Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Centenário da poesia mística e cânone de Dora Ferreira da Silva

No ano do centenário da autora, somos brindados por uma edição que para mim é o lançamento do ano no mercado editorial brasileiro – “Uma Via de Ver as Coisas[i]” -, segunda edição de um livro que foi pela primeira vez editado em 1973, como o segundo livro individual de Dora

Para Dora Ferreira da Silva, há um

Celebrando o centenário da poetisa Dora Ferreira da Silva (1918-2006): “há um elemento sacerdotal na Poesia” | Foto: Reprodução

Como assinala o jovem editor goiano Miguel Jubé: “É isso que trazemos de volta: o lugar de Dora Ferreira da Silva na poesia brasileira”. Pois, “se os que já a conheciam, aguardavam para revê-la tomar seu lugar, quem não a conhece pode se ater com o novo de uma conjunção de épocas”.

E em sua defesa, Jubé assinala que a poeta, também tradutora e das boas, tem em versos de Angelus Silesius, traduzidos por ela, Dora, uma constante: “A capacidade de dizer algo surpreendente do mesmo modo cotidianamente natural, comezinho, como nos chama para o almoço ou nos dá bom dia”. “Não pertences ao todo se fixo é o teu ser.

Dora prefere a “subida em profundidade”, para usar a expressão de Enivalda Nunes Freitas e Souza, na introdução deste livro:

“Em ti começa a eternidade de passos que iniciam
teu rumo”.

A poesia de Dora, nos assegura Enivalda, “é um poço que conduz à subida, à elevação. A caminhada se faz por escamas límpidas de linguagem que de tão lúcidas ferem a vista, exigindo o excesso de clareza de repetidas leituras”.

Como na inesquecível lição do professor José Fernandes sobre a poesia de Sônia Maria Santos, aqui também é preciso que o leitor seja exigente consigo mesmo, em igual ou maior medida que a poeta o foi com a linguagem, pois afinal, “há algo de maravilhoso aprisionado no mundo que [só] o empenho da palavra poética pode libertar”, destaca Enivalda.

Um lançamento nacional pela editora goiana martelo editorial

“Uma via de ver as coisas”, 2a. ed., lançamento nacional pela editora goiana martelo editorial | Imagem: Divulgação

Dora Ferreira da Silva (1918-2006) é de uma geração que se reunia em sodalícios intelectuais em torno das revistas “Diálogo”, “Cavalo Azul” e de sua casa na rua José Clemente, em São Paulo, onde eram constantes as presenças de Vilém Flusser e sua esposa Edith, de pintores como Sansom Flexor, Mira Schendel, o filósofo (e marido de Dora) Vicente Ferreira da Silva, além de alunos seguidores do filósofo tcheco, como Milton Vargas. A poeta é amostra soberba de um país que já não existe, onde a convivência dos contrários era possível e fecunda.

Em livro recente sobre a vida do filósofo tcheco Vilém Flusser, Gustavo Bernardo[ii] diz que “José Paulo Paes reconhece Dora na linhagem daqueles poetas cuja palavra ronda as fronteiras do sagrado, vendo na realidade o espaço aberto da hierofania”. Poetar significaria, para Dora e segundo Flusser, “tecer símbolos salvíficos que nos ancoram novamente na verdade realidade. Por isso, poetar significa para ela o mesmo que orar ou rezar”, como em Adoração[iii], poema que o agnóstico Flusser teria traduzido ao alemão, sem verter o título:

“Difícil chamar-te pelo nome, agora
que és tudo em meu chamado.
Ecoas. Água da sede,
bebo-te em silêncio. E despojo-te da imagem
no transparente ser e estar
sem perceber
que sou e estou
que és e estás

entregues ao não saber
do quando e onde
sempre e agora
e te sou
e me és

estando no infinito estar
sendo no infinito ser
que nos envolve e abarca
silenciosa viagem
adeus”.

Flusser, nos diz Bernardo: “Compara Dora a [Guimarães] Rosa: a prosa de Rosa se situaria em contexto religioso enquanto a poesia de Dora seria já expressão religiosa que requer análise paciente ao nível de cada poema, cada sentença, cada palavra”.

