“Em cenários mais extremos, pode haver intervenção militar”, alerta especialista após EUA classificarem PCC e CV como terroristas
05 junho 2026 às 11h35

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Nesta sexta-feira, 5, entrou em vigor o cadastro das organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista de grupos terroristas dos Estados Unidos. A medida foi anunciada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, no último dia 28 de maio, e decorre de uma estratégia do governo dos EUA para ampliar sua influência além das próprias fronteiras.
Com a nova classificação, abre-se um leque de medidas administrativas e jurídicas à disposição dos norte-americanos — desde sanções econômicas contra indivíduos e empresas acusados de colaborar com os grupos até, em cenários mais extremos, a possibilidade de intervenção militar em território brasileiro. Para o ex-diretor-geral da Polícia Civil de Goiás (PCGO) e autor de livros sobre o tema, Edemundo Dias, os desdobramentos dependerão, sobretudo, das ações que o próprio governo brasileiro adotará diante da nova classificação.
Segundo Dias informou em entrevista ao Jornal Opção, o Brasil vem sendo excluído, há anos, de reuniões promovidas pelos Estados Unidos com países da América do Sul sobre segurança regional — um indicativo de que o país não é visto como um aliado plenamente confiável. “O Brasil deveria aproveitar essa oportunidade e tomar algumas medidas para se inserir nesse bloco de nações americanas que combatem o crime organizado. Ele deve fazer isso buscando ações interligadas para poder evitar medidas isoladas que podem vir dos Estados Unidos.”
Um dos principais fatores para isso, de acordo com o especialista, é a inércia do poder público no enfrentamento ao crime organizado. “O vácuo de poder, ao permitir que facções exerçam autoridade paralela, cria cidadãos de segunda classe em territórios dominados, justificando potencialmente medidas penais mais rigorosas, mas com o risco de erosão das garantias fundamentais”, afirma.
Esse cenário, segundo ele, favorece a consolidação de uma “governança paralela” em áreas periféricas e no sistema prisional, impulsionando a transformação dessas organizações em verdadeiras “multinacionais do crime”, com atuação global. Como exemplo, afirma que o PCC lucra bilhões com a adulteração e sonegação de combustíveis. “O PCC já está presente em 29 países. Só nos Estados Unidos, foram identificadas células em 12 estados. De fato, trata-se de uma potência criminal global”, destaca.
Além da expansão territorial, Dias aponta que PCC e CV mantêm relações comerciais com grupos sul-americanos classificados como organizações terroristas pelos EUA, inclusive com atuação indireta em território norte-americano.
Esse fluxo contínuo de armas e drogas para mercados internacionais configuraria o que o especialista define como uma “ameaça híbrida”, capaz de desafiar a ordem pública com características quase estatais. O modelo operaria por meio de um “topo invisível”, envolvendo estruturas sofisticadas de apoio, como escritórios de advocacia e profissionais de contabilidade, responsáveis pela gestão financeira e pela lavagem de dinheiro.
Ainda assim, ele pondera que, diferentemente de organizações terroristas tradicionais, essas facções não possuem motivações ideológicas ou religiosas. “Embora produzam terror instrumentalmente, operam por lógica econômica. A violência serve à acumulação de capital e à manutenção de monopólios, não à subversão da ordem constitucional”, conclui.
PCC amplia presença dentro e fora do Brasil
Levantamentos recentes sobre o crime organizado mostram a dimensão alcançada pelo PCC nas últimas décadas. Dados do Ministério da Justiça indicam que a facção já possui atuação em 24 estados brasileiros e no Distrito Federal, ficando ausente apenas em poucos territórios do país. Além disso, estimativas apontam que a organização conta com cerca de 40 mil integrantes e exerce influência em presídios de praticamente todo o território nacional, consolidando uma estrutura de comando capaz de operar simultaneamente dentro e fora do sistema prisisional.
A expansão também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Investigações de autoridades e estudos sobre segurança pública apontam que o PCC mantém presença em cerca de 28 países, com atuação em rotas internacionais de tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Essa capilaridade internacional é um dos fatores que levaram especialistas a classificar a facção como uma das maiores organizações criminosas transnacionais da América Latina, com capacidade de movimentar bilhões de reais por ano e estabelecer conexões com grupos criminosos em diversos continentes.

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