Há partidos que perdem eleições. E há partidos que, depois de tantas derrotas, começam a perder também aquilo que os mantém vivos: seus quadros, suas lideranças e a capacidade de convencer seus próprios aliados de que ainda vale a pena permanecer no barco.

O PSDB parece atravessar justamente esse momento. Em Goiás, a pergunta que começa a circular nos bastidores já não é apenas quantos deputados federais os tucanos conseguirão eleger em 2026. Diante das desistências que atingiram a chapa proporcional, uma questão mais incômoda ganha espaço: quem será o último a sair do PSDB para apagar a luz?

A imagem é provocativa, evidentemente. Mas traduz o contraste entre o partido que já ocupou o centro da política nacional e a legenda que agora precisa lidar com a saída de nomes que poderiam ajudar a sustentar sua presença eleitoral. A situação goiana, porém, não pode ser compreendida isoladamente.

O que acontece no Estado é parte de uma transformação mais ampla de uma sigla que, há pouco mais de uma década, disputava a Presidência da República em condições de protagonismo. Voltemos a 2014. Naquele ano, Aécio Neves levou o PSDB ao segundo turno da eleição presidencial contra Dilma Rousseff.

O tucano terminou a primeira etapa da disputa com 33,55% dos votos válidos, contra 41,59% da petista. No segundo turno, a diferença foi ainda menor: Dilma recebeu 51,64%, enquanto Aécio alcançou 48,36%. Foram mais de 51 milhões de votos para o candidato tucano.

Uma votação que demonstrava a capacidade de mobilização nacional do partido e o mantinha como uma das principais forças da política brasileira. Naquele momento, o PSDB ainda era reconhecido como uma das principais alternativas de poder no país. Tinha lideranças nacionais, governadores, parlamentares e uma estrutura partidária capaz de disputar eleições majoritárias em diferentes regiões.

Doze anos depois, o cenário é outro. A legenda enfrenta dificuldades para preservar o espaço que ocupou durante décadas. O encolhimento de sua representação parlamentar e a perda de protagonismo nas disputas presidenciais ajudam a dimensionar a mudança.

Nas eleições de 2022, a federação PSDB/Cidadania elegeu 18 deputados federais, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. O contraste com o passado é evidente: o partido que já chegou perto de comandar o país agora precisa reconstruir sua relevância em um sistema político no qual outras forças passaram a ocupar espaços que, durante muito tempo, também foram seus.

Não se trata apenas de perder eleições. O desafio é recuperar a capacidade de atrair candidaturas competitivas, formar novas lideranças e oferecer aos seus integrantes uma perspectiva concreta de crescimento político. E é justamente nesse ponto que Goiás se torna um exemplo importante.

Goiás

Durante anos, o PSDB foi praticamente sinônimo de poder em Goiás. Sob a liderança de Marconi Perillo, o partido construiu uma trajetória marcada por sucessivas vitórias eleitorais e por uma presença expressiva na administração estadual. Marconi foi eleito governador em 1998, 2002 e 2010, antes de conquistar um quarto mandato em 2014.

Naquele ano, venceu Iris Rezende no segundo turno, com 57,51% dos votos válidos. Era um período em que o tucanato goiano tinha musculatura política, capilaridade no interior e capacidade de atrair aliados de diferentes correntes. O partido não precisava apenas apresentar candidatos: frequentemente, era uma das forças em torno das quais as alianças eram construídas.

Mas o tempo passou, e a sequência de vitórias foi interrompida. Em 2018, Marconi tentou uma vaga no Senado e terminou a disputa sem mandato. Quatro anos depois, voltou às urnas para concorrer novamente ao Senado e também não conseguiu se eleger. Os resultados interromperam uma trajetória eleitoral que, até então, havia sido marcada por conquistas importantes.

A perda de espaço do PSDB não se resume, naturalmente, ao desempenho individual de seu principal líder. Mudanças no eleitorado, reorganização das forças políticas, formação de novas alianças e o surgimento de lideranças concorrentes também fazem parte dessa história.

Ainda assim, é difícil ignorar o peso de Marconi nesse processo. Durante muito tempo, sua liderança foi um dos principais ativos eleitorais do partido. Agora, o desafio é demonstrar que a legenda consegue sustentar uma estrutura competitiva para além da força política de seu principal nome.

A eleição de 2026 coloca essa questão novamente em evidência. A desistência de candidatos à Câmara dos Deputados transformou-se em um dos principais sinais de alerta para o PSDB goiano. Flávia Teles, viúva de Maguito Vilela, deixou a disputa após problemas de saúde.

Henrique Arantes, filho do ex-deputado Jovair Arantes, anunciou sua retirada da candidatura por questões pessoais e familiares. Mais recentemente, Jeferson Rodrigues também desistiu de tentar a reeleição. São decisões individuais, com justificativas próprias, e não seria correto atribuir automaticamente todas elas a uma única causa.

O efeito político, entretanto, é concreto: a chapa perde nomes que poderiam contribuir para a votação coletiva e para a mobilização de diferentes segmentos do eleitorado. No sistema proporcional, a votação dos candidatos e da legenda influencia a distribuição das cadeiras. Por isso, a saída de nomes competitivos pode alterar as perspectivas eleitorais de todo o grupo.

O PSDB ainda conta com candidatos como o deputado federal Professor Alcides e Adair, conhecido como Vovô do Jeep. A presença desses nomes, porém, não elimina o desafio de reorganizar uma chapa que sofreu baixas importantes durante o processo eleitoral.

A pergunta que fica é se o partido conseguirá reunir votos suficientes para manter uma representação expressiva na Câmara dos Deputados ou se terá de lidar com uma presença parlamentar ainda menor. A situação do PSDB não deve ser tratada apenas como uma dificuldade circunstancial de campanha.

Partidos políticos dependem de mais do que lideranças conhecidas. Precisam de militância, organização, renovação de quadros, recursos, alianças e perspectivas de participação no poder. Quando esses elementos começam a se enfraquecer simultaneamente, a reconstrução tende a se tornar mais complexa.

Em Goiás, o PSDB precisa enfrentar uma questão que vai além da quantidade de votos que Marconi Perillo conseguirá obter em 2026: como recuperar a capacidade de atrair candidatos que enxerguem na legenda uma oportunidade de crescimento político?

A saída de nomes conhecidos pode alimentar um ciclo de desconfiança. Candidatos deixam a disputa, a chapa perde força, os aliados passam a reconsiderar suas estratégias e a dificuldade de atrair novos quadros aumenta. É um processo que não se resolve apenas com discursos sobre o passado ou com a lembrança de antigas vitórias.

A história do PSDB goiano é relevante e não pode ser apagada por uma sequência de derrotas. Mas a memória de um período de hegemonia não substitui a necessidade de construir uma alternativa para o presente. A eleição de 2026 poderá oferecer novos elementos para avaliar a dimensão desse processo.

O resultado da disputa federal em Goiás, em particular, ajudará a mostrar se o partido ainda conserva uma estrutura eleitoral capaz de se sustentar ou se precisará rever profundamente sua organização. Até lá, a imagem do barco tucano perdendo passageiros continuará a alimentar os bastidores.

Ou do tucano não conseguindo voar como antes. E a pergunta do título permanece: quem será o último a sair do PSDB para apagar a luz? Talvez a questão mais importante, contudo, seja outra: haverá alguém capaz de convencer os que ainda permanecem de que vale a pena continuar com as luzes acesas?

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