A diretora e roteirista, Isabela Eva, lança, nesta segunda-feira, 20, em Goiânia, o curta-metragem O Preço de uma Filha. Segundo ela, a obra mergulha em um dos temas mais sensíveis e urgentes da atualidade: o tráfico humano e a violência contra as mulheres. A estreia acontece dentro da mostra de curtas goianos do festival O Amor, a Morte e as Paixões, com o início previsto às 16h15, no Cinex. 

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, a diretora conta que a produção, realizada de forma independente, nasceu de um workshop e já chega acompanhada de uma campanha de conscientização contra a violência doméstica intitulada “Não é amor, é crime”, que será veiculada em mais de 800 pontos da cidade. 

Equipe envolvida na produção do filme | Foto: Acervo pessoal

Isabela explica que sua motivação para abordar o tema veio de uma reportagem que apontava Goiás como um dos estados que mais envia jovens para fora do país em situações de tráfico. “Achei uma coisa muito chocante. A gente quase não fala sobre isso, parece que é só coisa de filme”, relata.  

A diretora já havia trabalhado o assunto em outro projeto, Tráfico de Ilusões, que ganhou versão curta e está em processo de se tornar longa-metragem. 

A inspiração para O Preço de uma Filha também veio do contato com a ONG Projeto Resgate, sediada em Goiânia e atuante em 35 países. A organização forneceu depoimentos e materiais que ajudaram a compor a narrativa.  

Foto: Acervo pessoal

No curta, Isabela aborda não apenas o tráfico, mas também a violência doméstica, retratando um pai machista e agressivo que, ao faltar uma jovem em sua agência de exploração, decide vender a própria filha adolescente. 

Segundo a diretora, muitas mulheres traficadas não sabem que serão escravizadas. “A maioria vai achando que vai ser babá, recepcionista, que vai ganhar em dólares e ajudar a família. Mesmo as que já são prostitutas aqui não sabem que vão ser escravas. Elas chegam lá já com uma dívida que nunca acaba”, explica.  

Esse mecanismo de ilusão, que dá nome ao seu outro projeto, é uma das engrenagens mais cruéis do tráfico internacional. 

Foto: Acervo pessoal

Ela conta que produzir o curta sem recursos financeiros foi um desafio, mas também uma experiência de união. “Cinema com dinheiro já é difícil, sem dinheiro mais ainda. Mas tivemos uma harmonia incrível na equipe, os atores estavam preparados, todos vieram do workshop. Isso facilitou muito”, afirma.  

A parceria com a produtora Sete e o apoio de empresas como Sicoob e Fecomércio reforçaram a força coletiva do projeto. 

Isabela também compartilhou histórias reais que inspiraram seus roteiros, como a de uma jovem goiana traficada para a Espanha que conseguiu escapar ao se jogar no mar durante um passeio de barco com um empresário. “Quando ouvi isso, pensei: essa vai ser a personagem do meu filme”, conta.  

Casos como esse reforçam a necessidade de ampliar o debate e dar visibilidade ao trabalho de ONGs e da polícia no combate ao tráfico. 

Ela aponta que o curta O Preço de uma Filha”não se limita à ficção, é um chamado à reflexão sobre a violência que atravessa todas as classes sociais e se esconde atrás das portas fechadas de casas e apartamentos.  

A diretora explica que, ao lado da campanha Não é amor, é crime, a obra busca sensibilizar o público e provocar discussões sobre feminicídio, violência psicológica e física, e a exploração de mulheres em redes criminosas internacionais. 

A trajetória de Isabela 

A diretora revela que sua história pessoal também influenciou diretamente sua escolha por temas sociais e delicados. “Eu comecei como atriz e, quando li no jornal que Goiás é o estado número um, eu quis fazer esse tema. Porque é preciso falar sobre isso, é muito sério. Existe esse pano de fundo de que Goiás é ‘o Estado das meninas bonitas’, mas também é um Estado de muito machismo velado”, afirma.  

Para ela, o cinema é uma forma de colocar essas questões “na mesa” e provocar debates. 

