Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

A música e a literatura

Tenho novamente nas mãos este “Viola D’Amore” (1965), de Franklin de Oliveira, que tirei da estante com a esperança de abrir meus temas hoje à junção da música com a literatura. Sigo o conselho de um dos meus mestres de crítica que dizia ser necessário, às vezes, ir à estante, pois são os livros antigos que mais podem nos ensinar sobre temas atuais

Creio mesmo que há momentos em que devemos apelar para a prerrogativa que nos concedeu Bernardo de Chartres, nos transformando em anões sobre os ombros de gigantes” para que possamos enxergar mais longe.

Eis o que nos provê o crítico maranhense Franklin de Oliveira, com sua vasta cultura e seu estilo único, que mesmo parecendo despojado, é erudito, que parecendo intrincado, é fluído; isso desde o ensaio inicial (“Templo Sustentado”) que abre o livro[i], sob a égide de um poema de Fray Luis de Leon dedicado ao maestro Francisco Salinas, catedrático em Música na Universidade de Salamanca: 

[…] Traspasa el aire todo
hasta llegar a la más alta esfera,
y oye allí otro modo
de no perecedera
música, que es la fuente y la primera.
Ve cómo el gran maestro,
aquesta inmensa cítara aplicado,
con movimiento diestro
produce el son sagrado,
con que este eterno templo es sustentado[ii]
[…] Ao transpassar o ar todo para chegar até mais alta esfera,
ouve ali outro modo de música, que não era perecível,
música, que é a fonte primeira
. Vê como o grão maestro,

nessa grandiosa cítara aplicada,
com movimento destro produz o som sagrado, com a qual
este eterno templo é sustentado.

Um livro do crítico maranhense Franklin de Oliveira que deveria ser urgentemente reeditado

O som sagrado que sustenta o templo é a Música, com m maiúsculo, aquela que Hermann Hesse exalta no “Jogo das Contas de Vidro[iii]”, nas palavras de José Servo: “Consideramos a música clássica um extrato e o resumo da nossa cultura, por ser mais clara e significativa expressão e manifestação. Possuímos nessa música a herança da Antiguidade e do Cristianismo, um espírito de devoção jovial e corajoso, uma moral cavalheiresca insuperável”.

Partindo de uma questão bem formulada – “colocar a música no centro do universo da Cultura, transformando-a, como tal, em objeto das Ciências do Espírito” –, Franklin nos conduz ao seu (dele) e nosso mestre Otto Maria Carpeaux que procurou responder àquela questão com um generoso escopo de investigação em “Uma Nova História da Música”.

Carpeaux que já havia dado ao Brasil a sua monumental “História da Literatura Ocidental” em oito volumes propõe-se e se sai muito bem de outro desafio enorme, numa obra que, segundo Franklin, “é capaz de transformar conceitos, renovar perspectivas, e insuflar radical alento novo no julgamento e na história musicais”.

Recorro a Hesse novamente, para estabelecer um critério de valor:

Em última instância, moral [aqui] significa toda e qualquer expressão clássica cultural, uma exemplificação concentrada do comportamento humano… É sempre a mesma a atitude humana expressa pela música clássica, ela sempre repousa na mesma espécie de conhecimento da vida e aspira à mesma espécie de superação do acaso. A expressão da música clássica significa conhecimento da tragédia da humanidade, afirmação do destino humano, coragem, alegria! Seja ela representada pela graça de um Minueto de Handel ou de Couperin, pela expressão delicada de uma sensualidade sublimada, como em muitos italianos e em Mozart, trata-se sempre de um ato de resistência, de coragem diante da morte, de cavalheirismo e vibra nela o som de um riso sobre-humano…tais vibrações devem ressoar também no nosso jogo dos Avelórios e em toda a nossa vida, atos e sofrimentos”.

