Prestes a iniciar operações, Porto Seco de Anápolis deve ter investimento de até R$ 300 milhões, diz CEO da Aurora EADI
06 junho 2026 às 21h01

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“Após um longo caminho, um novo tempo começa em Anápolis”. Assim, a Aurora EADI abre um vídeo divulgado para anunciar o início das atividades do Porto Seco de Anápolis após a obtenção do Alvará de Funcionamento pela Prefeitura, um dos entraves que o grupo tentava superar.
Em entrevista ao Jornal Opção, a CEO da Aurora EADI, Paola Di Gregorio, destacou que a empresa ainda depende da conclusão do processo de alfandegamento pela Receita Federal para iniciar as operações, assim que houver a publicação da autorização. O grande desafio, até então, era justamente a falta do Alvará de Funcionamento Condicionado, pendente há meses devido a supostas irregularidades apontadas pela Prefeitura de Anápolis durante a gestão passada. Sobre o assunto, Paola afirma que muitas das irregularidades não eram sinalizadas de forma objetiva, o que tornou o processo de regularização mais moroso.
Ainda na entrevista, a CEO falou sobre os planos de expansão do grupo em Anápolis e destacou a experiência da empresa, que atua há quase 30 anos no segmento de portos secos e há cinco décadas no setor de logística. Ela também respondeu aos questionamentos sobre a comparação entre a área atual da Aurora EADI e a do Porto Seco Centro-Oeste. Segundo Paola, o espaço atende às exigências previstas na licitação e ainda possui capacidade para expansão, conforme a demanda do mercado.
Ao comentar as dificuldades enfrentadas para obter o alvará, Paola disse não concordar com o uso da palavra “perseguição”, embora reconheça que o processo resultou em um atraso de sete anos em relação ao cronograma inicial, que previa o início das atividades em 2019. Apesar disso, ela afirma que os obstáculos enfrentados foram inéditos e muito diferentes dos observados na implantação dos portos secos de Manaus (AM) e Sorocaba (SP), onde o grupo também atua.
Por fim, Paola destacou que a empresa pretende contribuir para o desenvolvimento de Anápolis e colaborar na atração de novas empresas e investimentos para o município.
Ton Paulo – A Aurora EADI teve uma dificuldade em conseguir o alvará de uso do solo para funcionamento durante a gestão municipal passada de Anápolis. Esse documento já foi emitido? A empresa de vocês já está em pleno funcionamento no Porto Seco?
O alvará foi emitido pela Prefeitura de Anápolis há cerca de 15 dias e nós, agora, submetemos o processo junto à Receita Federal pedindo o alfandegamento, porque o alvará era o último documento que faltava para o nosso alfandegamento. Isso porque ele ainda se encontra com a Centro-Oeste. A troca só é realizada a partir do momento em que a Receita Federal emite um comunicado informando o número do novo recinto e desativa o recinto anterior. Com isso, os clientes têm até 90 dias para retirar as cargas do recinto anterior, e as novas cargas começam a vir para o novo recinto, como normalmente ocorre no processo de licitação.
Ton Paulo – E tem uma previsão de quando isso pode acontecer?
Não, porque, agora, isso depende dos trâmites internos da Receita Federal.
Ton Paulo – A instalação da Aurora EADI no Porto Seco de Anápolis foi um processo muito dramático. Houve até a realização de uma coletiva de imprensa em que vocês alegaram dificuldades para estabelecer um diálogo com a gestão municipal da época. O que exatamente aconteceu naquele período?
Em 2018, nós ganhamos a licitação, na qual participamos com um terreno que possuía a certidão de uso do solo. Logo após a licitação, essa certidão foi cassada pela Prefeitura da época, sem que fôssemos informados, sem direito de resposta ou qualquer outra manifestação. Até hoje, não sabemos o real motivo para o cancelamento.
Nós entramos com uma ação buscando entender por que essa certidão foi cancelada. Houve, inclusive, uma decisão judicial em que foi constatado que houve um erro da administração ao cancelar a certidão de uso do solo, que não poderia ter sido anulada. Desde então, procuramos um terreno que atendesse à metragem prevista na licitação e que estivesse localizado dentro do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia) ou em área limítrofe, porque isso era uma exigência descrita no edital.
