Ronaldo Costa Fernandes

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

Dá para separar o homem e o criador? Até certo ponto, dá.

1

Mario Vargas Llosa

O peruano Mario Vargas Llosa, que já defendeu pautas da esquerda, durante boa parte da vida adulta e da velhice se tornou um reacionário, vergonhosamente defendendo figuras autoritárias da direita e extrema direita internacional.

Ocorre, contudo, que Llosa, em seus livros, não demonstra nenhum viés ideológico, não há em seus romances uma defesa de regimes ditatoriais ou simpatia por personagens de extrema-direita.

Romance de Mario Vargas Llosa é uma denúncia poderosa dos males do colonialismo | Foto: Divulgação

Pelo contrário, os regimes autoritários são apresentados de forma crua e condenáveis e suas tramas estão mais para o elogio da liberdade e de causas sociais como a “biografia” da avó comunista de Gauguin, em “O Paraíso na Outra Esquina” (Arx, 493 páginas, tradução de Wladir Dupont) ou a biografia do diplomata irlandês Roger Casement, que denunciou o genocídio belga no Congo, em “O Sonho do Celta” (Alfaguara, 390 páginas, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

2

Jorge Luis Borges e Sartre

Por seu lado, Jorge Luis Borges, num momento delicado da ditadura argentina, deu entrevista defendendo os militares. Alguns afirmam que ali perdia ele o Prêmio Nobel Literatura. O prêmio sueco é político?

Curioso observar que Jean-Paul Sartre, feroz marxista, e Albert Camus, ferrenho crítico da União Soviética, também o ganharam.

Logo, a afirmação acima perde um pouco de lustro. A literatura de Borges é revolucionária.

Jorge Luis Borges capa de O Aleph

Mas pode ser vista como escapista. Quando realista, se refere preponderantemente a uma Argentina que não é sua contemporânea. E, quando idealista, visa mundos etéreos, apresentando-se alegórica e mitológica.

Contudo, o que nos interessa aqui é observar que a literatura de Borges não se mostra defensora de autoritarismo e em nenhuma linha se poderá encontrar um laivo qualquer do homem político que foi vigorosamente antiperonista quando Juan Domingo Perón, ainda que populista, também podia ser visto como o defensor dos pobres.

3

Raquel de Queiroz e Graciliano Ramos

Bem diverso, mas dentro do mesmo espectro, se encontra o caso de o Partido Comunista Brasileiro tentar criar uma cartilha de escrita baseada nas teorias de Andrei Jdanov. Raquel de Queiroz e Graciliano Ramos sofreram com a interferência do Partidão que censurava obras dos dois escritores e propunha que as reescrevessem sob a égide do realismo socialista.

“Esse Jdanov é um cavalo”, gritou certa vez Graciliano numa reunião para discutir justamente as ideias do soviético.

Raquel de Queiroz foto de Edu Simões
Raquel de Queiroz: criticada pelo Partidão por não ter aceitado orientação literária | Foto: Edu Simões

Os membros do partido, inclusive um crítico tão perspicaz como Astrojildo Pereira, caíra no lugar-comum de exigir dos escritores como Graciliano Ramos o herói positivo.

Todas os pensamentos sonambúlicos de um herói derrotado como Luís da Silva, em “Angústia”, seriam desvios de um formalismo burguês. 

4

Camilo José Cela

O espanhol Camilo José Cela era um bom vanguardista. Dois romances são especialmente modernos: o de estreia, “A Família de Pascual Duarte”, e “A Colmeia”. Este último, influenciado por John Dos Passos, mostra uma Madri dos anos de Franco sem personagem principal.

A colmeia a que se refere é a multidão anônima que percorre suas páginas: pequenos burgueses, pobres, gente rica, tudo em vários ambientes como edifícios, casas, ruas e transportes. A vertente social é forte em Cela, e não se encontra, nos dois romances, deslize de cunho fascista.

Camilo José Cela capa de A Colmeira

Ocorre que o cidadão Cela não tinha nenhum caráter. Sua atividade política era desastrosa, cretina e perigosa. Foi censor, oferecia-se para criar um plano de cooptação de escritores, buscou os órgãos de repressão sistematicamente, elogiava o ditador.

Cela ganhou o prêmio Nobel de Literatura, o que causou repulsa ainda maior daqueles que sofriam a repressão sanguinolenta do regime franquista. Foi o fundador da Editora Alfaguara em 1964. Em 1997, com a restauração democrática, posou de liberal. O rei o nomeou senador para a Constituinte.

5

Euclides da Cunha e racismo

Mais difuso é o caso de Euclides da Cunha. Até hoje, o autor de “Os Sertões”é visto como um vingador social. Denunciou a violência de Estado, a histeria da sociedade, o genocídio de Canudos.

Entre dois polos, Euclides da Cunha seria posto na esquerda. Mas Euclides é mais que o erudito que escreveu sobre um morticínio. É o estilista genial, o construtor de uma linguagem própria, o fundador de uma escola que se esgota em si mesmo.

Nos últimos tempos, de revisionismo, surge outro: o Euclides racista. O problema aqui não é o homem e a obra. É a obra e a obra. Euclides condenou a mestiçagem. “A mistura das raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial.” “O mestiço — traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é quase sempre um desequilibrado”, escreve.

Euclides da Cunha 450 capa de os sertões0k2

Como afirma Luís Cláudio Villafañe, na sua biografia de Euclides (“Euclides da Cunha — Uma Biografia”, 432 páginas, Editora Todavia): “Na sua famosa frase ‘O sertanejo é antes de tudo um forte’, se esquece da frase seguinte: ‘Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral’”.

A seu favor conta que se definia como “misto de celta (branco), de tapuia e grego”. 

Para Euclides, ao contrário da luta de classes marxista, baseado em Gumplowicz, o motor da história era a luta de raças.  Com “o esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes”. Cabe dizer aí que a raça forte é o branco.

Também não lhe cabe a primazia da denúncia. Euclides, que não presenciou a luta, fez paráfrases de livro de 1898 de Dantas Barreto, este, sim, testemunha ocular. Ou dos artigos, em 1897, de Siqueira de Menezes em “O Paiz”.

O sociólogo Gilberto Freyre já havia “inocentado” Euclides da desatualização metodológica, do anacronismo de vários conceitos sobre antropologia, sociologia, botânica e geologia.

O poeta havia se sobreposto ao cientista. O artista havia interpretado com palavras cheias de força… “os sertões abandonados, os sertanejos esquecidos”.

Ronaldo Costa Fernandes é poeta e romancista. “Vieira na ilha do Maranhão” é um dos seus romances. Em poesia, ganhou o Prêmio da Academia Brasileira de Letras com “A Máquina das Mãos (2009, 7Letras). É doutor em Literatura pela UnB. Mora em Barcelona. É colaborador do Jornal Opção.