Voltando à “Viola D’Amore”, vejamos como Oliveira articula sua peça músico-literária. Em “As Catedrais Invisíveis”, após a abertura citada, ele situa dois romances – “Doutor Fausto”, de Thomas Mann e “O Jogo das Contas de Vidro” (para Franklin ainda na edição anterior como “Jogo de Vidrilhos”) – que versam sobre a música: “São dois universos concêntricos: perfeitos e acabados. Um de seus círculos é o da ética: o mundo dos valores. Um dos temas: a formação das naturezas harmoniosas. Eis porque neles a música surge como via de acesso à perfeição interior, à pureza da alma, ao centro irradiante da calma. É a lição de Santo Agostinho: o  universo como imenso e perfeitíssimo canto de inefável modular – ‘Velut magnum carmen cuiusdam inefabilis modulatoris’ [‘Como o nobre canto de um Músico Inefável’] (Franklin de Oliveira, 1965)”.

E se o Universo é uma espécie de poema do “inefável modulador”, do músico supremo, coube a algumas poucas criaturas o dom de reproduzir a música das esferas celestes. A música é, para Carpeaux, objeto de inúmeras metáforas e comparações como esta: “o símile das esferas, dos espaços infinitos, dos céus, dos anjos, do outro mundo…”. E de tal forma compara o autor austro-brasiliano que Oliveira diz que “o faz com tal severa contenção que a luz da efusão lírica só nos fere os olhos algum tempo depois da enunciação do símile”.

Assim, continua Franklin de Oliveira sobre “Uma Nova História da Música” (Carpeaux, 1958): “A música sacra de Benevoli é definida como a conquista de novos espaços; e a de Bach, como a conquista dos espaços infinitos da fé gótica”. As variações finais da Sonata para piano, opus 111, de Beethoven, são variações etéreas que refletem harmonias transcendentais. A Cavatina do Quarteto opus 127, de Beethoven, é de “suprema inspiração celeste e, de seu adágio, flui uma massa sonora que parece procedente de um outro mundo”.

Ao tanger essa sua “Viola D’Amore”, Franklin de Oliveira escreve crítica em alto nível, numa sinfonia que tem como estribilho justamente essa frase de uma das cartas de Santo Agostinho:  “Como o nobre canto de um músico inefável” [naturalmente, este músico é o Criador!] e assim descobrimos ao longo da obra crítica várias peças que fazem referências à Música como ‘evento central no universo da Cultura’”.

É livro de tal importância que justificaria uma reedição, pois, como diz Adonias Filho no metatexto, na “orelha” do livro: “Os ensaios estão abertos em sugestões e consequências. Peças de um livro – “Viola D’Amore” – que situa o leitor frente a problemas sempre atuais porque de conteúdo artístico e, por isso mesmo, de enorme interesse humano… um livro que, no ensaísmo crítico, participa da revisão de teses e conceitos reformulando a interpretação de círculos importantes da cultura brasileira”. E eu acrescento: da cultura universal, pois Franklin tem estofo moral e intelectual para isso.

Sobre “Uma Nova História da Música” (Carpeaux), Franklin diz que “parece ter sido escrito sob o santo olhar de Cecília, a Padroeira”.  É o procedimento similar ao que Franklin exerce sobre a obra de Guimarães Rosa, para fazer-nos descobrir que no escritor mineiro “a palavra é uma realidade autônoma: frêmito de som e sentido[iv]”.

Em “Manuel Bandeira”, Oliveira nos faz entender que foi “pelos caminhos da música que Bandeira chegou à musicalidade subtendida de sua poesia”. Afinal, o poeta pernambucano “veio mostrar com sua poesia contida, seca, de ácido sabor mas inundada de ternura, a possibilidade de existência de uma resolução ou solução musical tanto mais fina e sutil quanto menos ostensiva. Uma musicalidade interna, não externa”, garante Franklin de Oliveira.

Repisamos a lição de T. S. Eliot transcrita por Oliveira, de que “os elementos pelos quais a música mais interessa ao poeta são o ritmo e o senso de estrutura, ao observar que, além das possibilidades prosódicas apresentarem analogias com o desenvolvimento de um tema por diversos grupos de instrumentos, há possibilidades de transição num poema comparáveis ao movimento de uma sinfonia e de um quarteto, ou, ainda, possibilidades de disposição contrapontística”.