Conseguimos encontrar esse terreno onde a Aurora EADI está localizado hoje, em uma área adjacente ao Daia. Mas, desde então, tivemos dificuldades nessa interlocução junto ao poder público.

João Paulo Alexandre – E qual foi a justificativa para a suspensão dessa licença?
Não houve justificativa. Ela foi simplesmente cancelada. Por isso, depois que entramos com a ação judicial, foi constatado que houve um erro da administração pública ao promover o cancelamento.
Ton Paulo – E esse episódio chegou a ser citado na coletiva de imprensa, quando vocês afirmaram que a empresa tentava diálogo com o Poder Público, mas não obtinha respostas. Isso realmente aconteceu? Houve um fechamento do diálogo por parte do Poder Público naquela época?
Na verdade, nós nunca conseguimos estabelecer um diálogo. Não houve nem mesmo um fechamento, porque essa conversa sequer chegou a começar. Na época, queríamos entender o que poderíamos fazer, o que estava errado e o que precisávamos corrigir, mas nem essas informações nos eram fornecidas.
Desde então, conseguimos construir o nosso empreendimento e enfrentamos vários percalços ao longo do processo até chegar a esta fase da obtenção do alvará. Nesse período, foram realizadas diversas vistorias, e sempre estivemos à disposição para responder a todas as denúncias apresentadas. Mantivemos uma postura aberta para prestar esclarecimentos e colaborar com todas as inspeções que foram necessárias.
Ton Paulo – E a que você atribui essa falta de diálogo por parte da gestão municipal da época? Acredita que houve alguma motivação política por trás disso?
É difícil explicar o motivo. Infelizmente, eu não sei o que levou a essa mudança de postura. Certamente deve ter existido alguma razão, mas, sinceramente, eu não sei qual foi.
João Paulo Alexandre – De certo modo, como essa sequência de burocracias acabou impactando o funcionamento da empresa de vocês? Podemos falar em prejuízos, por exemplo?
Há oito anos, quando ganhamos a licitação, isso aconteceu com uma proposta de preço cerca de 40% inferior à do atual prestador de serviço. Eu vejo que isso causou prejuízos não apenas para a minha empresa, mas também para a cidade e para a região como um todo, porque montamos uma estrutura de ponta, equipada com tecnologia de última geração, câmaras frias, docas climatizadas e uma infraestrutura moderna.
Na unidade da Aurora em Sorocaba (SP), atendemos todos os tipos de produtos, desde turbinas de avião e carros até equipamentos eletrônicos e produtos farmacêuticos. A cidade também conta com um Porto Seco bastante voltado ao setor farmacêutico. Recebemos diversos prêmios ao longo dos anos e, inclusive, fomos reconhecidos na semana passada como um dos melhores operadores logísticos do segmento farmacêutico.
Por conta disso, acredito que temos muito a acrescentar e a desenvolver em conjunto com as indústrias da região. O foco principal do nosso grupo é oferecer soluções personalizadas e integradas para atender às necessidades dos clientes e das indústrias.

Cilas Gontijo – Conta um pouco da história da Aurora EADI. Há quanto tempo a empresa atua no mercado de armazenamento logístico?
O nosso grupo atua há mais de 50 anos no segmento de logística. Temos uma grande expertise nessa área. Em portos secos e EADIs, trabalhamos desde 1998. Atualmente, contamos com duas estruturas em operação desde então: uma em Sorocaba (SP) e outra em Manaus (AM).
Decidimos participar dessa licitação porque tínhamos a convicção de que poderíamos oferecer benefícios para a região. Acreditamos que temos muito a agregar e a contribuir, principalmente pela nossa experiência em armazenamento e logística voltados aos setores farmacêutico, automotivo e agroindustrial.
João Paulo Alexandre – Comente como está sendo construído o diálogo com os potenciais clientes do Porto Seco para entender as demandas e verificar se o que é oferecido será suficiente para atendê-las.