Isabela lembra que já atua há mais de 20 anos na dramaturgia. Começou em Brasília, em uma companhia de teatro, e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde estudou cinema na Centro de Artes Laranjeiras (CAL) e fez diversos cursos de roteiro.  

A paixão pelo audiovisual, no entanto, surgiu ainda na infância, quando acompanhava os trabalhos de seus primos Bruno e Fábio Barreto, cineastas renomados que chegaram ao Oscar com produções como O Quatrilho e O Que é Isso, Companheiro?.  

“Eu me apaixonei pelo universo do cinema quando vi uma edição deles com a Cláudia Ohana. Depois fui para o teatro e, do teatro, parti para o cinema”, relembra. 

O retorno a Goiânia aconteceu por motivos familiares, mas foi ali que Isabela consolidou sua carreira como diretora e roteirista. “Foi tipo aquela história do Alquimista: você volta e acaba que é na tua própria cidade que você começa a fazer a tua história no cinema”, diz.  

Desde então, atuou em diversos curtas premiados e passou a produzir suas próprias obras, descobrindo talentos locais e fortalecendo o cinema goiano. “Às vezes, a gente acha que só o circuito Rio-São Paulo acontece, mas não é. Goiânia tem muitos talentos e o cinema goiano está crescendo bastante”, afirma. 

Para Isabela, a qualidade deve estar acima da busca por fama. “Eu sempre digo para os atores: se preocupem em ser bons. Quando a gente é bom no que faz, qualquer lugar que a gente for vai chamar atenção. A preocupação tem que ser com a qualidade”, defende. 

O lançamento de O Preço de uma Filha acontece dentro da mostra de curtas goianos, nesta segunda-feira, 20, a partir das 16h15. “Nosso filme deve ser o quinto da programação, mas pedem para chegar mais cedo para pegar ingresso. Vai ser muito bacana o pessoal prestigiar os produtores e diretores daqui. O elenco vai estar lá também, e quem quiser bater um papo com a gente está convidado”, diz. 

O Preço de uma Filha  

O curta foi filmado integralmente em Goiânia e traz à tona um dos temas mais urgentes da atualidade: a violência contra a mulher em suas múltiplas formas, desde a doméstica ao tráfico para exploração sexual. 

O elenco do filme é formado por atores revelados no Workshop Cinema E.V.A (Estímulo, Verdade e Ação!), método desenvolvido pela própria diretora. A técnica propõe uma abordagem tridimensional da atuação, em que o ator mergulha profundamente na construção emocional e psicológica do personagem, indo além da memorização de texto e priorizando a verdade cênica.  

A partir de um grupo artístico altamente comprometido, surgiu o desenvolvimento do roteiro, que se constrói a partir de vivências, pesquisa e imersão no tema. 

Além de seu impacto artístico, o projeto também se destaca pelo engajamento social. O filme foi realizado de forma independente, com apoio da ONG Projeto Resgate, organização presente em mais de 35 países e referência no acolhimento e resgate de vítimas de tráfico humano. No Brasil, a instituição possui sede em Goiânia. 

A diretora já desenvolve a versão em longa-metragem de um projeto com esse tema, e o curta surge como uma obra de impacto inicial, com potencial para ampliar o debate e dar visibilidade a uma realidade que ainda atinge milhares de mulheres, especialmente em regiões que integram rotas do tráfico internacional. 

Sinopse 

Um homem moldado pelo machismo transforma o amor em domínio e a casa em território de violência. Entre silêncios e feridas invisíveis, sua brutalidade ultrapassa limites e rompe os laços mais sagrados. 

Ao vender a própria filha ao tráfico, consuma o ápice de sua desumanização. Mas é na dor que ecoa a possibilidade de ruptura, e o grito que insiste em sobreviver. 

Em paralelo ao lançamento, o projeto inicia a campanha “Não é amor, é crime!”, em parceria com o CEVAM, o Projeto Resgate e a Fecomércio, ampliando o alcance da obra para ações de conscientização e mobilização social. 

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