemas?

A boa resposta parece estar em “Dante Milano [que] escreveu certa vez que a poesia de Leopardi exige uma leitura meditada, constituindo um desafio à facilidade. E que não seria jamais uma distração, mas um estudo profundo e uma emoção absorvente. Não nos ocorre uma síntese melhor.”

Érico Nogueira, no seu livro “Quase poética”, recém-lançado, afirma que “dos 33 poemas dos ´Canti` de Giacomo Leopardi (1798-1837), o mais curto, e possivelmente o mais trágico e pessimista, é “A Se Stesso”, escrito em 1833. Filólogo excelente, que dominou o latim e o grego com prodigiosa precocidade; leitor omnívoro e voraz, interessado, como Goethe, nas letras, nas artes e nas ciências; gênio infeliz, em suma, de saúde precária, mas um gigante fora do seu tempo…

O pessimismo de Leopardi, ensina-nos Carpeaux “não é nobre à maneira dos espiritualistas; é o eudemonismo de um materialista que desejava o prazer e só encontrou a dor” – e, portanto, grita (XXIII Canto Noturno de um pastor errante da Ásia – trad. José Paulo Paes):

“E’ funesto a chi nasce il dì natale.”

(“Funéreo por igual, /Venha ele ao mundo em berço ou em cafua,/É, a quem nasce, o seu dia natal.”).

O choque, destarte, não se explica em um ensaio, em uma crônica apenas. A poesia de Leopardi continuará sendo seu melhor álibi contra os oponentes ao amor que à sua poesia devotamos, nós, seus leitores, e mantemos virginal. É condição existencial esta insistência em falar sobre o poema que se ama, mas que ninguém extirpe dessa façanha, seu efeito didático – ainda que se tenha restrições àquele que escreveu é uma condição inerente ao que se amou na leitura.

É um poeta do deslumbramento, mas também da acídia, do taedium vitae, Weltschmerz, cansaço pela repetição do mundo afirma o tradutor e poeta Wagner Schadeck, ressaltando que, de certa forma, foi este pessimismo que trouxe Leopardi para a modernidade. “Não por ser gnóstica; antes por servir (a meu modesto ver) como reação ao contingente da modernidade: o prélio entre Leviatã (o Estado) e Behemoth (a Natureza). Mas é também seu requinte artístico que o fez ser admirado apenas formalmente.” conclui Wagner. De minha parte, ecoando o poeta e pesquisador Jamesson Buarque, em sua tese sobre Gerardo Mello Mourão “Reconhecer a obra de um poeta não significa, necessariamente, pautar-se por suas posições políticas” – tampouco pelas espirituais, diria eu em relação ao eudemonista italiano de tão sublime poesia.

Os versos de Leopardi só provam a este leitor o que afirmava Walter Otto: “O poético no homem é o que o põe em contato com o divino, isto é, com a mais alta realidade. O poeta inato é, por natureza, aparentado com o ser do mundo, de tal modo que, como que tocado por um relâmpago divino, dá nascimento ao canto da infinitude”.

E, assim, me despeço de você, leitor, algumas traduções dos “Cantos” de Leopardi que falam por si só se o efeito desejado é fruir a poesia, para além da polêmica de historicismos ou pessimismo como chave da porta para o entendimento deste poeta. Pleno da Natureza sublime das coisas está a poesia superior de Leopardi – por isso eu a amo tanto. Ecco là!

O Infinito – duas traduções: Vinicius de Moraes e de Ivo Barroso.

Sempre cara me foi esta colina

Erma, e esta sebe, que de tanta parte

Do último horizonte, o olhar exclui.

Mas sentado a mirar, intermináveis

Espaços além dela, e sobre-humanos

Silêncios, e uma calma profundíssima

Eu crio em pensamentos, onde por pouco

Não treme o coração. E como o vento

Ouço fremir entre essas folhas, eu

O infinito silêncio àquela voz

Vou comparando, e vêm-me a eternidade

E as mortas estações, e esta, presente

E viva, e o seu ruído. Em meio a essa

Imensidão meu pensamento imerge

E é doce o naufragar-me nesse mar.

Outra versão do poema

Infinito (Leopardi) – na tradução de Ivo Barroso.

Sempre cara me foi esta colina
Erma e esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar — intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando — de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.