Na verdade, nós vamos dar continuidade ao serviço que já é prestado atualmente. É óbvio que o serviço básico é o mesmo oferecido pelo atual operador e que nós também realizamos. O que muda é a forma de atuação e a maneira como cada empresa conduz suas operações. Os regimes aduaneiros são os mesmos, assim como os serviços de armazenagem.
O que podemos fazer é oferecer serviços diferenciados aos clientes, de acordo com as necessidades e características de cada operação. Mas os serviços essenciais continuarão sendo prestados da mesma forma que são hoje.
A Aurora executa os serviços básicos exigidos pela Receita Federal, mas sempre buscamos oferecer um atendimento diferenciado. A partir de uma análise das dificuldades logísticas de cada cliente, procuramos desenvolver operações dedicadas que atendam às suas necessidades e gerem ganhos de eficiência. Podemos oferecer o serviço alfandegado, transporte e uma logística integrada, buscando construir soluções completas para cada operação.
Acredito que o diferencial de cada empresa está justamente na capacidade de oferecer uma solução melhor para o cliente, com mais eficiência e menor custo.

Cilas Gontijo – Os responsáveis pelo Porto Seco Centro-Oeste alegam que vocês venceram a licitação com um preço impossível de ser praticado para a manutenção da estrutura. Como avalia essa afirmação?
Essa avaliação caiu por terra. O Tribunal de Contas da União já analisou as nossas tarifas e essa questão foi decidida há cerca de 20 anos. A nossa proposta é plenamente exequível. Afinal, não faríamos um investimento de R$ 150 milhões sem a convicção de que ele é viável.
Não somos uma empresa nova nesse segmento. Atuamos nesse mercado há 28 anos e realizamos todos os estudos necessários para garantir retorno ao investimento, ao mesmo tempo em que oferecemos um melhor custo-benefício aos clientes.
A tarifa que apresentamos durante a licitação foi elaborada com base em análises técnicas e será aplicada aos clientes. Segundo os nossos estudos, ela permite a sustentabilidade da operação e também gera retorno para a empresa. Portanto, não se trata de uma tarifa inexequível.
Cilas Gontijo – Outro ponto de questionamento é o tamanho da área em que a Aurora EADI está instalada atualmente em comparação com a do Porto Seco Centro-Oeste. Segundo eles, o espaço de vocês é bem menor. É possível realizar todo o serviço esperado dentro dessa área?
Sim. Toda licitação possui fases que precisam ser cumpridas e nós estruturamos uma área que já atende a praticamente todos os requisitos da fase D0. Além disso, temos um terreno adjacente com o dobro da metragem da área atual, já destinado a uma eventual expansão, caso seja necessária.
De acordo com o que está previsto na licitação, já atendemos plenamente às exigências da etapa atual. No entanto, se houver necessidade de ampliação da operação no futuro, contamos com espaço disponível para expandir a estrutura.
Vale destacar também que o atual grupo que opera tem uma área grande, mas parte dela é utilizada para outras finalidades, não apenas para a parte alfandegada, como venda de contêineres e outras operações.
Ton Paulo – Um dos entraves do processo de início das operações que vocês enfrentaram foi uma decisão judicial determinando que a Aurora EADI desocupasse uma área pertencente à Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), sob a alegação de irregularidades. Gostaria de saber como essa questão foi resolvida, já que, na época, a decisão previa a demolição do que já havia sido construído.
O que aconteceu foi que o concorrente apresentou uma denúncia alegando que havia uma invasão da faixa de domínio da ferrovia, que compreende 15 metros para cada lado da linha férrea. Como isso foi resolvido? A FCA aprovou o projeto da área onde hoje está instalada a pavimentação. O acesso que existia anteriormente, localizado um pouco mais à frente e que cruzava a ferrovia — justamente o ponto que gerava a discussão — foi removido. Todo esse processo foi aprovado pela Goinfra, pela ANTT e pela própria FCA. Com isso, inclusive, o processo judicial foi suspenso.
Em relação às demolições previstas na decisão judicial da época, elas não chegaram a ocorrer nos termos inicialmente discutidos. Para deixar claro, a questão envolvia uma faixa de asfalto de aproximadamente 10 metros que atravessava a ferrovia, dentro da faixa de domínio de 15 metros para cada lado. Essa estrutura foi posteriormente removida durante a implantação do novo acesso.
