A participação de Romeu Zema no encontro da Confederação Nacional da Indústria deveria servir para apresentar um projeto de país. Era a oportunidade perfeita para discutir produtividade, inovação, educação, reforma tributária e competitividade da indústria brasileira.

Em vez disso, o pré-candidato do Novo saiu do evento conhecido por três declarações que dizem muito mais sobre sua visão de mundo do que qualquer plano de governo.

A primeira foi talvez a mais preocupante. Ao defender mudanças no Bolsa Família, Zema afirmou que pretende exigir dos homens beneficiários a conclusão dos estudos porque, segundo ele, “as mulheres têm outras atribuições em casa”.

A frase parece saída de um Brasil que ficou no século passado.

Ela parte do pressuposto de que cuidar da casa e dos filhos é uma obrigação natural da mulher, enquanto o homem seria o responsável por trabalhar e estudar. Não há qualquer preocupação em dividir responsabilidades familiares ou estimular uma participação mais equilibrada entre homens e mulheres. Ao contrário: o candidato transforma um estereótipo em política pública.

É curioso que isso venha justamente de alguém que costuma defender meritocracia e igualdade de oportunidades. Afinal, como falar em igualdade quando se parte da premissa de que mulheres e homens devem ser tratados de forma diferente por causa de papéis tradicionais de gênero?

A segunda declaração não foi menos infeliz.

Ao afirmar que “ninguém vira padre para abusar de criancinha. Mas no setor público parece que é assim. Principalmente com o Supremo Tribunal Federal”, Zema banalizou um dos crimes mais hediondos existentes apenas para atacar uma instituição da República.

Não se trata de criticar o STF — algo absolutamente legítimo em qualquer democracia. O problema está na comparação.

Associar ministros da Suprema Corte a abusadores de crianças não fortalece nenhuma crítica institucional. Apenas degrada o debate público e substitui argumentos por insultos.

Quem pretende ocupar a Presidência da República deveria compreender que divergências entre Poderes são resolvidas com fundamentos jurídicos e políticos, não com analogias grotescas destinadas a gerar manchetes.

A terceira frase seguiu a mesma lógica da simplificação.

“O Brasil não é um país fracassado. É um país roubado.”

É uma frase de efeito. Funciona bem em vídeos de trinta segundos e nas redes sociais. Mas não explica um país de mais de 200 milhões de habitantes.

O Brasil enfrenta corrupção, sem dúvida. Mas enfrenta também baixa produtividade, crise educacional, desigualdade, infraestrutura insuficiente, envelhecimento populacional, burocracia excessiva, baixa capacidade de inovação e um sistema tributário historicamente complexo. Reduzir todos esses desafios à ideia de um país “roubado” é trocar diagnóstico por slogan.

Talvez o aspecto mais decepcionante tenha sido justamente o palco escolhido.

A CNI reuniu empresários interessados em ouvir propostas para o desenvolvimento econômico brasileiro. Esperava-se um candidato disposto a discutir indústria, tecnologia, emprego qualificado e competitividade internacional.

Receberam frases de impacto, ataques ao STF e uma visão ultrapassada sobre o papel das mulheres.

Zema gosta de se apresentar como gestor técnico, pragmático e eficiente. Mas, no momento em que teve a oportunidade de falar ao setor produtivo nacional, preferiu recorrer às mesmas armas que há anos dominam parte da política brasileira: polarização, frases virais e simplificações.

Um candidato à Presidência pode — e deve — fazer críticas duras às instituições, aos programas sociais e às políticas públicas. O que não pode é abandonar a responsabilidade que o cargo exige.

As declarações feitas na CNI não revelaram um estadista. Revelaram um político disposto a trocar propostas por manchetes e reflexão por provocação.

O Brasil precisa de líderes capazes de elevar o debate. Não de candidatos que ainda confundem repercussão com grandeza política.

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