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Joaquim Pinto Magalhães, subtenente da FEB, perdeu uma perna no conflito contra soldados e oficiais de Hitler pelo controle da cidade de Montese. Foi a mais sangrenta das batalhas na Itália
Qualquer que seja a forma, a escravidão é uma barbárie. O Brasil aboliu a escravidão há 127 anos. Mas fazendeiros a reinventaram como escravidão por dívida. Histórias impressionantes e dolorosas são contadas no livro “A Dama da Liberdade — A História de Marinalva Dantas, a Mulher Que Libertou 2.354 Trabalhadores Escravos no Brasil, em Pleno Século 21” (Benvirá, 375 páginas), do jornalista Klester Cavalcanti.
Mulher de rara fibra, Marinalva Dantas é auditora fiscal do Ministério do Trabalho — atua no Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho, conhecido como “a Móvel” — e especializou-se, como uma princesa Isabel plebeia, em libertar escravos contemporâneos.
O livro do jornalista Klester Cavalcanti, ex-“Veja” e ex-“IstoÉ”, é sereno, não faz discursos (os fatos são os discursos). A história dos novos escravos choca e comove por si. Um dos personagens é o goiano Luiz Carlos Machado, o Luiz Bang, que, depois de uma intensa atividade como gato (agenciador de mão de obra), se tornou pistoleiro, segundo a obra, fazendeiro e prefeito no Mato Grosso.
Uma das histórias mais comoventes é a do ex-escravo Francisco Ferreira, de 16 anos (com feições de 30). Ao ser libertado de uma fazenda da família Mutran — uma das mais poderosas do Pará —, recebeu R$ 1.140 de indenização. “Ele olhava para aquelas cédulas de R$ 50, R$ 20 e R$ 10 com incredulidade e deslumbramento. Nunca vira tanto dinheiro na vida.” Marinalva quis saber o que ia fazer com o dinheiro. Francisco Ferreira respondeu, candidamente: “Ainda não sei, doutora. Acho que vou usar metade pra arrumar minha vida em Teresina e a outra metade vou guardar, pra dar um futuro decente pro meu filho. Não quero que ele sofra na vida que nem eu”.
Em Alvorada do Gurguéia, no Piauí, o produtor rural Adauto Rodrigues planta algodão, financiado pelo governo federal. Para colhê-lo, recrutou trabalhadores na Bahia, a quase 1,1 mil quilômetros de distância. Os homens foram levados num caminhão, com mulheres, adolescentes e crianças, sob um sol inclemente e, às vezes, chuva. Durante a viagem, a alimentação era “apenas dois pães por dia, para cada pessoa”. Na fazenda, onde chegaram famintos e desidratados, os baianos — negros — descobriram que, quanto mais trabalhavam, mais endividados ficavam. Era a escravidão por dívida.
Os escravos são a “gente invisível”, no dizer de Marinalva Dantas — ecoando, de alguma maneira, o escritor americano Ralph Ellison, autor do romance “Homem Invisível”. São pessoas que, deslocadas de um lugar para o outro, não têm ninguém para defendê-las — exceto quando descobertas pelo Ministério Público, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pelos auditores do Ministério do Trabalho.
Klester Cavalcanti sugere que a vida do escravo moderno chega a ser pior do que a do escravo dos tempos de Colônia e Império, muito embora as duas formas de escravidão sejam condenáveis.
A respeito dos escravos “recrutados” como trabalhadores na Bahia, Klester Cavalcanti escreve: “Exatamente como os colonizadores portugueses faziam há quase 500 anos, aqueles negros baianos tinham sido igualmente tratados sem o menor respeito ou preocupação em relação à sua saúde. Haviam percorrido cerca de 1,1 mil quilômetros empilhados como mercadoria, sujeitos a todo tipo de intempérie e com alimentação precária. Situação idêntica aos relatos das viagens nos navios negreiros. Eram, como seus antepassados africanos, nada além de força física para a lavoura. Havia, porém, uma diferença que tornava a situação dos escravos contemporâneos ainda pior do que a dos cativos do passado. Antes, o escravo era comprado pelo seu senhor, o que fazia com que fosse considerado um bem, um patrimônio. Assim, os fazendeiros e usineiros da época queriam ver seus escravos fortes e saudáveis, para poderem trabalhar com afinco. Um negro doente ou morto era sinônimo de prejuízo. Os escravagistas do século 21 não têm essa preocupação. Se um dos seus cativos adoecer ou morrer, não há problema. Afinal, ele — o fazendeiro — não pagou nada por aquele infeliz. Esse é um dos motivos pelos quais os escravos da atualidade são tão maltratados, largados para viver em cabanas no meio do mato, sem água potável, sem higiene e com alimentação sofrível. Ser escravo no Brasil do século 16 era menos doloroso do que o ser naquele universo que já fazia parte da vida de Marinalva”.