Ton Paulo – Voltando agora para mais informações sobre a Aurora EADI: qual é o regime de capital da empresa e qual o valor investido até o momento na estrutura de vocês?
Somos uma empresa de capital fechado, com 28 anos de atuação no segmento de portos secos e mais de 50 anos de experiência no setor de logística em geral.
Em Anápolis, investimos aproximadamente R$ 150 milhões, valor que engloba a aquisição do terreno, a construção da estrutura e os investimentos realizados em equipamentos e tecnologia para a operação.
Ton Paulo – E vocês, por diversas vezes, ensaiaram um início de operação que, por diferentes motivos, acabou sendo postergado. Em números, qual foi o prejuízo que isso causou à Aurora EADI?
Nós chegamos a contratar muitas pessoas e mantivemos funcionários por cerca de seis meses. Nesse período, levamos grande parte deles para Sorocaba (SP) para treinamento, com o objetivo de que conhecessem o nosso perfil e entendessem como funciona a nossa operação.
No entanto, diante da falta de previsão para a emissão do alvará de uso do solo, fomos obrigados a dispensar esses profissionais cerca de seis meses depois. Quando colocamos na conta os investimentos realizados, os custos operacionais e os atrasos acumulados ao longo desse período, estamos falando de um prejuízo que se aproxima de R$ 500 milhões.

Ton Paulo – Qual é a expectativa de lucro e de movimentação durante o primeiro ano de operação?
Nós utilizamos como referência os dados das importações realizadas na região. Não consigo informar com precisão qual será o valor do faturamento ou do lucro, mas a expectativa é de uma movimentação muito semelhante à registrada atualmente pelo Porto Seco.
Nós elaboramos uma análise de faturamento ainda em 2019, quando a previsão era de que já estivéssemos em operação. No entanto, é importante destacar que aquele cenário é bastante diferente do atual, já que esperávamos iniciar as atividades há cerca de oito anos. Por isso, as projeções precisaram ser revistas ao longo desse período para refletir as condições de mercado e o momento econômico atual.
Ton Paulo – Houve uma mudança de gestão na cidade de Anápolis em 2024. Diante disso, como é o diálogo com a atual gestão de Márcio Corrêa? Com ela, foi possível destravar pontos burocráticos?
É uma relação respeitosa. A nossa percepção é a de uma gestão que, desde o início, sinalizou que os processos deveriam seguir aquilo que é correto e previsto legalmente. Não deve haver qualquer artificialidade para impedir o andamento de um processo administrativo.
Na gestão anterior, muitas situações aconteciam sem uma explicação clara e, ao nosso ver, sem uma base legal evidente para justificá-las, como foi o caso da revogação da certidão de uso do solo. Evidentemente, temos o cuidado de não fazer acusações a ninguém, mas havia decisões que, para nós, não apresentavam uma justificativa lógica ou jurídica plausível para a prática em questão.
João Paulo Alexandre – Diante de oito anos de atraso para o funcionamento, vocês acreditam que a Aurora EADI foi perseguida?
Eu não gosto de usar a palavra “perseguida”, mas foi a operação que tivemos mais dificuldade de implantar. A Aurora, assim como as outras empresas do grupo, é focada em qualidade, na redução de custos para o cliente e em oferecer uma operação eficiente.
Eu nunca tinha feito coletiva de imprensa ou dado entrevista para jornal. Comecei a fazer isso em Anápolis. Eu nunca tive esse tipo de relação com o Poder Público nem enfrentei tantas ações. Nossa empresa é focada em oferecer os nossos serviços e ajudar a região com as suas demandas.
Em alguns lugares, por exemplo, a empresa realiza ações filantrópicas em creches, orfanatos e lares de idosos. Fazemos campanhas do agasalho e outras iniciativas sociais. Nós gostamos de trabalhar em parceria. Essa resistência que senti aqui eu nunca tive em lugar nenhum.
