Que humanismo é este que, em nome da defesa intransigente dos seres humanos — que têm espaço demasiado na Terra —, justifica a destruição dos ditos “animais irracionais” e árvores? Em nome do “progréssio”, vale tudo? O que diriam o compositor e cantor Adoniram Barbosa e o filósofo John Gray? Dariam um tiro no “álvaro”? Não. Claro que não. Talvez pegassem o trem das 11h direto para Marte.

O “progréssio” significa destruição — “criativa”, dirão — para todos, exceto para os humanos. Então, em nome das vidas humanas — as únicas que importam —, matemos quase tudo. O fim dos seres humanos talvez resulte de sua ocupação abusiva de todos os espaços na Terra.

Um parêntese para um caso particular. Nasci para plantar e admirar a natureza, com seus pássaros e outros bichos e árvores (há algo mais bendito do que pés de escorrega macaco e jacarandá em flor?). O “progréssio” não me assusta, mas não me oferece prazeres. Não há uma palavra minha, em quase 40 anos de jornalismo, a respeito de que, em nome das vidas humanas, deve-se arrancar árvores e matar bichos.

O “progréssio” é, a rigor, um “retárdio”. Talvez a motosserra simbolize mais o homem do que a razão. Uma razão irracional. O iluminismo, potencializado pelo marxismo, matou Deus e criou outro deus — o ser humano. Laico ou não, sempre destruidor.

Romã, jabuticaba, manacá e dama da noite

Na porta de nossa casa, há um espaço exíguo. Assim como nas demais casas, que são quase idênticas. No pedaço de terra, alguns vizinhos plantaram cimento, aumentando o estacionamento da garagem. Pragmáticos. Realistas. Antenados. “Mudernos”.

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Minha pequena mas consistente floresta particular | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção/2026

Ao contrário, optei por plantar romã, uvaia, jabuticaba, pitanga, dama da noite (uma com flores pequenas e outra com flores grandes), cereja, murta (falam mal de murta, mas aprecio o cheiro de suas flores brancas), manacá.

À noite, quando chego em casa, sinto o cheiro do manacá e da dama da noite. É um festival de odores. A natureza parece em festa. Sinto uma frescura no lugar. Da janela do quarto no qual escrevo este texto, sinto as “cores” da noite espraiadas pelo olor das plantas.

As jabuticabas são comidas pelas pequenas cambacicas, com aquelas listas simpáticas na cabeça, como se fossem pinturas. Fico com a impressão de que, bicando, “vão” bebendo a fruta.

Aqui e acolá, quando falta fruta no quintal, periquitos — verdadeira infantaria verde —, deliciam-se com romãs. Eu nem sabia que tais pássaros — que se deleitam com manga, goiaba, banana e mamão — comiam romã.

Cultivei mamão só para a festança dos pássaros, como sanhaços (que, quando morava no interior, chamava de pipira; penitencio-me por ter sido, menino, um atleta do estilingue).

Um pé de insulina, que havia plantado num vaso, espalhou-se pela micro floresta. Encanta-me olhar sua energia. Parece ter cavado um buraco no chão e se espalhou por cima das árvores. É uma poderosa chefinha.

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Floresta que plantei com as próprias mãos | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção/2026

Havia um pé de manacá, mas agora há vários. O desenvolvimento parece que ocorre pela raiz. Quando as lagartas aparecem, hesito: retiro-as ou não? Acabo por afastá-las da árvore para evitar que devorem todas as folhas. Mas, antes, fico a olhá-las. São magníficas em sua variedade de cores — de tons azulados, esverdeados e laranjas. Nunca bato veneno. Mas ninguém é perfeito: tenho uma implicância especial com caramujos.

Ao lado da florestinha, eu e Candice, minha companhara de tantas décadas, cultivamos rosas, íris (uma flor delicada e bela, que dura pouco), comigo-ninguém-pode, avenca, espada de São Jorge.

Dei o pé de uvaia de presente para uma vizinha, Isis, de 7 anos. Alguém já deu uma árvore de presente? É provável que vários. Isis adora uvaia. Curiosamente, talvez por não ser regional, os pássaros não se interessam pela fruta. Tampouco vejo abelhas em suas flores. As formigas cortadeiras, assim como as lagartas, passam ao largo.

No quintal, já tivemos árvores encantadoras. O pé de lima da pérsia nos deu frutas ao longo de vários anos. Até secar, possivelmente por causa de uma “mosca”.

Há uma curiosidade sobre o pé de lima. Um dia, faz tempo, eu disse ao então deputado Roberto Balestra, produtor de laranja na região de Inhumas, que o pé, plantado havia anos, não dava frutos. Ele sugeriu um enxerto.

