O ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), Paulo Pereira, defendeu que os ganhos sociais provocados pelo possível fim da escala 6×1 compensam os impactos econômicos projetados por setores empresariais. Em entrevista ao Jornal Opção, durante participação no programa Bom Dia Ministro, do Canal Gov, nesta quinta-feira, 28, o dirigente classificou a proposta como uma “mudança revolucionária” nas relações de trabalho brasileiras.

Segundo o ministro, o governo federal vem ampliando o diálogo com empresários, entidades e trabalhadores para discutir a viabilidade da medida e construir alternativas de transição. Para Pereira, apesar da resistência de setores produtivos, a economia brasileira possui capacidade para absorver os efeitos da redução da jornada sem provocar desorganização do mercado. “O Brasil já passou por mudanças importantes em favor dos trabalhadores. Quando o presidente Lula aumentou o salário mínimo acima de 10%, a economia não quebrou nem o mercado entrou em desorganização. Pelo contrário: hoje temos alguns dos melhores indicadores econômicos da última década”, afirmou.

ChatGPT Image 28 de mai. de 2026, 10_50_38
Repórter do Jornal Opção, João Reynol entrevista o ministro Paulo Pereira, do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP) | Foto: Captura de tela

A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou força nacional nos últimos meses, especialmente após pressão de movimentos trabalhistas e debates sobre saúde mental, qualidade de vida e produtividade. Atualmente, o modelo permite seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso, prática comum principalmente nos setores de comércio e serviços.

Entidades empresariais, contudo, avaliam que a alteração pode gerar aumento expressivo nos custos operacionais. O impacto preocupa especialmente segmentos com grande dependência de mão de obra contínua, como supermercados, restaurantes, shoppings e redes varejistas.

Estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) aponta que o comércio brasileiro pode sofrer retração de até 12% diante da redução da jornada. Em Goiás, representantes do setor produtivo também demonstram preocupação com os reflexos financeiros da proposta.

O presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras em Goiás (OCB-GO), Luís Alberto Pereira, avalia que o aumento dos custos tende a ser repassado ao consumidor final, provocando elevação nos preços de produtos e serviços. Segundo ele, empresas poderão enfrentar dificuldades para manter escalas e contratar novos trabalhadores sem reajustar valores.

Apesar das críticas, Paulo Pereira sustenta que os efeitos positivos da medida ultrapassam a dimensão econômica. O ministro afirma que a redução da carga semanal poderá abrir espaço para qualificação profissional, fortalecimento do empreendedorismo e ampliação do consumo em áreas ligadas ao lazer e à alimentação. “O trabalhador terá mais tempo para estudar, consumir, empreender e conviver com a família. Isso também movimenta a economia”, argumentou.

O ministro também destacou os possíveis impactos da proposta sobre grupos historicamente vulneráveis no mercado de trabalho, especialmente mulheres e mães solo. Segundo Pereira, a flexibilização da rotina pode contribuir para reduzir desigualdades e facilitar a conciliação entre trabalho, estudo e cuidados familiares. “As mães de família poderão ter mais tempo para cuidar dos filhos e estudar dentro de casa. O impacto dessa proposta para as mulheres é gigantesco, porque aproximadamente 75% dos trabalhadores formais estão no regime 6×1”, afirmou.

O debate sobre o modelo ainda não possui definição legislativa no Congresso Nacional, mas já mobiliza sindicatos, empresários e integrantes do governo federal em torno de uma das discussões trabalhistas mais sensíveis dos últimos anos. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) foi aprovada na Cãmara dos Deputados e agora será analisada pelo Senado Federal.

Leia também: Fim da jornada 6×1: veja o que representantes das entidades do comércio e da indústria goiana dizem sobre os impactos