E, realmente, eu acho que isso acaba até assustando outras indústrias ou multinacionais, até porque somos uma empresa brasileira, o que nos ajuda a entender um pouco melhor como as coisas funcionam. Entretanto, uma multinacional não vai entender um prazo de seis anos para conseguir iniciar uma operação ou deixar um investimento de R$ 150 milhões parado por dois anos sem qualquer retorno.
Então, reforço: não gosto de usar a palavra “perseguição”, mas vou dizer que foi um entrave muito grande, algo que eu nunca tinha enfrentado nem visto antes. Nós sempre estivemos muito abertos ao diálogo para tentar encontrar soluções.

João Paulo Alexandre – Resistência seria uma palavra mais adequada, então?
Acho que sim. E vou explicar o modus operandi. É normal que, no poder público, exista uma demanda, uma relação de documentos e, ao analisar essa documentação, sejam feitas exigências. Você atende às exigências, apresenta os documentos e o assunto é resolvido.
Conosco, a estratégia utilizada foi outra. Ao longo de todos esses anos, apresentávamos uma documentação, providenciávamos o que era solicitado e, em seguida, vinha uma nova análise com uma nova exigência. Você resolvia novamente e surgia outra análise e outra exigência. Ou seja, não se apresentava de uma só vez tudo o que era necessário. A todo instante aparecia um fato novo.
Uma coisa que eu preciso citar, porque está documentada, é que o concorrente apresentava demandas à Prefeitura, por meio de denúncias sobre determinadas situações, e a Prefeitura, literalmente, fazia um “copia e cola” dessas alegações e as transformava em exigências para a empresa. E nunca informava que aquilo tinha origem em uma denúncia, por exemplo. Então, nós nunca respondíamos diretamente a essas alegações; apenas recebíamos as notificações da Prefeitura.
Ao longo de toda a nossa trajetória foi assim. Surgia uma exigência, ela era resolvida, mas logo aparecia outra, e o processo nunca chegava ao fim. Por isso realizamos aquela coletiva de imprensa. Era um pedido de ajuda. Queríamos dizer: “digam, de uma vez por todas, o que é necessário”, porque estávamos dispostos a resolver todas as pendências que fossem apontadas. Mas a impressão que tínhamos era de que essa não era a intenção. Eles não queriam que isso acontecesse.
Ton Paulo – Você acredita que essas denúncias, que deram origem a essas demandas na Prefeitura, tinham um viés político, com o objetivo de impedir o início da atuação da Aurora EADI em Anápolis?
Acho que não. Eu acredito que eles estavam tentando defender a própria operação e a permanência deles no mercado. Só que, infelizmente, em uma licitação, quando um operador deixa de atuar, o outro assume a operação. Não existe a possibilidade de os dois operarem simultaneamente dentro desse modelo.
Eles estavam tentando, de forma legítima, manter a operação deles em funcionamento. No entanto, houve uma licitação, e a Aurora foi a vencedora ao apresentar uma proposta com preço inferior.
Cilas Gontijo – A mudança de operação no Porto Seco de Anápolis pode trazer insegurança para os usuários e para a cadeia logística? E como a Aurora EADI pretende garantir uma transição segura e conquistar a confiança do mercado?
Eu acho que, talvez, possa haver alguma insegurança inicial, porque as pessoas estão acostumadas com o mesmo tipo de operação há muitos anos. Mas a Aurora não é um player novo no mercado. Nós atuamos nesse segmento há 28 anos. Desde 1998, participamos e vencemos licitações, além de termos sido reconhecidos com diversos prêmios de qualidade.
A Aurora é uma empresa muito focada em qualidade, e eu, particularmente, mantenho uma relação muito aberta ao diálogo com os clientes. Tenho certeza de que será uma transição tranquila, sem grandes complexidades.
Alguns clientes já têm nos procurado, até porque trabalhamos com muitos deles em outras unidades do grupo. No entanto, nós ainda não estamos prospectando clientes ativamente, porque a operação ainda não foi iniciada. Como ainda não estamos operando, não temos contratos firmados nem apresentamos propostas comerciais. As únicas propostas existentes são aquelas que foram apresentadas durante o processo licitatório, que, inclusive, são públicas.
