Ycarim Melgaço é escritor e ensaísta, autor de História das Viagens e do Turismo e outras obras. É doutor em Geografia  pela USP

Num dia desses, embarcando no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, passei pelo X-ray, como acontece hoje nos aeroportos do mundo inteiro. Mas, dessa vez, como cheguei com tempo de sobra, resolvi prestar atenção aos detalhes daquele ritual.

Já era noite. Na minha frente, uma família tentava organizar crianças, mochilas, sacolas, mamadeiras, casacos, brinquedos e uma quantidade de tranqueiras capaz de desafiar qualquer regra de bagagem das companhias aéreas. Enquanto os pais ainda esvaziavam os bolsos, uma das crianças já tentava recuperar alguma coisa das bandejas. Era uma pequena linha de montagem do desespero.

Mais adiante, um senhor engravatado, com aparência de executivo em fim de jornada, retirava o relógio, o celular e o computador. Pelo semblante cansado, parecia ter enfrentado um dia inteiro de reuniões para, no final, ainda precisar provar a uma máquina que não representava uma ameaça à aviação civil.

Uso X-ray em inglês de propósito. A expressão parece moderna, tecnológica e um pouco ameaçadora. Mas, se alguém não gostar do estrangeirismo, pode traduzir por raio X. Não há problema. Em qualquer idioma, o ritual continua igualmente desagradável.

A fila avançava devagar. Ali estava uma pequena amostra da humanidade: executivos, mochileiros, famílias, brasileiros e estrangeiros, gente falando línguas diferentes e vestindo roupas das mais variadas culturas.

Diante do X-ray, porém, desaparecem as diferenças. Não importa a nacionalidade, o idioma, a profissão, a religião ou o saldo bancário. O portal eletrônico talvez seja a instituição mais igualitária do aeroporto: todos são suspeitos até que a máquina prove o contrário.

Enquanto esperava, comecei a fazer mentalmente o inventário dos meus possíveis delitos: uma garrafa de água esquecida, um frasco maior do que o permitido, uma tesourinha perdida ou algum objeto misterioso abandonado no fundo da mochila há três viagens.

Até atravessar a fiscalização, eu também era, por precaução, uma potencial bomba ambulante.

Quando chegou a minha vez, começou a coreografia da submissão aeroportuária.

— Tem computador na mochila?

Tenho. E lá fui eu retirá-lo.

Depois vieram o tablet, o celular, o relógio e tudo o que pudesse despertar a sensibilidade daquele portal. As moedas praticamente desapareceram dos bolsos, mas também já tiveram seus dias de glória nas bandejas dos aeroportos.

O meu maior dilema era o cinto. Olhei para a fivela e pensei: se eu atravessasse o detector com aquilo e a máquina apitasse, todos se virariam para descobrir quem era o suspeito da vez. Melhor retirar logo.

O problema é quando a calça está um pouco larga. Nesse caso, o passageiro precisa escolher entre a segurança da aviação e a própria dignidade. Por prudência, retirei o cinto e segurei as calças. No X-ray, todo cuidado é pouco. Uma distração e o passageiro pode ser absolvido pelo portal, mas devolvido à sociedade de cueca.

Tudo foi parar naquelas bandejas de plástico que passam diariamente pelas mãos de meio mundo. O equipamento encontra metais, fios e objetos suspeitos, mas, ao que parece, ainda não foi programado para detectar vírus, bactérias ou qualquer outra coisa que esteja passeando tranquilamente pela superfície das bandejas. Melhor não pensar muito nisso. Viajar também exige fé.

Em alguns aeroportos, o protocolo ganha contornos de humilhação coletiva: é preciso tirar os sapatos. Fica todo mundo ali, do executivo engravatado ao mochileiro profissional, equilibrando-se numa perna só e tentando encostar o mínimo possível os pés naquele chão pisoteado pelo planeta inteiro.

Em outra viagem, no aeroporto de Goiânia, vi uma funcionária entregar a uma passageira uma proteção descartável para os pés. Achei aquilo um pequeno gesto de sensatez sanitária. Afinal, naquele chão passam diariamente sapatos e pés vindos de toda parte. O X-ray procura bombas e metais, mas alguém em Goiânia se lembrou de uma ameaça bem menos cinematográfica: a contaminação.

Nos Estados Unidos, a inspeção ganha requintes tecnológicos. Entramos no escâner corporal, levantamos os braços e permanecemos imóveis, como um réu que finalmente decidiu se render. Durante alguns segundos, tenho a impressão de que a máquina examina não apenas o corpo e as roupas, mas também o caráter, a árvore genealógica e os planos para o restante da viagem.

É um protocolo de segurança. Necessário, sem dúvida. Chato para caramba, também.

Atravessei o portal.

A máquina não apitou.

Pronto. Sobrevivi. Fui examinado, aprovado e oficialmente devolvido à sociedade. Recolhi o computador, o relógio e o celular, enfiei tudo de qualquer jeito na mochila e tentei recolocar o cinto sem perder as calças.

O portal me absolveu.

Como ainda faltava bastante tempo para o voo, sentei-me numa lanchonete. O Aeroporto de Congonhas está em obras e, pelo tamanho da intervenção e pela multiplicação das lojas, aquilo ainda vai virar um baita shopping center com uma pista de pouso no quintal.

Abri o computador e resolvi escrever esta crônica. Afinal, quando foi que viajar de avião passou a exigir todo esse ritual?

A resposta nos leva ao final da década de 1960 e ao início dos anos 1970. Em plena Guerra Fria, os sequestros de aviões tornaram-se frequentes. Aeronaves eram desviadas de suas rotas, passageiros e tripulantes eram ameaçados e alguns episódios envolviam bombas, explosivos e organizações terroristas.

Muitos aviões norte-americanos foram desviados para Cuba. Em 1968, doze aeronaves comerciais dos Estados Unidos acabaram levadas para a ilha. Somente em janeiro de 1969, foram oito. Voar passou a conviver com o medo de que alguém se levantasse durante a viagem e anunciasse que o destino havia mudado e não por decisão da companhia aérea.

Os governos precisaram reagir. Nos Estados Unidos, a autoridade de aviação determinou que, a partir de 5 de janeiro de 1973, os passageiros passassem por detectores de metais e as bagagens de mão fossem inspecionadas. No ano seguinte, a Organização da Aviação Civil Internacional adotou padrões mundiais de proteção contra atos de interferência ilícita.

O passageiro ganhou mais segurança. Em troca, ganhou também a fila, as bandejas, o detector, a retirada do cinto e, dependendo do aeroporto, a obrigação de desfilar de meias diante de desconhecidos.

Tudo tem um preço.

Quando nos lembramos dos aviões sequestrados, das bombas levadas a bordo e dos atentados que transformaram aeronaves em armas, entendemos que o X-ray não nasceu apenas do prazer burocrático de atormentar passageiros. O protocolo cobra seu preço em minutos, paciência, privacidade e algum constrangimento.

É desagradável? Muito. É invasivo? Um pouco. É extremamente chato? Sem dúvida.

Mas o argumento da segurança é irrefutável.

Ouço então o aviso do embarque. Fecho o computador, confiro se o cinto está no lugar e sigo para o portão.

Até a próxima viagem.

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