Os Segredos do Mercado del Puerto
03 agosto 2026 às 18h09

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim
Ao desembarcar em Montevidéu, fui inevitavelmente arrastado por um daqueles pontos que figuram no topo de dez entre dez guias de viagem: o Mercado del Puerto. É um destino praticamente obrigatório para quem pisa na capital uruguaia. A promessa é simples e irresistível: render-se ao aroma de brasa, saborear um bom entrecôte preparado no ponto certo e vivenciar a atmosfera vibrante da cidade. O que poderia dar errado? Pois bem: nada deu errado, mas a verdadeira viagem só começou quando eu resolvi olhar para onde ninguém olhava.
Após o almoço, decidi caminhar sem pressa para conhecer melhor o local. O mercado hoje é um território completamente turistificado: um labirinto onde se repetem parrilladas atrás de parrilladas, entrecruzadas com tiendas repletas de souvenirs por todos os lados. Tudo pensado para atrair o turista e mexer, claro, no seu bolso.
Foi justamente nessa caminhada por esse espaço desenhado para o consumo que decidi erguer os olhos para o teto, um gesto simples que, arrisco dizer, quase nenhum turista costuma fazer, entretido demais com a comida e as compras.
Foi ali que o Mercado del Puerto de 1868 resolveu se revelar por inteiro.

Abaixo do burburinho dos visitantes, o teto guardava uma joia intacta da engenharia do século XIX: uma impressionante estrutura metálica original, repleta de arabescos e rebites, inteiramente fabricada em Liverpool, na Inglaterra.
Sim, a mesma Liverpool dos Beatles! E ali, sob aquele rendilhado de ferro que remete à elegância da Torre Eiffel ou às antigas estações de metrô de Londres, não pude deixar de cantarolar mentalmente um verso de Yellow Submarine. Como uma engenharia daquelas veio parar ali, tão perto de nós, na capital uruguaia?
O local, que nasceu para ser um simples mercado de provimento de alimentos da cidade, onde se comprava frutas, verduras e carnes do dia a dia, perdeu completamente esse sentido original para virar o templo gastronômico de hoje. Mas a memória viva da arquitetura vitoriana continuava lá, firme, sustentando o tempo.
E quando peguei o celular para fotografar aquele rendilhado de ferro, veio a surpresa principal.
Procurando ângulos entre a estrutura, eis que me deparo com um relógio magnífico no alto da cúpula central. Não era um relógio qualquer; era uma preciosidade de 1897, trazida de Liverpool pela tradicional casa Paganini, a mesma responsável pelo relógio da histórica Iglesia Matriz de Montevidéu. Um gigante mecânico de engrenagens de aço, cordas e caixa de madeira de carvalho, coroado por um sino de bronze.
Descobri que até o silêncio daquele relógio tinha história. Na década de 1980, pelo desgaste natural e o rompimento de uma corda de aço, o maquinário travou. Adeus, relógio. Ficou parado por mais de dez longos anos, esquecido no topo do mercado. Foi só em 1996 que a administração encomendou o reparo a um mestre relojoeiro artesanal.
Após uma semana de restauração meticulosa, o tempo voltou a correr sob os aplausos entusiasmados dos comerciantes locais.
O detalhe mais poético? Trata-se de uma peça mecânica antiga que recusa a pressa do mundo digital: exige que alguém suba até a cúpula e lhe dê corda manualmente a cada cinco dias. Um verdadeiro ritual humano de resistência ao tempo.
Eu confesso que não ouvi o badalar do sino durante a minha visita. Mas saí do Mercado del Puerto com a certeza de que a melhor parte da viagem não estava no cardápio nem nas vitrines de souvenirs.
Se você for a Montevidéu, vá pelas carnes, claro. Mas faça a si mesmo um favor: na hora de andar pelo mercado, olhe para cima. O tempo e a história continuam lá, pulsando em engrenagens inglesas no coração da América Latina.

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