O prosador norte-americano faleceu nos Estados Unidos. Seu último romance, “Tudo Que É”, vai sair pela Companhia das Letras

“Não a princípio, e só depois que aceita que é mortal, você começa a compreender que a vida e a morte são a mesma coisa.” (Página 183 de “Dias Intensos”)

O escritor americano James Salter, que morreu no sábado, 20, aos 90 anos, nos Estados Unidos, era um prosador do primeiro time, mas se tornou menos famoso do que merece (sua glória será, sem dúvida, póstuma). O escritor Richard Ford, que o chamou de “o herói esquecido”, assinalou que, entre os escritores do país de Henry James e William Faulkner, era o autor das “melhores frases”. Era admirado por Julian Barnes, Susan Sontag, John Banville, John Irving e muitos outros. Piloto na Guerra da Coreia, publicou poucos livros, mas de alta qualidade. Suas memórias, “Dias Intensos” (publicadas em 1997; no Brasil, saiu pela Imago, 354 páginas, com tradução de A. B. Pinheiro de Lemos), são extraordinárias — e até como boa literatura. Sua prosa começa a ser publicada no Brasil. Primeiro saiu, pela Imago, “Um Esporte e um Passatempo” (250 páginas). “Última Noite e Outros Contos” (176 páginas), publicado pela Companhia das Letras, ganhou tradução precisa de Samuel Titan Jr. A Companhia das Letras publica agora seu romance recente, “Tudo Que É” (376 páginas, tradução de José Rubens Siqueira).

Nas deliciosas e dolorosas (relata a morte de uma filha) memórias, Salter escreve: “Minha ambição era escrever alguma coisa — eu deparava por acaso com as palavras — ‘lúbrica y pura’, um livro imaculado com imagens de um mundo nada casto, mais desejável do que o nosso, um livro que aderisse à pessoa, não pudesse ser descartado. Senti uma grande segurança enquanto o escrevia. Tudo saiu como eu imaginava. O título foi em parte irônico, ‘Um Esporte e um Passatempo’, uma frase do Corão que expressava o que a vida deste mundo deveria ser, em comparação com a vida maior que virá depois”.

Salter sublinha que se encontrada, “na ocasião, sob o encantamento de livros que eram breves, mas cada página elevada, como ‘O Som e a Fúria’ e ‘Enquanto Agonizo’, de Faulkner. Esse tipo de livro, como os de Flannery O’Connor, Marguerite Duras, Camus, permanecem os meus prediletos. É como provas de meia distância para um corredor. O ritmo é implacável e deve ser mantido até o final. Os finlandeses eram outrora famosos por correrem essas distâncias. A qualidade necessária era a de ‘sisu’, coragem e resistência. Para mim, os romances mais curtos são os mais representativos de ‘sisu’”. “O Som e a Fúria” não é tão curto assim, mas também não tem o mesmo número de paginas de “Ulysses”, de James Joyce, e “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann. Perto dessas duas “catedrais”, em tamanho e não em qualidade, é uma autêntica capela.

“Um Esporte e um Passatempo”, rejeitado por várias editoras, acabou sendo editado graças aos esforços de George Plimpton, editor de “The Paris Review”. O livro saiu em 1969

Nas memórias, Salter conta que leu, com fervor, os textos de Truman Capote que, mais tarde, resultaram no livro “A Sangue Frio”. “‘A Sangue Frio’ me despertou a maior inveja, por sua força e objetividade excepcionais.”

No fim das memórias, Salter discute a felicidade, sobretudo a sua. “Quando fui mais feliz? Os momentos mais felizes da minha vida? É difícil dizer. Passando por cima do óbvio, talvez ao partir para uma viagem. Ou ao voltar de uma. Na casa dos 30 anos, provavelmente, e em algumas outras ocasiões dispersas, entre as quais a sensação inebriante nos dias anteriores ao lançamento de um livro, e às vezes quando escrevo. É apenas em livros que se encontra a perfeição, é apenas em livros que não se pode estragá-la. A arte, num certo sentido, é a vida levada à imobilidade, resgatada do tempo. O segredo de fazer é simples: descartar tudo que é apenas bom.”

A respeito de escrever sobre as pessoas, e certamente o autor não está falando só de biografias (Saul Bellow escreveu um romance à clef sobre o crítico Allan Bloom e provocou polêmica; o prosador e o crítico eram amigos, quando Bloom morreu, em consequência da Aids, Bellow ficcionou sua história). Leia o que diz Salter: “Escrever meticulosamente sobre uma pessoa é destruí-la, é consumi-la. Supondo que isso também se aplica à experiência — ao descrever um mundo, você o extingue — e num livro de reminiscências muita coisa fica reduzida a ruínas. Coisas são captadas e ao mesmo tempo desprovidas de sua vida, para nunca mais faiscarem, nunca mais irradiarem sua luz”.

Como Faulkner, Nathanael West e F. Scott Fitzgerald, Salter escreveu roteiros para Hollywood.

Trechos das memórias Dias Intensos, de James Salter

Um restaurante brasileiro nos Estados Unidos

James Salter fala de um jantar num restaurante brasileiro, nos Estados Unidos, com uma mulher, Toni, pelo qual havia se apaixonado. Ela casou-se com outro e morreu ainda jovem. Salter escreve: “Nada é tão intenso quanto o amor não consumado”.