“Órfica

Não me destruas, Poema,
enquanto ergo
a estrutura do teu corpo
e as lápides do mundo morto.

Não me lapidem, pedras,
se entro na tumba do passado
ou na palavra-larva.

Não caias sobre mim, que te ergo
ferindo cordas duras,
pedindo o não-pedido
do que se foi. E tento conformar-te
à forma do buscado.

Não me tentes, Palavra,
além do serás
num horizonte de Vésperas.”

“Órfica” é um dos meus poemas prediletos neste livro. É possível compreendê-lo melhor pensando na entrevista de Dora concedida em 1999 e comentada por Gustavo Bernardo no livro citado acima. “Todo poeta tem um crítico lateral”, teria dito Dora e complementara:
Ele não pode ser muito forte, porque senão é como a luz que entra na câmera fotográfica: vela a imagem. Um poeta que seja muito crítico fará a poesia sofrer, mas também não pode ser totalmente acrítico, não pode acolher tudo o que lhe vem. Ao mesmo tempo, no entanto, chega perto de uma concepção religiosa, epifânica, quase panteísta”.

Quando eu estou andando no caminho de Itatiaia e, de repente, vem um pássaro, é um susto. E eu não sei mais se era um pássaro ou um deus. Não é um exagero. Não é literatura. Deu-me um temor sagrado”, como neste poema:

“ESPERANÇA[iv]

Pousa num golpe o pássaro do verde
súbito nascido de seu voo.
Ecoa o telegrama em nosso peito.
Conferimos as poucas letras
de tão longe vindas
de tão fundo oriundas
vindas e chegadas
a um porto de partida.
Apagadas as letras
soletramos a sós
o sol
da comunhão com tudo”.

Dora é (foi) poeta (prefiro o antigo termo poetisa!) premiada: três vezes com o Prêmio Jabuti, uma com o Machado de Assis (da ABL); foi tradutora de Friedrich Hölderlin, Angelus Silesius, Rainer Maria Rilke, Carl G. Jung e São João da Cruz.

Seus poemas foram traduzidos para o inglês, o alemão, o espanhol, dentre outros idiomas. Deixou 15 livros de poemas, incluindo uma antologia (“Poesia Reunida”, 1999), uma peça de teatro e alguns contos.

Dora merece ser lida e relida pois é produtora de uma poesia do mais alto nível em língua portuguesa. Para ela, há um “elemento sacerdotal na Poesia”, pois, como disse em um registro para a memória de Flusser, concordava com “Hölderlin quando este diz que a palavra é o mais inocente dos bens; no entanto, o mais perigoso”. Dora zelou desse bem como poucos homens e mulheres o fizeram na poesia brasileira.

Templo grego: tríglifos e metopa; antes significa, em arquitetura, as cabeças das pilastras que dão acesso a um templo

Tríglifos em templo grego. Observe que “Antes significa, em arquitetura, as cabeças das pilastras que dão acesso a um templo” (Cf. Celso Luiz Paulini)

“TEMPLO IN ANTES[v]

Antes, vigiando a cela do deus ausente.
Fora, o sol trançando a colunata,
infundindo vida à pedra fria.

Risos nos tríglifos, nos frisos,
na escalinata de passos e bulício.
Ausente a morte na Acrópole,
ausente a morte no sol de seu crepúsculo.

Pinheiros perfumados na colina das Musas
também vigiam. As eras encravam-se
na pedra alvíssima que o vento acaricia.

Colunas de ouro claro: viajantes da aurora
no mar revolto dos templos que irradiam.”

Adalberto de Queiroz, 63. Jornalista e poeta. Autor, entre outros, de “O Rio Incontornável”, Editora Mondrongo, 2017.

[i] SILVA, Dora Ferreira da (1918-2006). “Uma Via de Ver as Coisas”. Goiânia: Martelo, 2018.

[ii] BERNARDO, Gustavo. “A Dúvida de Flusser”. São Paulo: Globo, 2002, pág. 245.

[iii] Cf. nota i, op. cit., pág. 101.

[iv] Cf. nota i., op. cit., pág. 105.

[v] Cf. nota i., op. cit., pág. 60.

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