Porém, certo dia, um jardineiro sugeriu cortá-lo. Então, dias depois, as flores apareceram, cheirosas, e logo tínhamos frutos — praticamente o ano inteiro. A árvore parece ter ouvido a ameaça do jovem “ceifador”.

De Porangatu, trouxe um pé de marmelo (presente de minha mãe, Zinha), que nunca deu frutos. Mas o mantive pela beleza da árvore e das folhas, sempre bem verdinhas, e pelo fato de que se tornou espaço para ninhos de rolinhas, pombas do bando, sabiás, cambacicas e fim-fim.

Porém, um dia, uma chuva forte rachou o pé de marmelo (cupins fizeram sua parte). Um jardineiro foi chamado para cortá-lo. Ao vê-lo amputado, meu cérebro chorou de vergonha por meus olhos não terem lacrimejado.

Nosso pé de caju durou cerca de 20 anos. Mas, envelhecido, com galhos caídos — “ameaçando” o muro do vizinho —, acabou tendo de ser cortado. Nunca me doeu tanto desprender-me deste cajueiro, que plantei com as próprias mãos. Pela vizinhança, há pelo dois ou três de seus “filhos”, felizmente.

Agora, no quintal, há um pé de uvaia — já espalhei mais três pelo condomínio — e um de pitanga.

Nós temos também sabugueiro, que nos dá um chá delicioso, dama da noite (aquela que dá uma flor grande e cheirosa), murta (que dizem prejudicar cítricos), boldo (onde encontro famílias de maria-fedida), hortelã gordo, anador, pimentas, rúcula, almeirão, manjericão, orquídea, eventualmente tomates, brinco de princesa, ora-pro-nóbis (plantei para Candice, que é, por uma questão ética, vegetariana), alecrim, erva cidreira (aprecio demais o seu cheiro, assim como do manjericão; ao cozinhar arroz, quanto está quase pronto, coloco folhas de manjericão por cima. O cheiro, ah, o cheiro…).

De manhã, a primeira coisa que faço é colocar frutas — mamão e banana — e água para os pássaros. Uma infinidade deles aparecem: sabiá laranjeira, sabiá do campo (o único que enfrenta o exército de periquitos, sempre desordeiros), cambacica, udu coroado (some e reaparece), pica-pau (de cabeça vermelha e penas de múltiplas cores), sanhaço azuis e sanhaços do coqueiro, fim-fim, saí azul, saíra amarela, choquinha barrada (a fêmea é marrom e o macho pedrês). Há outros, mas esqueci os nomes. Uma vez, no pé de mamão, flagrei um pica-pau branco. Dos grandes.

Sinto-me bem cuidando das plantas e dos pássaros. Porque sei, inconscientemente, que eles, à sua maneira, cuidam de mim. De minha saúde física e mental. Candice é minha parceira nos cuidados com os seres verdes e os voadores.

Gosto de aguar as plantas com um vasilhame relativamente pequeno. Para ter contato, por mais tempo, com elas. Para verificar se, ao colocar água, não estou destruindo uma pequena e sensível muda. E, claro, gosto de me movimentar um pouco, pois sou relativamente sedentário.

O neurobiólogo Stefano Mancuso

Ocorreu-me falar das árvores de nossa casa ao ler uma reportagem da “Folha de S. Paulo”, assinada por Mariana Grasso, a respeito do neurobiólogo italiano Stefano Mancuso, autor dos livros “Fitópolis”, “Revolução das Plantas”, “A Planta do Mundo”, “A Incrível Viagem das Plantas” e “A Nação das Plantas”.

Stefano Mancuso capa de Fitópolis

O pesquisador é apontado pela revista “New Yorker”, a mais sofisticada intelectualmente dos Estados Unidos — sua similar brasileira é a “Piauí” — “como um dos transformadores do mundo da década”.

Stefano Mancuso, cientista que admiro, sempre tem algo interessável a dizer sobre aquilo que precisamos saber, mas às vezes não queremos. Vivemos num mundo controlado pelo consumo e, por isso, pela destruição em massa de quase tudo o que parece não importar, como bichos — onças, cobras, antas, pacas, lobos, raposas, cutias, tatus — e árvores.

O cientista postula que “nossa biologia é a mesma há mais de 20 mil anos, quando éramos caçadores-coletores. Nosso corpo foi construído para viver nas árvores”.

O pesquisador da terra de Dante e Natalia Ginzburg assinala que o contato com o verde tem efeitos terapêuticos.