No Brasil, o do século 21, o capitalismo permanece selvagem? Em parte, sim. As ideias continuam, portanto, fora do lugar. O Brasil é um país que mistura liberalismo e socialdemocracia — com privatizações e forte investimento no social —, mas ainda convive com práticas bárbaras, criminosas. O primeiro presidente a combater o trabalho escravo de maneira mais eficaz foi Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. O PT mantém o combate ao trabalho escravo, mas muitos fazendeiros resistem às ações do Ministério do Trabalho, do Ministério Público e da Justiça. Sob o PT, Marinalva Dantas chegou a ser "discriminada" no Ministério do Trabalho, depois que autuou um deputado estadual e um deputado federal, pai e filho.
O escravo de 12 anos que não conhecia a música “Parabéns pra Você”
Em maio de 2013, os auditores do Ministério do Trabalho e a Polícia Federal encontraram trabalhadores escravos, entre eles garotos, na Fazenda Ponta de Pedra, no município de Marabá, no Pará. Lá, a auditora Marinalva Dantas conversou com o menino-escravo Divonaide Ferreira da Silva, de 12 anos, nascido no interior de Goiás. Nos 23 meses em que permaneceu trabalhando na fazenda, sem nada receber, “o menino enfrentou fome, sede, contraiu dengue e passou várias noites ensopado, sem conseguir dormir de tanto frio”.
Divonaide não sabia nem mesmo sua idade. “Quantos anos você tem?”, Marinalva perguntou. “O quê?”, disse, pedindo o apoio do pai. A auditora insistiu: “Quantos anos você tem, meu filho? Qual a sua idade?”. O menino respondeu: “Sei não, senhora”. Auditora: “Meu filho, quando as pessoas cantam ‘Parabéns pra Você”? Divonaide: “Que música?” A auditora cantou: “‘Parabéns pra você, nesta data querida. Muitas felicidades. Muitos anos de vida”. Divonaide: “Sei não”. Auditora: “Você lembra qual foi a última vez que cantaram essa música pra você?” Divonaide: “Nunca ouvi essa música, não, senhora”. Auditora: “Nunca? Tem certeza?” Divonaide: “Nunca”. A jornalista espanhola Clara Balboa, da TV Espanhola, ouviu atentamente as respostas do menino e chorou
Depois, Marinalva perguntou: “Você consegue ter algum tempo pra brincar?” Divonaide: “Às vezes”. Marinalva: “Que bom! E como você brinca?” Divonaide: “Eu fico desmontando e montando a motosserra. Tem um monte de pecinha lá dentro”. O garoto e o pai eram “motoqueiros” na fazenda, quer dizer, operadores de motosserra na linguagem dos peões. Divonaide é louro e tem olhos azuis.
Klester Cavalcanti relata que “o pecuarista paulista Euclebe Vessoni”, proprietário da Fazenda Ponta de Pedra, “foi condenado pela Justiça do Trabalho, em 2004, a pagar a maior indenização por dano moral coletivo já deferida até aquela época. Em processo movido pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), Vessoni foi obrigado a pagar R$ 384 mil pelos crimes que cometera, como explorar mão de obra escrava, trabalho infantil, não pagar os lavradores, não registrar os empregados em Carteira de Trabalho e não fornecer água potável aos trabalhadores”.
Frase clássica do livro: “Se não estivermos lá também nós, eles acabam fazendo uma república. Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”
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Walquires Tibúrcio e a esposa, Maria Berta | Foto: reprodução / Facebook[/caption]
O advogado Walquires Tibúrcio lança um livro despretensioso, “Guapé — E Outras Histórias” (Elysium, 204 páginas), porém muito bem escrito. São causos, relatos, crônicas? São tudo isso e mais um pouco. São histórias da vida real muito bem reconstruídas pela imaginação, escritas de maneira deliciosa, com a leveza sugerida pelo escritor italiano Italo Calvino. É literatura tradicional, sem invenções linguísticas.
Walquires Tibúrcio não é historiador nem antropólogo. Mas suas histórias, ao registrar o cotidiano das pessoas, tem um quê da história escrita pelos estudiosos franceses da Escola dos Annales e pelo olhar perspicaz dos antropólogos para as diferenças culturais.
A impressão que se tem é que algumas histórias, espichadas pela imaginação, dariam contos longos ou até romances. As histórias contadas por Walquires Tibúrcio contêm diamantes à espera de novas lapidações.
Depois de um livro notável sobre a crise dos mísseis entre a União Soviética e os Estados Unidos, Michael Dobbs lança “Seis Meses em 1945 — Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman da Segunda Guerra Mundial à Guerra Fria” (Companhia das Letras, 520 páginas, tradução de Jairo Arco e Flexa).
Michael Dobbs, além de dominar o assunto com rara mestria, escreve com extrema clareza. O pesquisador mostra como seis meses de 1945 definiram a política mundial pelo menos até 1991, com a queda da União Soviética.
