Fúria nos aeroportos
22 setembro 2026 às 15h55

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim
Existe um fenômeno curioso que a sociologia ainda não nomeou com o rigor necessário, mas que qualquer comissário de bordo diagnostica pelo olhar: a descompressão instantânea do bom senso a dez mil metros de altura. O indivíduo compra uma passagem promocional na classe econômica, mas, no exato milésimo em que cruza a porta da aeronave, sofre uma epifania alucinatória. Ele se convence de que não adquiriu um bilhete de transporte público coletivo com asas, mas sim a escritura definitiva e irrevogável do espaço aéreo.
Um avião comercial, afinal, deveria ser um reduto de protocolos rígidos. Há regras milimetricamente calculadas para ligar as turbinas, conferir os flaps e calcular o peso e balanceamento. Mas nada disso resiste à soberania do passageiro ferido em sua dignidade cósmica pelo temido assento do meio. Espremido entre dois desconhecidos, ele não enxerga um mero fato logístico da aviação civil. Ele vê uma conspiração pessoal, urdida por diretores de companhia aérea em conluio com o inferno, para testar os limites de sua paciência aristocrática.
O problema é que o delírio de onipotência não nasce apenas nas nuvens; ele desaba com força total nos saguões de terra firme, onde a aviação comercial revela sua faceta mais desumana. Basta que o tempo feche, que a aeronave não possa pousar e que o voo seja cancelado para que a caldeira exploda. De um lado, o comandante, um profissional experiente, calejado o suficiente para saber que a segurança e os manuais técnicos não são negociáveis para agradar passageiros afobados e assim, busca tomar a decisão mais prudente.
Do outro lado, porém, instala-se o verdadeiro calvário institucional. Quem já presenciou a madrugada de Guarulhos, o maior movimentado aeroporto do pais, conhece o cenário de terra de ninguém: voos cancelados, crianças pequenas chorando de exaustão, carrinhos de bebê amontoados e, no lugar de assistência ou de uma satisfação coerente, o silêncio burocrático e a omissão absoluta da companhia aérea. É o caldo de cultura perfeito para a histeria coletiva.
Foi o que aconteceu naquele episódio que viralizou certo dia nas redes: um pai de família, esmagado pela vulnerabilidade da cena e pela falta total de respostas, rompeu a barreira da civilidade. Entrou em um surto de desespero descontrolado, invadiu os balcões da cia aérea, agrediu funcionários e saiu quebrando os terminais de autoatendimento.
Não se trata aqui de justificar o vandalismo ou a agressão que são indefensáveis, mas de expor o contraste dramático dessa bomba-relógio. Na fila, o coro de impropérios inadequados despeja toneladas de ódio sobre os funcionários do atendimento.
E o atendente, coitado, tem que engolir tudo seco, sorrindo amarelo, porque foi treinado para servir de para-raios de uma incompetência sistêmica que ele mesmo não tem como resolver.
Diante da disparada vertiginosa de tumultos e agressões que vêm transformando os voos e aeroportos em arenas de UFC, a ANAC resolveu agir. No dia 14 de setembro, entrou em vigor a Resolução nº 800/2026, trazendo sanções severas com direito a suspensão de embarque por até um ano e multas pesadas para quem perder a linha a bordo.
Pobre ANAC, achando que uma canetada de gabinete vai moralizar os ânimos de uma sociedade à beira de um ataque de nervos. Torçamos para que funcione, afinal, a segurança de um voo não depende apenas de engenharia aeronáutica e flaps bem calibrados; exige, sobretudo, que o fator humano recupere o mínimo de civilidade antes de fechar a porta da cabine.
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