A asa da borboleta carregada por formigas
27 agosto 2026 às 13h07

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Ainda faltava uma hora para o sepultamento. Agoniado de tanta tristeza, Elmo resolveu caminhar pelas ruas floridas do cemitério. Seu coração, porém, ainda não conseguia perceber as flores; seus olhos apenas as viam, sem enxergar sua semântica. Eram coisas sem nomes. Hibiscos vermelhos e amarelos e alamandas amarelas e vermelhas se espalhavam pelos dois lados das ruas. Sobre os jazigos, pequenos vasos guardavam outras flores, a maioria crisântemos de várias cores. Algumas já estavam murchas. Havia também muitas flores artificiais. Aqui e ali alguns túmulos abandonados sem vestígios de vivos unindo-lhes a seus mortos.
No grama entre as sepulturas, alguns anus-brancos perseguiam insetos. Chupins comendo sementes de capim numa touceira de túmulo abandonado. Mais adiante, uma coruja-buraqueira, pousada sobre uma cruz de mármore branco à cabeceira de um túmulo, observava tudo em silêncio.
Havia ali dois mundos em contraste, separados apenas por uma fina camada de terra. Sobre ela, a vida se mostrava em cores, asas, flores e cantos. Sob ela, o banquete silencioso da morte, comandado pelo “verme, este operário das ruínas, que o sangue podre das carnificinas come, e à vida em geral declara guerra”, como escreveu Augusto dos Anjos – “filho do carbono e do amoníaco” – no poema “Psicologia de um vencido”.

O verme, bem como sabemos, não faz distinções em seu trabalho de ruínas: não conhece sobrenomes, dinheiro, cor, religião ou posição social. Diante dele, desaparecem as pequenas hierarquias inventadas pelos vivos. O homem que se julgava superior a outro termina entregue ao mesmo operário das ruínas. A terra nivela aquilo que a vaidade insiste em separar. Os soberbos não sabem que os operários das ruínas têm a mesma fome por todos.
Uma tristeza que não virava lágrima sufocava Elmo. Queria chorar. Precisava chorar. Mas não permitia que suas lágrimas acontecessem diante de ninguém. Era um homem fechado, acostumado a guardar dentro de si aquilo que doía. Certa vez, uma amiga psicóloga o aconselhou a compartilhar seus segredos com alguém. Elmo, fugitivo como sempre fora de suas próprias confidências, respondeu à amiga com uma metáfora:
— Ainda vou aprender com os cães a lamber a própria ferida onde quer que a dor me alcance. Ainda vou aprender que rir quando a alma pede lágrimas é fazê-la sofrer duas vezes.
Enquanto caminhava, começou a revolver a memória. Vieram momentos agradáveis vividos com o pai. Vieram também lembranças tristes, mas já sem a dor de quando aconteceram. Havia agora uma dor maior, mais recente, apertando-lhe o peito. Pouco a pouco, seu coração começou a enxergar aquilo que os olhos apenas viam. Foi então que as lágrimas vieram. E abundantes. Só ele viu suas lágrimas.
Elmo parou diante de uma cena banal para qualquer outro olhar: algumas formigas carnívoras carregavam um pedaço de asa de borboleta. Pequenas e obstinadas, arrastavam o pedaço de asa pelo chão. Depois de muito esforço, conseguiram introduzi-lo na estreita abertura do formigueiro, junto ao pé de um banco de cimento, sob a sombra de um frondoso mogno.
Não era exatamente a morte que o fazia chorar. Tampouco o medo de um dia ser alcançado por ela. Há quem chore mais pelo temor da morte que pela morte do outro. O que doía em Elmo era algo mais simples e, por isso mesmo, mais profundo: nunca mais teria o pai diante de si. Nunca mais ouviria sua voz. Nunca mais escutaria seu riso. Nunca mais receberia seus conselhos. Nem mesmo aquelas discussões acaloradas que, depois de algum tempo, terminavam em reconciliação e amizade, pois ambos, muito além do laço sanguíneo, eram amigos.
Entre os dois não havia contas a acertar. Sua consciência não o castigava com arrependimentos. Em vida, haviam construído uma relação de amizade tão sólida que, além de pai e filho, eram também dois bons amigos. Elmo continuou caminhando. As flores agora começavam a existir para ele.
Percebeu as cores dos hibiscos, das alamandas, dos crisântemos sobre os túmulos. Ouviu os pássaros, viu a coruja imóvel na cruz e acompanhou com os olhos atentos o movimento inquieto das formigas.
Tudo continuava, indiferente à morte de um homem; afinal a vida não se dá ao luxo de parar, é algo impossível, suas engrenagens não enferrujam. O cemitério, percebeu, não era apenas um lugar de mortos. Havia vida por toda parte. Já quase na hora do sepultamento, Elmo voltou à sala de velório. Ao vê-lo chegando, seu único filho – uma criança de cinco anos -, correu em sua direção, emocionado, dizendo: “Papai, papai, papai!”. Elmo o tomou nos braços, e a criança, ao ver os olhos molhados do pai, perguntou-lhe: “Você está chorando, papai?”. Ele então, olhando no rostinho do filho, resolveu assumir que estava. A cena chamou a atenção dos presentes no velório.
Quando o caixão foi colocado na gaveta do túmulo, a imagem das formiguinhas voltou à memória de Elmo: aquelas pequenas criaturas carregando, com uma obstinação quase comovente, a asa de uma borboleta para dentro da terra. Por um instante, pensou no pai sendo entregue à mesma terra. Olhou para o filho, que ainda não compreendia a ausência que começava naquele dia, mas que, com o passar do tempo, compreenderia. Beijou-lhe o rosto demoradamente, como se naquele beijo pudesse guardar alguma coisa do tempo que já não voltaria. E sentiu uma tristeza dolorida, dessas que não passam, que apenas passam a morar dentro da gente. A morte havia levado seu pai para o silêncio eterno do pó da terra.
A vida, entretanto, ainda lhe deixava aquele pequeno corpo nos braços: uma presença miúda e quente, como um consolo, uma promessa, mas sobretudo uma razão para continuar prosseguindo na vida. E ele próprio era também um consolo valioso para si mesmo.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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