Bactéria considerada ameaça global é encontrada pela primeira vez em alimentos no Brasil
05 junho 2026 às 11h02

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Uma descoberta feita por pesquisadores brasileiros acendeu um alerta sobre um problema que vai muito além dos hospitais. Um estudo conduzido por cientistas da USP e do Instituto de Pesca de São Paulo identificou pela primeira vez no Brasil a bactéria Citrobacter telavivensis em alimentos destinados ao consumo humano. O microrganismo foi encontrado em ostras comercializadas nos estados de São Paulo e Santa Catarina.
A preocupação dos especialistas não está apenas na presença da bactéria, mas em sua capacidade de resistir a diversos antibióticos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica microrganismos desse grupo entre as ameaças mais críticas para a saúde global devido à crescente dificuldade de tratamento das infecções que provocam.
O estudo revelou que as ostras analisadas passaram pelos critérios sanitários atualmente exigidos no país e, ainda assim, carregavam bactérias resistentes. Isso levanta questionamentos sobre a capacidade dos sistemas de inspeção de identificar novos riscos associados à resistência antimicrobiana.
A resistência a antibióticos é considerada uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI. Dados divulgados pela OMS mostram que o número de infecções causadas por bactérias resistentes tem aumentado de forma constante em todo o mundo. Especialistas alertam que, sem medidas eficazes de controle, milhões de pessoas poderão morrer anualmente nas próximas décadas em consequência de infecções que deixam de responder aos tratamentos disponíveis.
Embora o problema seja frequentemente associado ao ambiente hospitalar, pesquisadores afirmam que a disseminação dessas bactérias já alcançou o meio ambiente e a cadeia alimentar.
Por que as ostras preocupam?
As ostras são consideradas importantes indicadores da qualidade ambiental. Como se alimentam filtrando grandes volumes de água, acumulam em seus organismos substâncias presentes no ambiente, incluindo microrganismos, resíduos químicos, metais pesados e contaminantes diversos.
Por isso, quando bactérias resistentes são encontradas nesses animais, os cientistas entendem que o problema pode estar presente em todo o ecossistema aquático onde eles vivem.
Além da Citrobacter telavivensis, os pesquisadores identificaram cepas resistentes de outras bactérias conhecidas por causar infecções em humanos, como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae. Parte das amostras também apresentou níveis elevados de arsênio, metal tóxico que pode contribuir para a seleção de microrganismos mais resistentes no ambiente.
Segundo os autores do estudo, a combinação entre poluição química e presença de resíduos de antibióticos cria condições favoráveis para a evolução das chamadas superbactérias.
Fiscalização pode estar defasada
Os sistemas de controle sanitário utilizados na indústria de alimentos monitoram aspectos como higiene, temperatura e presença de determinados patógenos. No entanto, especialistas apontam que a maioria dos protocolos ainda não avalia o perfil de resistência antimicrobiana das bactérias encontradas nos produtos.
Na prática, um alimento pode atender aos padrões atuais de qualidade e, mesmo assim, transportar bactérias resistentes a medicamentos.
Esse cenário preocupa pesquisadores porque os protocolos sanitários foram desenvolvidos em uma época em que a resistência antimicrobiana ainda não era vista como uma ameaça global de grandes proporções.
O desafio dos biofilmes
Outro obstáculo no combate às superbactérias é a capacidade que algumas delas possuem de formar biofilmes. Essas estruturas funcionam como uma espécie de escudo protetor, permitindo que comunidades inteiras de bactérias sobrevivam mesmo após processos de limpeza e desinfecção.
Dentro desses biofilmes, os microrganismos podem se tornar centenas de vezes mais resistentes do que quando estão isolados.
Pesquisadores brasileiros investigam alternativas biotecnológicas para combater esse problema. Um dos caminhos estudados envolve enzimas capazes de destruir a estrutura dos biofilmes, tornando as bactérias novamente vulneráveis aos métodos convencionais de controle.
O que precisa mudar
Especialistas defendem a ampliação do monitoramento da resistência antimicrobiana para produtos da pesca e da aquicultura, setor que ainda não é plenamente contemplado pelos programas nacionais de vigilância.
Também apontam a necessidade de atualizar os protocolos de inspeção sanitária, fortalecer a fiscalização ambiental, ampliar o controle sobre o uso de antibióticos na produção animal e investir em novas tecnologias para conter o avanço das superbactérias.
Além dos impactos para a saúde da população, a presença desses microrganismos em alimentos pode trazer consequências econômicas. Países importadores exigem padrões cada vez mais rigorosos de controle sanitário, o que pode afetar a competitividade do pescado brasileiro no mercado internacional.
Para os pesquisadores, o avanço das superbactérias deixou de ser apenas um problema hospitalar. Hoje, ele também está ligado à qualidade da água, à produção de alimentos e às condições ambientais que favorecem a disseminação de microrganismos resistentes.