Ton Paulo – Tem uma previsão para realmente começar as operações?
Esperamos que seja o mais rápido possível. Já protocolamos o pedido de alfandegamento e, agora, o processo depende exclusivamente da Receita Federal.
Infelizmente, não temos um prazo de retorno. Mas já iniciamos o processo de seleção de currículos e estamos na fase final de análise para as contratações necessárias ao início das operações.
João Paulo Alexandre – Quantos empregos serão gerados e por que Anápolis se tornou tão importante para a Aurora EADI?
Entre empregos diretos e indiretos, estimamos a geração de cerca de mil postos de trabalho.
A cidade se tornou importante para a empresa porque é um polo farmacêutico, automotivo e agroindustrial muito relevante, reconhecido nacionalmente pelo seu desenvolvimento. Além disso, está localizada em uma posição estratégica dentro do Brasil.
Entendemos que temos muito a agregar às operações já presentes no município, porque conhecemos esse mercado e temos experiência nesses segmentos. Acreditamos, inclusive, que podemos contribuir para atrair novas indústrias para a cidade.

Cilas Gontijo – Vocês foram autorizados a atuar de forma definitiva ou ainda há possibilidade de haver uma nova paralisação para impedir que assumam a gestão?
Essa é uma resposta que deve ser analisada sob o ponto de vista jurídico. Todo mundo tem o direito de recorrer, mas acreditamos que agora, no âmbito federal, eles não têm a mesma capilaridade que tinham anteriormente nos âmbitos municipal e estadual para obter determinadas decisões que, na nossa avaliação, não eram as mais adequadas do ponto de vista jurídico. Por isso, acreditamos que o processo de alfandegamento vai tramitar de forma segura.
Respondendo especificamente à pergunta, entendemos que, a partir do momento em que a Receita Federal concluir o alfandegamento da Aurora EADI, não haverá retorno. Isso porque o entendimento da Justiça é de que, uma vez alfandegado o recinto, deve-se preservar a segurança jurídica e os interesses dos usuários. Assim, qualquer eventual mudança somente ocorreria em uma decisão definitiva, já que alterações no meio do processo poderiam causar prejuízos aos usuários.
Além disso, vale lembrar que o Porto Seco Centro-Oeste opera atualmente por meio de uma autorização precária. Não há um contrato decorrente de licitação vigente. Desde que vencemos a licitação, a Receita Federal vem renovando anualmente essa autorização para que a região não fique desabastecida desse serviço até que a Aurora EADI esteja apta a operar.
Portanto, o que existe hoje não é um contrato definitivo, mas uma autorização precária concedida para garantir a continuidade das operações do Porto Seco na região.
Ton Paulo – E quais são os investimentos previstos a médio e longo prazo?
Nós já investimos R$ 150 milhões e a nossa perspectiva é investir mais R$ 150 milhões nos próximos cinco anos. Existe uma área adicional que já deixamos preparada para a expansão dos galpões, das câmaras frias e da área operacional. Esse terreno tem o dobro da metragem da área atualmente utilizada.
No entanto, essa expansão dependerá do comportamento do mercado. O que deixamos claro é que não pensamos em recuar, mas sim em continuar crescendo. Essa estimativa de investimento acompanha o projeto desde o momento em que começamos a participar da licitação.
Também é importante destacar que existem muitas variáveis em análise por conta da Reforma Tributária, que trouxe mudanças significativas para o mercado. Dessa forma, alguns planos podem sofrer ajustes ao longo do tempo. Ou seja, não se trata de uma questão relacionada à empresa em si, mas às transformações que estão ocorrendo no ambiente econômico e tributário.
Cilas Gontijo – Diante da repercussão que esse caso teve, inclusive em nível nacional, qual é a mensagem que a Aurora EADI pretende transmitir aos importadores que dependem dos serviços aduaneiros em Goiás?
Que a Aurora tem grande interesse em ser parceira das indústrias, do Estado e do município. Nós queremos trazer avanços para a região na área de logística, setor em que atuamos há mais de 50 anos. Na área aduaneira, acumulamos uma expertise de quase 30 anos e somos uma empresa aberta ao diálogo.
