A existência (e a competência) da CazéTV é, por si, uma revolução na cobertura esportiva
20 junho 2026 às 21h00

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O “sucesso” CazéTV e da TV Globo tem alguma coisa a dizer sobre o Brasil.
Há uma torcida geral pela CazéTV, a criatura de Casimiro Miguel. Uma torcida, por sinal, justa. Há mesmo o que comemorar.
Por outro lado, há uma torcida contra a Globo. Fica-se com a impressão, até, de que se torce a favor da CazéTV para ficar contra a Globo.
O sucesso da Globo, absoluto, parece insucesso para muitos. Talvez se possa falar no “fracasso do sucesso”.
A TV Globo é, disparada, a melhor rede de televisão do país. As demais, em termos de qualidade e investimento em jornalismo e entretenimento, não ficam sequer em segundo lugar. Ficam em último.
Ainda assim, aqui e ali, a Globo é vergastada pelos críticos. A torcida pela CazéTV faz parte do “sistema” — tão forte quanto “inconsciente” (se tornou um inconsciente cada vez mais consciente) — contra a empresa operada, direta ou indiretamente, pela família Marinho.
Ninguém cobre a Copa do Mundo melhor do que a Globo. Mas a CazéTV avançou num ponto: apresentará, se quiser, todos os jogos. A Fifa liberou geral para o canal patropi.

Alguém teria condições de prever que, algum dia, outra emissora (na verdade, um canal), relativamente mambembe, seria capaz de cobrir mais jogos do que a Globo numa Copa do Mundo? Nem Márcia Sensitiva — que nunca ganha na Mega-Sena — seria capaz de prever.
Antes dos tempos digitais — do YouTube, por exemplo —, seria impensável uma emissora (um canal) “derrotar” a Globo, senão em qualidade, ao menos em quantidade.
Globo ignorou show de Messi
Na semana passada, enquanto a Globo colocava no ar mais um capítulo de sua novela, a CazéTV transmitia o excelente jogo do Messi Esporte Clube — às vezes, conhecido como seleção da Argentina — contra a Argélia.
Os telespectadores da Globo ficaram a ver navios, e não… a partida. Certamente, correram para a CazéTV. Eu corri, prontamente, e saí satisfeito.
A Argentina ganhou por 3 a 0, com três gols de Messi, um jovem de 38 anos. Vale sublinhar que a Argélia não é ruim. Tanto que, depois da saída de Messi, o time passou a jogar melhor do que a turma do país de Mariana Enriquez e Samanta Schweblin.

Os narradores e comentaristas da CazéTV são melhores do que os da Globo? Não. São equivalentes. Precisam segurar o tom às vezes ufanista e torcedor. Jogadores medianos da Argentina chegaram a ser apresentados como craques. Quando, a rigor, só havia um cracaço em campo — o garoto Messi.
De resto, a CazéTV não comprometeu. Os acertos são tantos que os erros, se não devem ser perdoados, devem ser relevados.
A revista “Veja” tripudiou porque a emissora disse República Dominicana do Congo, e não República Democrática do Congo.
“Veja” também apontou “uma narração marcada por excesso de gritos e intervenções constantes, sem a condução esperada de uma transmissão oficial”. A revista talvez não tenha percebido que o ambiente descontraído — como se narrador e comentaristas estivessem assistindo jogo num boteco — é o que mais agrada aos telespectadores da CazéTV.
Não que a cobertura da “Globo” seja muito mais circunspecta. Mas o tom quase adolescente da CazéTV agrada.
Goleiro Vozinha: famoso via CazéTV
O goleiro Vozinha, de Cabo Verde, é uma das estrelas da Copa. Ele impediu, mostrando-se uma Vozona, a vitória da Espanha. As duas seleções empataram. Ao transmitir o jogo, a CazéTV contribuiu, ao menos no Brasil, para a consagração do arqueiro africano. Cabo Verde é nosso irmão, pois fala português. É a terra da grande cantora Cesária Évora.

O repórter da “Veja”, o que criticou os erros, e os jornalistas de “O Globo” tiveram de assistir Alemanha e Curaçao (malditos 7 a 1) e Espanha e Cabo Verde na CazéTV. Ganharam uma alternativa relevante. Para além da Globo, que não exibiu as duas partidas.
No jogo entre o Brasil e Marrocos — empate de 1 a 1 —, 12,7 milhões de aparelhos se conectaram à CazéTV “simultaneamente no YouTube, o maior número já registrado por uma transmissão de futebol na plataforma em todo o mundo”, relata a investidora Camila Farani, em artigo para o “Estadão”. Os brasileiros se tornaram, digamos, cazemaníacos.
Eu mesmo, que assisti a Copa do Mundo de 1970 numa TV preto e branco — adorava as palavras Guadalajara e Jalisco —, vi dois jogos na CazéTV. E não vi nada errado com as transmissões, ao menos tecnicamente. Os comentários são, às vezes, primários. Mas o que importa mesmo é ver os jogos e saber quem está jogando e fazendo gols. A CazéTV, por assim dizer, não deixa a peteca cair. Aprovei com distinção e louvor. Nota 9,5. Quase 10. Para a Globo, dou nota 9,2 (e as mulheres estão muito bem, mostrando que entendem de fato de futebol). Só dou zero para quem não transmite.
A CazéTV provou que é uma ótima alternativa à Globo. A audiência é tão grande que até a Coca-Cola, uma anunciante, rendeu-se a CazéTV.
A CazéTV está na boca do povo, positivamente, em todos os lugares. Parece agradar todas as classes sociais. É uma micro revolução. Talvez, se continuar por mais tempo, se torne uma macro revolução.