“Quando entramos em contato com as plantas, todos os nossos parâmetros de estresse diminuem em menos de 10 segundos. O batimento cardíaco, a pressão e o nível de cortisol despencam. Não há nenhuma razão lógica para isso, exceto que nosso corpo detecta que está voltando para casa”, sublinha Stefano Mancuso.

“Fitópolis”, registra a “Folha”, “discute como a organização do universal vegetal pode inspirar uma nova forma de conceber cidades”.

Stefano Mancuso capa de A Cidade Viva

Não se trata de uma questão romântica, ou de “malucos verdes”. Stefano Mancuso aponta que muitas pessoas estão morrendo na Europa por causa do calor. Milhares morreram “por calor na Europa durante o verão de 2023 e 2024”.

Remover asfalto e plantar árvores

É possível mudar uma cidade como Goiânia, Brasília e São Paulo, a capital do concreto — e da poesia concreta?

Stefano Mancuso sugere que sim: “Peguem o prefeito de São Paulo e digam a ele: nós precisamos fechar 20% das ruas da cidade. Precisamos apagar 20% das ruas, remover o asfalto e plantar árvores no lugar. O resultado seria incrível: transformar essas vias no que eu chamo de rios de árvores”.

Mostrando-se atento às cousas do Brasil, Stefano Mancuso citou o arquiteto Jaime Lerner que, quando prefeito de Curitiba, “fechou o tráfego de automóveis na Rua XV de Novembro e a transformou em um calçadão exclusivo para pedestres, chamado Rua das Flores”.

Em Barcelona, quando prefeita, Ada Colay fechou “uma das avenidas mais importantes, com cerca de 15 quilômetros de extensão. Substituiu o asfalto por árvores”.

Jaime Lerner, quando prefeito de Curitiba, “fechou o tráfego de automóveis na Rua XV de Novembro e a transformou em um calçadão exclusivo para pedestres, chamado Rua das Flores” | Foto: Daniel Katz/Divulgação

No início, a irritação foi geral . Depois, o projeto caiu nas graças do povo catalão. Stefano Mancuso “diz que os comércios daquela rua dobraram o faturamento e hoje as ruas vizinhas pedem para o novo prefeito fazer o mesmo”.

(Quando vou a Campinas, em Goiânia, onde tenho uma sala na qual guardo livros e revistas, fico com a impressão de que estou numa estufa — tal o calor concentrado, digamos. Quando vou ao Parque Lagoa Vargem Bonita, para fotografar pássaros — quase sempre ao lado de Candice e do jovelho amigo e companharo Sinésio Dioliveira — e ver árvores, sinto que respiro melhor e uma calma apodera-se do meu ser. Sinto que já conheço algumas árvores e até os socós e garças.)

Se há uma sanha redobrada em cortar árvores — quase sempre em nome de vidas humanas —, com a desculpa de aumentar a segurança e reforçar o “progréssio”, há escassa vontade em cuidar das que são plantadas. Eu gostaria de ver um inventário das árvores plantadas que sobreviveram. Não basta plantar. É preciso cuidar.

É necessário formar jardineiros que saibam realmente lidar com plantas. Porque, de jardineiros motosserras, a cidade está cheia. É preciso ensiná-los que podar não equivale a praticamente matar as árvores.

Stefano Mancuso foto Editori Laterza
Stefano Mancuso frisa que o mundo “precisa de prefeitas jovens, mulheres e corajosas. ‘Hoje temos exatamente o oposto: homens, velhos e nada corajosos’” | Foto: Editori Laterza

Há podas tão drásticas que retiram o “equilíbrio” das árvores. Por causa das chuvas e ventos, sem galhos circulares, elas acabam caindo.

Stefano Mancuso frisa que o mundo “precisa de prefeitas jovens, mulheres e corajosas. ‘Hoje temos exatamente o oposto: homens, velhos e nada corajosos’”.

De fato, percebo que as mulheres são muito mais sensíveis às plantas. Tanto que sabem cuidar de flores, que são delicadas e precisam de tratos especiais. De mãos zelosas.

Talvez seja possível sustentar que parte substancial dos homens, ainda que adeptos da vanguarda do atraso, se consideram como adictos do “progréssio”. Aquele que destrói e adota como norma a República do Asfalto.

Um mundo mais delicado, menos bruto, talvez seja a solução para que os humanos sobrevivam. Porque, ao retirar o espaço de sobrevivência de bichos e árvores, vão acabar ficando sem nada.

Os seres humanos estão ferrando os bichos e árvores, ocupando quase todos os espaços, sem perceber que, amanhã, estarão ferrados.