A morte de uma pessoa, sobretudo quando famosa, anestesia ou paralisa circunstancialmente o espírito crítico. A morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo, num acidente em território goiano, gerou dezenas de reportagens emocionais e laudatórias, mas nenhuma avaliação sobre a qualidade de sua música. Repórteres, sempre atentos ao sensacionalismo e em busca do acesso fácil e multiplicado, não ousaram nem mesmo situar o artista no contexto da música sertaneja nacional. Nunca se leu tanto lixo disfarçado de reportagem. Há uma segunda questão. O preconceito dos jornalistas contra a música sertaneja impede que entendam que se trata de um fenômeno cultural, goste-se ou não, e também comercial. É um supernegócio que o jornalismo patropi não consegue dimensionar porque se recusa a entendê-lo.
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Jornalista é acusada. Mas, faltam provas | Foto: Reprodução Facebook[/caption]
O Sindicato dos Jornalistas do Paraná acusa a jornalista Joice Hasselmann, da TV Veja, de ter cometido vários “plágios”. Blogs e portais ligados à esquerda esbaldaram-se divulgando a “notícia”. Li vários textos notando, de cara, que eram praticamente os mesmos, sem variações. Quer dizer, trata-se muito mais de uma campanha sincronizada contra a jornalista — ou melhor, contra a revista “Veja” — que uma apresentação de provas de que a profissional cometeu plágios. Felizmente, nenhuma publicação de qualidade levou a sério a “denúncia”, que, a rigor, é pura ficção.
Nenhum dos textos apresentou evidência, ao menos uma, do plágio denunciado de forma tão espetaculosa. Se processar os dirigentes do sindicato, Joice Hasselmann possivelmente receberá uma indenização polpuda.
Na quinta-feira, 25, Wilson Silvestre, ex-Jornal Opção, ex-“Diário da Manhã” e ex-“O Popular”, estava sentado em sua cadeira, no palácio do governo de Brasília, quando desmaiou. Os paramédicos conseguiram reanimá-lo depois de cinco minutos. O jornalista está em sua residência, em Brasília, e está bem.
“Tudo indica que tem a ver com medicamentos que tomei para gota. Os paramédicos sugeriram problemas de glicemia. A minha pressão voltou logo ao normal”, contou Wilson Silvestre ao Jornal Opção.
Ana Maria dizia que tudo que era importante para a história e a cultura de Goiás, mas não dava dinheiro, tinha a mão de José Mendonça Teles
O advogado goiano Reinaldo Barreto, curtindo temporada na Paris de Proust, Gide, Gertrude Stein, Joyce e Hemingway, visita, prioritariamente, museus e livrarias (além de vinícolas em outras regiões da França). O que mais o encanta é a livraria Shakespeare and Company, criada por Sylvia Beach (1887-1962) e, depois, gerida pelo americano George Whitman, que, embora não fosse, costumava dizer que era bisneto de Walt Whitman, o grande poeta americano.
Lawrence Durrell, Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso e muitos outros declamaram poemas na livraria. Jeremy Mercer, escritor canadense, chegou a morar nas suas dependências. O resultado é a obra “Um Livro Por Dia — Minha Temporada Parisiense na Shakespeare and Company”, que Reinaldo Barreto devorou num dia, depois de ler “Shakespeare and Companhy”, de Sylvia Beach, e um livro do jornalista Sérgio Augusto, “E Foram Todos Para Paris — Um Guia de Viagem nas Pegadas de Hemingway, Fitzgerald e Cia”, opúsculo devorado numa única tarde.
Por lá também passaram James Joyce, Hemingway, Anäis Nin e Henry Miller. Anäis Nin era amante de Henry Miller, mas também passeou pela cama de George Whitman.
Henry Miller adorava a Shakespeare and Company, “o país das maravilhas dos livros”. Em “Paris É uma Festa”, livro que permanece delicioso, o americano Hemingway escreve sobre a “livraria dos escritores”.
George Whitman pedia aos clientes o que hoje parece impossível — que lessem um livro por dia. Pós-internet, funciona mais sugerir que se leia um livro por mês ou, quem sabe, por ano.
A Shakespeare and Company funcionou em dois endereços, o bairro de Saint-German-des-Prés e, agora, na Rue da la Bûcherie. Sua primeira proprietária, Sylvia Beach bancou a publicação de “Ulysses”, o romance de James Joyce.
Excêntrico, ou descuidado, George Whitman escondia seu dinheiro entre livros ou embaixo de colchões. Larápios sempre entravam na livraria porque sabiam que seria fácil encontrar alguma grana. O beatnik Gregory Corso roubava livros, notadamente os mais raros, para comprar heroína.
Dois lemas da livraria
— Seja gentil com estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados;
— Dê o que pode, pegue o que precisar.
O jornalista trabalhou nas revistas Veja e IstoÉ e no Jornal da Tarde. É autor de livros-reportagem de qualidade
Em 648 páginas, o historiador britânico e professor de Oxford explica e interpreta o que o comunismo fez nos países que dirigiu e sua influência em todo o mundo
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O prosador norte-americano faleceu nos Estados Unidos. Seu último romance, “Tudo Que É”, vai sair pela Companhia das Letras
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