Eu gosto muito de feedbacks positivos, mas gosto ainda mais dos negativos, porque acredito que crescemos quando recebemos críticas, sugestões e elogios. A nossa empresa preza pela qualidade dos serviços e pela geração de economia para o cliente. Esse é o nosso principal objetivo.
Ton Paulo – Você adiantou que está presente em Sorocaba e Manaus. A unidade de Anápolis vai funcionar nos mesmos moldes ou terá alguma inovação?
Estamos inovando e padronizando as três operações, porque entendemos que, quando se inova em uma unidade, é possível levar essas melhorias para as demais. Estamos criando uma sinergia entre as empresas do grupo.
Para Anápolis, estamos trazendo o que temos de melhor, desde a estrutura física até os sistemas utilizados na operação. Estamos implantando equipamentos 100% novos e uma estrutura totalmente inédita.
Assim, toda inovação que surgir futuramente também poderá ser implementada em Anápolis. Mas a unidade já inicia suas atividades com o que há de mais moderno e avançado atualmente em nossas outras operações.
Ton Paulo – Existe uma estimativa de qual será o impacto para a economia anapolina com o início das operações no município?
Falar em números é algo complexo porque, neste primeiro momento, qualquer estimativa seria muito baseada em projeções. O que acho importante deixar claro é que o perfil da Aurora agrega muito valor e tem potencial para gerar impactos positivos para Anápolis. Isso porque a empresa chega à cidade com uma visão voltada também para a atração de novos negócios.
Para se ter uma ideia, em Sorocaba várias empresas se instalaram próximas às operações da Aurora. Muitas vezes, uma empresa de outra região do país deseja atuar em determinado mercado, mas não quer arcar com os custos de construção e manutenção de um armazém próprio.
Nesses casos, a Aurora oferece uma solução completa. A empresa adquire a mercadoria, envia os produtos para a nossa estrutura, e nós realizamos toda a operação logística, incluindo armazenamento, separação dos pedidos e distribuição para clientes e distribuidores finais. Esse modelo pode contribuir para atrair novos investimentos e ampliar a atividade econômica da região.
João Paulo Alexandre – E já existem conversas com empresas que visam se instalar próximas à Aurora em Anápolis, diante desse case de sucesso nas outras regiões onde vocês atuam?
Sim, existem conversas, mas, por questões de confidencialidade, não podemos divulgar os nomes das empresas. Algumas delas já nos procuraram porque a Aurora também atua no desenvolvimento de soluções imobiliárias voltadas à logística.
Um exemplo é que podemos construir um galpão sob medida para um cliente que necessite de uma estrutura específica e, posteriormente, realizar a locação desse espaço. Por conta dessa característica, algumas empresas já demonstraram interesse, inclusive do segmento farmacêutico.
Em Sorocaba, por exemplo, a Aurora possui condomínios logísticos que somam cerca de 52 mil metros quadrados de área construída, todos ocupados por clientes que utilizam nossas estruturas para suas operações.
Cilas Gontijo – Em Anápolis, está em andamento a construção do aeroporto de cargas. Diante disso, qual é a importância desse empreendimento para vocês em termos de logística?
Eu acho que é muito importante. A região merece ter um aeroporto de cargas próximo e acredito que isso ajudará a reduzir os custos logísticos dos clientes. Mas vale destacar que a atividade de um aeroporto é diferente da de um Porto Seco.
O aeroporto e o porto são locais de passagem de mercadorias. Já a vantagem do Porto Seco está na possibilidade de utilização de regimes aduaneiros específicos. Um deles é o entreposto aduaneiro, que permite que a mercadoria permaneça armazenada por até três anos.
Isso significa que o cliente pode retirar os produtos de forma parcial, conforme a necessidade, sem precisar recolher todos os tributos de uma só vez. Os impostos são pagos apenas sobre a parcela da mercadoria que está sendo retirada naquele momento.
Esse tipo de operação não é permitido nem no porto nem no aeroporto. Além disso, as tarifas praticadas em um Porto Seco costumam ser menores. Por isso, entendo que o aeroporto de cargas e o Porto Seco são estruturas complementares, e não concorrentes.