A Gesta (trecho) – trad. Affonso Félix de Sousa

[…]

Qual da árvore ao cair pequeno pomo
Que pelo fim do outono
Sem outra força a madurez derruba,
Um formigueiro e os seus doces abrigos
Feitos na terra mole
Com persistência, e as obras
E as riquezas que com muita porfia
E um sem fim de fadiga a assídua gente
Havia no verão provisionado,
Esmaga, arrasa e cobre
Em pouco tempo; assim do alto atirando-se
Do útero trovejante
Lançada ao céu profundo,
De cinzas e de lavas e de pedras
Noite e ruína mista
De ferventes arroios,
Ou descendo a montanha
Com fúria em meio à relva
De rochas liquefeitas
E de metais e de abrasada areia
Baixando imensa cheia,
As cidades que o mar lá longe a praia
Banhava, confundiu,
Quebrou e recobriu
Num só instante: onde agora a cabra
Pasta, e cidades novas
Se fazem do outro lado, as sepultadas
Dando-lhes base, e os muros derrubados
O árduo monte a seus pés quase repisa.
Não tem a natureza
Mais cuidado com o homem
Do que a formiga, e se mais raro é nela
Do que na outra o estrago,
Isto se dá, no fundo,
Em razão de o homem ser menos fecundo.

(…)

Canto XXV – Imitação[ix]

Trad. Ivo Barroso

Longe do próprio ramo,
pobre folha frágil,
Onde vais tu? Da faia
Em que nasci, arrebatou-me o vento,
Que ora, a girar, em voo
Dos bosques à campanha,
Me transporta dos vales à montanha.
A sós, perpetuamente,
Vou peregrina pelo meu sendeiro
Em que vai toda cousa
E que naturalmente
Vai a folha da rosa
E a folha do loureiro.

Adalberto de Queiroz, jornalista e poeta. Autor de “Frágil armação” e “Destino palavra” – email [email protected]

[i] Sobre a vida e obra de Leopardi, recomendo consultar em Italiano: http://www.leopardi.it/

[ii] NOGUEIRA, Érico. “Quase poética”. Campinas (SP), Vide Editorial, 2017, 1ª. Ed., p.56.

[iii] MACY, John. “História da literatura mundial”. Tradução de Monteiro Lobato – Cia. Editora Nacional, S. Paulo, s/data de publicação.

[iv] MERQUIOR, José Guilherme. “Formalismo e tradição moderna. O problema da arte na crise da cultura”. São Paulo, Forense/USP, 1ª. Ed., 1974.

[v] LEOPARDI, Giacomo. PROSA/POESIA. Org. Marco Lucchesi. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1996. Todos os poemas citados são dessa edição, exceto A se stesso, trad. Érico Nogueira, cf. nota i.

[vi] CARPEAUX, Otto Maria. “História da Literatura Ocidental”, vol.V, 2ª. ed., Alhambra, 1981, p. 1257 e ss.

[vii] Weltanschauung (termo alemão que se pronuncia vèltanxauung”), cosmovisão ou mundividência é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo ou de toda uma sociedade.

[viii] Filósofo cínico hedonista do século III a.C.

[ix] Poesia Falada: “A noite do dia de Festa”, de Leopardi. Poesia/Prosa, Nova Aguilar, p.220/1 está gravada em SoundCloud, no link: https://soundcloud.com/adalbertoqueiroz/poema-a-noite-do-dia-de-festa-giacomo-leopardi

Sobre a vida e obra de Leopardi, recomendo consultar em Italiano: http://www.leopardi.it/

NOGUEIRA, Érico. “Quase poética”. Campinas (SP), Vide Editorial, 2017, 1ª. Ed., p.56.

MACY, John. “História da literatura mundial”. Tradução de Monteiro Lobato – Cia. Editora Nacional, S. Paulo, s/data de publicação.

MERQUIOR, José Guilherme. “Formalismo e tradição moderna. O problema da arte na crise da cultura”. São Paulo, Forense/USP, 1ª. Ed., 1974.

LEOPARDI, Giacomo. PROSA/POESIA. Org. Marco Lucchesi. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1996. Todos os poemas citados são dessa edição, exceto A se stesso, trad. Érico Nogueira, cf. nota i.

CARPEAUX, Otto Maria. “História da Literatura Ocidental”, vol.V, 2ª. ed., Alhambra, 1981, p. 1257 e ss.

Weltanschauung (termo alemão que se pronuncia vèltanxauung”), cosmovisão ou mundividência é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo ou de toda uma sociedade.

Filósofo cínico hedonista do século III a.C.

Poesia Falada: “A noite do dia de Festa”, de Leopardi. Poesia/Prosa, Nova Aguilar, p.220/1 está gravada em SoundCloud, no link: https://soundcloud.com/adalbertoqueiroz/poema-a-noite-do-dia-de-festa-giacomo-leopardi

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