Sobre escritores e os personagens reais

“O escritor define o mundo, no entanto, e seu nome cresce para se tornar parte dele. O livro e o homem que o escreveu passam a se confundir, assim como pessoas e incidentes verdadeiros tornam-se parte de uma verdade que foi revisada e editada. Em determinado ponto, todas as histórias são reais, a dúvida nunca surge. Os personagens em Dreiser, Cervantes e Margaret Mitchell são eminentemente reais. A possibilidade de que alguém apenas imaginou esses personagens, assim como tudo o que disseram, é a princípio fascinante. Mas não podemos duvidar por um instante sequer da existência de Lady Ashley ou mesmo de Ahab. Eles se situam no mesmo nível de personagens históricos. É para a glória de seus criadores que eles alcançaram, se não a possuíam no sentido comum, uma vida real. Krapp, Swann, Lady Dedlock, todos viveram e morreram… e têm a oportunidade de viver para sempre.”

Sobre o escritor William Faulkner 

“Passávamos os dias na indolência. Eles se tornaram o passado sagrado. Os dias que Faulkner disse terem sido os mais emocionantes de sua vida. Ele fez o comentário para Sylvester, um major que era oficial de informações, estacionado em Greenville, Mississippi, não muito longe da casa de Faulkner, durante a Guerra da Coreia. Uma bibliotecária que Sylvester conhecia oferecera-se para apresentá-lo a Faulkner, como um favor. No momento marcado, Faulkner apareceu. Estava de porre. Usava um terno de plantador, todo amarrotado, com uma garrafa no bolso do paletó. Sylvester presumiu que era gim. Conversaram sobre aviões, sobre os dias em que Faulkner fora aviador, na França. Ele nunca o fora. Já dissera isso muitas vezes, para mulheres, para homens. Talvez tivesse passado a acreditar.

“Há um sentimento que Faulkner provavelmente experimentava — eu também já o tive — de que a verdadeira vida está se desenrolando em outro lugar, não onde você se encontra. Ele pode ter ouvido o som em Greenville, o rugido poderoso e destrutivo, não de aviões como os que conhecera, mas de outros muito mais potentes. Alguma coisa nele reagira a isso, levando-o a posar como oficial do Real Corpo Aéreo, inventar missões de combate, acidentes, uma placa de prata na cabeça. Era um homem pequeno. Podia sentar numa cadeira, e às vezes seus pés não tocavam o chão. Seu mundo era pequeno, uma sede de condado inculto, um Estado atrasado, embora a partir daí ele moldasse algo maior, talvez até muito maior do que o próprio Faulkner imaginava. Um escritor pode não ter uma noção exata do que escreveu. Não é como um prédio ou uma escultura; não se pode ver o todo. É apenas uma espécie de fumava, captada e impressa numa página.

“Uma coisa em Faulkner que eu aprecio, além a simplicidade geral de sua vida, é o fato de que ele escrevia nas paredes do quarto. O que me parece a verdadeira marca de um escritor. É como um pianista praticando no meio da noite, quando toda a família está dormindo ou tentando dormir… a música é maior do que as vidas de todos.

“Naquele dia em Greenville, Faulkner, a dez anos de sua morte, ofereceu-se para escrever uma história sobre a Força Aérea, em troca de um passeio num jato. Sylvester telefonou no mesmo instante para o comandante da base, um coronel, que ouviu a proposta, para depois perguntar: — Quem é Faulkner?”

Sobre o escritor e aviador St.-Exupéry

“E ainda havia St.-Exupéry. Ele me seduziu. Eu o lera, sem alegria a princípio, em francês, frase por frase, sempre procurando entender o significado de cada palavra. Foi um dos meus professores de prediletos de francês. Ao final, passei a gostar dele por mim mesmo. Era seu conhecimento que eu admirava, a integridade de sua mente, mais do que seus feitos. Anos mais tarde, meu sentimento foi confirmado por uma mulher, que me disse que a ligação amorosa que tivera com St.-Exupéry na juventude era o episódio de sua vida pelo qual tinha mais cadrinho.”

Frases das memórias Dias Intensos

“O sabor das coisas antigas ainda existe. Sinto na boca o gosto de tomates frescos com sal, os ovos mexidos que minha avó fazia, os golpes inesperados de água do mar.”

“Os incidentes formam você, eventos que são inesperados, julgamentos despercebidos.”

“As cidades, como as mulheres, são sensíveis aos vencedores.”

“Às vezes você está consciente quando seus grandes momentos estão ocorrendo, às vezes eles só surgem do passado.”

Sobre o primeiro amor: “Embora os lugares tenham desaparecido, onde ela está é onde sempre esteve. Com o maior cuidado, coloco sua história no lugar a que pertence, antes do resto”.

“Nada dura na guerra, e os poetas são mortos junto com os camponeses, as moscas banqueteiam-se em seus rostos.”

“Um homem é um destino. É o primeiro de todos os poemas. Mesmo depois da morte, ainda mantém seu poder; mesmo meio enterrado em papel de imprensa ou por completo na terra, alguma coisa atrai a atenção.”

Leia uma entrevista de James Salter

http://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/james-salter-sugere-que-o-grande-romance-americano-e-huckleberry-finn-de-mark-twain-690/