Confesso que ando lendo muito pouco. Inclusive já falei sobre isso aqui. E, quando leio, boa parte do tempo tem sido dedicada a livros que conheci há décadas, livros que, à época, li com os pés descalços. Ou seja, eram leituras feitas sem muita intimidade com as palavras e, sobretudo, sem o repertório de outras obras que pudesse me ajudar a compreender melhor aquilo que tinha diante dos olhos e assim transitar melhor no campo da intertextualidade.

Assim, atravessei muitos livros ficando apenas na casca de suas palavras. Passei os olhos pelas páginas, acompanhei histórias, porém sem chegar à alma do que estava lendo. Hoje, ao retornar a alguns desses livros, tenho a impressão de encontrar neles coisas que sempre estiveram ali, mas que eu, por falta de maturidade intelectual e de repertório de leitura, não conseguia enxergar. Essa releitura me dá a sensação metafórica de retornar a uma casa onde morei e nela descobrir portas e janelas que, outrora, eu sequer havia percebido a existência delas.

Recentemente mergulhei de cabeça em “O Cemitério dos Vivos”, “Diário do Hospício” e “Os Bruzundangas”, de Lima Barreto, escritor cuja própria dor existencial serviu de tinta para seus livros. Isso é explícito em “O Cemitério dos Vivos”: romance inacabado escrito entre 1919 e 1920, durante sua segunda internação no Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro. Pode-se dizer que Barreto comeu o pão amassado pelo rabo do diabo. Já em “Diário do Hospício”, ele fala documentalmente de suas agruras no período de internação: “Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza de que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda espécie de apreensões que as dificuldades da minha vida material há seis anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro”.

Curiosamente, é possível constatar uma ligação entre Fiódor Dostoiévski e Lima Barreto. Eles optaram por expor as feridas abertas de suas respectivas sociedades (a Rússia czarista do século XIX e o Brasil da Primeira República) a partir de suas próprias cicatrizes psicológicas e sociais. Vale ressaltar que Dostoiévski enfrentou uma barra mais forte: escapou de um fuzilamento simulado cinco minutos antes da hora h dos tiros nos condenados à morte, mas foi obrigado a cumprir a pena de quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, onde o frio é extremo e a temperatura no inverno pode chegar a -40°C e até atingir mais de -70°C. E ele teve outros problemas.

Imagino que a essa hora da leitura (se é que, você, altaneiro leitor, chegou até aqui), deve estar querendo saber onde está o fato relacionado ao livro citado no título. Vamos a ele.

A corrupção envolvendo agentes públicos, como policiais, juízes e políticos, é uma presença constante no debate brasileiro e nas investigações dos órgãos de controle. Notícias sobre desvios e abusos de poder surgem a todo instante, revelando um problema que insiste em fazer parte da vida nacional. E, geralmente, a punição não acontece com o rigor que a lei determina. Entre brechas, recursos e subterfúgio$, quase sempre há uma saída. Ou melhor, um jeito de escapar do xilindró. Aquilo que consta no artigo 5º da Constituição Federal do Brasil, segundo o qual “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, não tem passado, em muitos casos, de conversa para boi dormir. Enfim, tem sido letra morta da lei.

O episódio do Caso Master está com o ventilador ligado na alta, e a lama está chegando até a muita gente graúda da mais alta corte do país: o Olimpo da magistratura. E no meio dessa lama, muita grana. Grana alta até para custear um filmeco do escrachado ex-presidente Jair Bol$onaro por um valor estratosférico. Nas gravações mostradas hoje na imprensa, até o deputado federal Nicolas Ferreira (PL-MG), em seu pedido $ocorro ao “lindão” Don Juan Daniel Vorcaro, suplicou por mais proximidade de Vorcaro. No STF, o bicho está pegando: os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça protagonizaram um embate verbal nos corredores do Olimpo.

Foi desse furdunço federal é que cheguei ao livro “Os Bruzundangas”. No primeiro parágrafo do prefácio da obra, Lima Barreto diz o seguinte: “Na ‘Arte de furtar’, que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos, há um capítulo, o quarto, que tem como ementa esta singular afirmação: ‘Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões’”. Até algum tempo, a autoria de a “Arte de furtar” era atribuída ao célebre Padre Antônio Vieira, mas a verdade veio à tona: seu verdadeiro autor é o padre jesuíta Manoel da Costa (1601 – 1667). Ele era escritor e professor de português.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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