Assédio bolsonarista ao Intercept Brasil é um ataque à liberdade de expressão
30 maio 2026 às 23h40

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Leitores me perguntam em qual espectro ideológico se enquadra o Intercept Brasil, um portal especializado em jornalismo investigativo.
Não sou nenhum especialista nas ideologias dos jornais, revistas e portais brasileiros. Mas vamos tentar um breve comentário — quem sabe, não impreciso — sobre algumas publicações relevantes.
“O Globo” e a “Folha de S. Paulo” são, por assim dizer, de centro-direita. Os dois abrem amplo espaço para a esquerda opinar. Inclusive, parte de seus comentaristas é de esquerda. Mas ambos, notadamente a “Folha”, mantêm instâncias críticas à esquerda.
O “Estadão” e a revista “Veja” estão mais próximos, digamos, do mercado e da direita. Parecem mais “entusiasmados” com Flávio Bolsonaro do que com o presidente Lula da Silva.
O escândalo do INSS, sem denúncias seletivas, merece também espaço mais amplo e detalhado na imprensa brasileira. Os sites de esquerda parecem “pisar em ovos” ao tratar do assunto, sobretudo quando o nome de Lulinha, filho do presidente Lula da Silva, é mencionado.
A vinculação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, do Banco Master, chegou a assustar “O Estado de S. Paulo” e a “Veja”. Porém, por pouco tempo. O “entusiasmo” com a direita bolsonarista está sendo “retomado”, aos poucos, sobretudo nos artigos.
A impressão que se tem é que o “Estadão” é mais anti-Lula do que pró-Flávio Bolsonaro. Mas, como o postulante do PL a presidente é o anti-Lula mais bem posicionado nas pesquisas de intenção de voto, o jornal secular prefere alinhar-se com ele.
Intercept vincula-se mais à esquerda
Quanto ao Intercept Brasil, parece óbvio que está alinhado à esquerda. Suas reportagens são mais contundentes “contra” a direita.
Mas o alinhamento sugere que há falhas na reportagem mostrando que o senador Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”? Não. A matéria é correta, precisa.
Tanto que Flávio Bolsonaro não conseguiu contestá-la. Porque o Intercept registrou a própria fala do pré-candidato do PL a presidente pedindo — quase implorando — dinheiro ao banqueiro para produzir o filme.
Depois, o senador teve de admitir que visitou Daniel Vorcaro em sua casa. Portanto, existia algum tipo de relacionamento não fortuito entre ambos. Comenta-se que, na sua delação premiada, Daniel Vorcaro, que teria perdido o “medo”, vai esclarecer, de vez, qual era o grau de sua sintonia com Flávio Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro não explicou, até hoje, porque o banqueiro deu 61 milhões para os Bolsonaros e Mário Frias produzirem um filme sobre Jair Bolsonaro. Porque banqueiros não saem doando dinheiro. Sempre querem alguma coisa em troca. Precisam, de alguma forma, “lucrar”.
Se o Intercept faz jornalismo investigativo, pois é o seu metier, então agiu corretamente ao mostrar que aquilo que Flávio Bolsonaro dizia — procurava vincular o escândalo do Banco Master à esquerda — não era o que praticava. A ligação mais estreita, tudo indica, era com o senador.
A denúncia, documentada, foi e é fartamente usada pela esquerda. A direita, se o envolvimento fosse da esquerda, faria o mesmo.
O bolsonarismo, ante a insistência do Intercept em esclarecer o assunto — que ainda não está inteiramente desvelado —, decidiu partir para o ataque.
O jornalista Steven Monacelli, freelancer de Dallas, pediu uma declaração de Eduardo Bolsonaro, suposto beneficiário do dinheiro do Banco Master — trata-se de uma questão a esclarecer —e. logo depois, começou a ser ameaçado e assediado.

“Cerca de duas horas [depois que toquei a campainha da casa de Bolsonaro], vi meu rosto espalhado por todas as redes sociais da direita brasileira”, contou Steven Monacelli ao Comitê para a Proteção dos Jornalistas.
Organização internacional de promoção dos direitos de jornalistas, o CPG criticou o assédio que os repórteres do Intercept vêm sofrendo seguidamente.
A coordenadora do programa para a América Latina do CPJ, a jornalista Cristina Zahar, posicionou-se: “Silenciar reportagens críticas — e tentar transformar em bodes expiatórios os jornalistas por trás delas — não substitui a responsabilização”.
Cristina Zahar acrescentou: “A conduta da família Bolsonaro, cujos membros são atuais e ex-agentes públicos, é uma questão de interesse público e eles devem ser responsabilizados”.
O presidente do Intercept Brasil, Andrew Fishman, pontua: “Houve um esforço coordenado para desacreditar a investigação, envolvendo acusações infundadas, falsas ligações entre jornalismo e crime organizado, distorções das reportagens e a mobilização de contas e páginas pró-Bolsonaro para espalhar desinformação”.
Duas outras organizações, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), repudiaram, por meio de notas, a pressão de Flávio Bolsonaro e do bolsonarismo contra o Intercept.



