Visita de Flávio Bolsonaro a Trump “encobre” o escândalo com Daniel Vorcaro e o retira da defensiva?
30 maio 2026 às 21h00

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Uma imagem vale mais do que mil palavras? Às vezes, sim. A foto de Kim Phuc, a menina bombardeada com napalm no Vietnã, no início da década de 1970, deu uma ideia da barbárie que os Estados Unidos de Richard Nixon promoviam na Ásia.
Autor de “O Coração das Trevas”, o anglo-polonês Joseph Conrad sabia que, quando a dita civilização produz barbárie, o horror é ampliado. A retórica que tenta justificar o absurdo é inominável.
A batalha contra o comunismo “exigia” o massacre de crianças? O mundo avaliou que não. Por isso, ante o desconforto global, os Estados Unidos tiveram de se retirar do Vietnã com o rabinho entre as pernas. Derrotado.
O filósofo do humor Millôr Fernandes, quase um Henry Louis Mencken dos trópicos, contrapôs: aceitemos que uma foto vale mais do que mil palavras, agora diga isto sem palavras.
Mas há mesmo fotografias que dizem muito e, quando seguidas de palavras, podem dizer muito mais.
Na semana passada, depois de quase ter naufragado no Titanic de Daniel Vorcaro, do Banco Master — que financiou o filme “Dark Horse” sobre Jair Bolsonaro —, Flávio Bolsonaro emergiu, não em Copacabana, e sim na Casa Branca, em Washington, ao lado do presidente Donald Trump, do partido Republicanos.

Vista de maneira displicente, a fotografia mostra apenas um jovem composto, circunspecto e contente — ao lado de uma autoridade republicana mas quase monárquica.
Os sites de esquerda e militantes reds nas redes sociais procuraram apresentar Flávio Bolsonaro como “subserviente” a Trump. O senador seria “contra a soberania do Brasil”. Este é o eixo da crítica do PT.
Flávio Bolsonaro seria um “entreguista”. Como se sabe, a história não perdoa os entreguistas. Eles se tornam os demônios na história.
O que Flávio Bolsonaro quer “entregar”, exatamente, aos Estados Unidos de Trump? A soberania do Brasil. Por consequência, as terras raras (já exploradas por estrangeiros, como americanos).
O governo de Trump qualificou, como política de Estado, o PCC e o CV como organizações terroristas. De acordo com seus críticos, isto pode levar a uma interferência no Brasil. Mas pode, na prática, ser uma política mais voltada para os Estados Unidos e, sobretudo, para controlar as finanças de tais máfias tropicais.

As guerras das narrativas
Aliados de Flávio Bolsonaro o defenderam. Com alguma razão. Afinal, qual político brasileiro, ou de outro país, consegue posar ao lado do presidente americano, na Casa Branca? Poucos. Pouquíssimos.
Então, concretamente, a visita de Flávio Bolsonaro a Donald Trump mostra força política e prestígio. Não há como contestar isto. O que vai resultar, de positivo ou negativo, ainda não se sabe. É preciso verificar, em seguida, qual narrativa irá prevalecer: a da direita ou a da esquerda.
É débil politicamente quem busca o apoio do presidente dos Estados Unidos e o recebe? Não é.
A visita a Donald Trump pode “encobrir” a relação entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro? Encobrir, a rigor, não. Mas sugere que o pré-candidato a presidente do PL não está jogado às traças. Afinal, o político mais poderoso do mundo o recebe e, sobretudo, o apoia.
Ter o apoio de Donald Trump é ruim? Para a esquerda é. Porém, como explicar o fato de que o presidente brasileiro opera para, de alguma maneira, “agradar” o líder americano do norte?

Lula da Silva, maior raposa política do país, sabe que, apesar do avanço da China, o único país incontornável são mesmo os Estados Unidos. Por mais que não seja o maior importador de produtos do Brasil, o país de Abraham Lincoln e Franklin D. Roosevelt ainda é o que mais conta globalmente.
O Brasil precisa dos Estados Unidos, e muito. O país de Emily Dickinson e Marianne Moore é um comprador daquilo que o país latino-americano produz de melhor, sobretudo na área do Agro, e também é um grande exportador de “tecnologia” de alta qualidade (o iPhone do brasileiro não é diferente do iPhone do americano).
Por isso, tanto Flávio Bolsonaro quanto Lula da Silva precisam cultivar Donald Trump — como, no passado recente, o petista-chefe lidou muito bem com o conservador George W. Bush (que preferia o político red a Fernando Henrique Cardoso). Não dá, insista-se, para contorná-lo.
Uma pessoa de esquerda, como os instalados nos sites e portais pró-governo do PT, pode escrever o que quiser sobre Donald Trump. Até as maiores barbaridades, exagerando o que, de fato, já é ruim.

Mas Lula da Silva não pode fazer o mesmo. Porque, como presidente da República, representa os brasileiros, todos eles, e não apenas aqueles que são de esquerda. Não pode e não deve, em nome de uma ideologia, prejudicar a economia do país; portanto, o povo.
Ao ver Flávio Bolsonaro ao lado de Donald Trump, todo serelepe — “estou ao lado meu paizão político” —, Lula da Silva sentiu uma invejinha verde? Talvez. Porque a jogada do pré-candidato do PL a presidente o colocou no ataque, por assim dizer, e não na defensiva.
Nas redes sociais e nos sites pró-Lula da Silva, a esquerda postula que, ao buscar o amparo de Donald Trump, Flávio Bolsonaro “atenta” contra a soberania brasileira. Em troca de proteção estaria “oferecendo” o Brasil.
Mas e se os brasileiros, a maioria deles, não entenderem assim?
Qualificar o PCC e o CV como organizações terroristas, decisão de Donald Trump apoiada por Flávio Bolsonaro, vai desagradar os filhos do país de Guimarães Rosa e Clarice Lispector? Mais provável que não. Agora, é hora de esperar qual narrativa vencerá.
Mas se Donald Trump persistir contra o PIX, e se Flávio Bolsonaro não fizer a defesa da criatividade do Banco Central, aí as coisas podem piorar para o postulante do PL. Os brasileiros se tornaram, quase todos, talvez todos, “pixmaníacos”.