A crítica via musical, conforme à lição de Ezra Pound: “Criticism via music…This is the most intense form of criticism”. É o que diz a epígrafe do ensaio “Música & Literatura”, que discute, didaticamente, sob a forma de perguntas e respostas questões interessantíssimas (e profundas) da possibilidade da construção do romance à base da arquitetura musical…[referindo-se o autor] à estrutura do romance e não à estrutura da frase. Estrutura, disposição ordenada das partes segundo determinada técnica.

Isto, alerta Franklin, “não se confunde com estilo, índole, natureza, maneira de ser da escrita e da frase”, sendo, antes, uma questão técnica que, mesmo não tendo nada a ver, pode levar à “ontologia da arte” (origem do fenômeno literário) estudado desde 1931 por teóricos como o polonês Roman Ingarden[v] (“A Obra de Arte Literária”), Riezier (1935), chegando a Heidegger (1950) etc., ensina o crítico maranhense.

O exemplo do romance de Hermann Broch (“A Morte de Virgílio”[vi]) dado como de uma obra literária composta como uma sinfonia é defendido nesse ensaio e merece atenção que “Broch qualifie de `musicale´ sa méthode d´expression…”, segundo Jean Boyer (1954), citado por Franklin.

E para finalizar com um poema – como quase sempre tenho feito aqui em “Destarte” -, deixo o leitor com “Debussy” (M. Bandeira), para o qual Franklin já havia chamado a atenção por sua musicalidade em meio a outros do volume “Carnaval” (1919), como o poema “Epílogo” (aquele do inesquecível bordão “Eu quis um dia, como Schumann, compor/Um carnaval todo subjetivo:/Um carnaval em que o só motivo/Fosse o meu próprio ser interior…”), poema que Leila Míccolis e Anna Paula Lemos reabilitaram no ensaio “A Música na Poesia de Bandeira e Mário”[vii].

Debussy

Para cá, para lá…
Para cá, para lá…
Um novelozinho de linha…
Para cá, para lá…
Para cá, para lá…
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai…)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psiu… —

Para cá, para lá…
Para cá e…
— O novelozinho caiu.”

Enfim, aqui cai a pena. Fico com a sensação de que a literatura deve continuar seguindo o conselho de Verlaine em sua “Art Poétique”: “De la musique avant toute chose…”.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta. Meu livro de poesia mais recente é “O Rio Incontornável” (Editora Mondrongo, 2017).

[i] OLIVEIRA, Franklin de. “Viola D’Amore”, Rio de Janeiro, Edições do Val, 1965, 220 páginas.

[ii] Não tendo encontrado uma tradução para o português, deste belo poema de Fray Luís de León, não ouso fazê-lo, mas pelo menos o verso central deve ser esclarecido ao leitor não conhecedor do espanhol possa compreender o contexto da citação: “Veja como o grande maestro/a essa imensa cítara se aplicou,/com movimento destro/produz o som sagrado/com o qual este templo eterno é sustentado”.

[iii] HESSE, Hermann. “O Jogo das Contas de Vidro”. Trad. Lavínia Abranches Viotti e Flávio Vieira de Souza. São Paulo: Editora Brasiliense, 1970, 460 páginas.

[iv] Cf. p. 64 do livro cit. Ref. i. (acima).

[v] Veja o leitor a esse respeito o estudo do professor Paulo Neto, do Instituto Politécnico de Viseu (IPV, Portugal), “Huguenau ou o Realismo, Hermann Broch” no link: http://www.ipv.pt/millenium/Millenium25/25_20.htm

[vi] BROCH, Hermann. “A Morte de Virgílio”; tradução Herbert Caro. Rio de Janeiro:  Ed. Nova Fronteira, 1982. Prefácio de Franklin de Oliveira, 502 páginas.

[vii] MÍCCOLIS, Leila e LEMOS, Ana Paula, “A Música na Poesia de Bandeira e Mário”, cf. link consultado em 30/08/2018: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/artigos/art042.htm

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