Morre aos 95 anos Zuenir Ventura, um dos principais nomes do jornalismo brasileiro
22 setembro 2026 às 15h26

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O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, 22, aos 95 anos, após enfrentar uma pneumonia. Com mais de seis décadas dedicadas ao jornalismo, ele deixa uma produção que percorreu alguns dos principais acontecimentos políticos e sociais da história recente brasileira.
A Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição da qual fazia parte desde 2014, confirmou a morte. Zuenir estava em casa e, segundo familiares, morreu enquanto dormia. O velório está previsto para esta quarta-feira, 23, na sede da ABL. Depois, o corpo será sepultado no mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e dois filhos: Mauro Ventura, que seguiu a carreira do pai no jornalismo, e Elisa Ventura, editora.
Das funções nos bastidores às grandes reportagens
Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, Zuenir percorreu diferentes caminhos antes de fazer do jornalismo sua profissão. Trabalhou como pintor de paredes, office-boy e arquivista, jogou basquete e também passou pelas salas de aula como professor.
Durante a formação acadêmica, conviveu com professores como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. Foi também por meio do ambiente universitário que surgiram oportunidades que o aproximaram das redações.
Uma delas veio na “Tribuna da Imprensa”. Zuenir começou trabalhando no arquivo do jornal e, a partir dali, avançou para a reportagem. Nas décadas seguintes, acompanhou acontecimentos que ajudaram a definir a vida política, cultural e social brasileira.
A capacidade de transformar a apuração jornalística em narrativas mais extensas acabou se tornando uma das características de sua carreira. Parte desse trabalho chegou aos livros e fez com que Zuenir se tornasse conhecido também fora das redações.
1968 pelas lentes de Zuenir
Entre seus livros mais conhecidos está “1968 – O Ano que Não Terminou”, lançado em 1988. Na obra, Zuenir revisitou os acontecimentos de duas décadas antes, período marcado no Brasil pelo endurecimento da ditadura militar e, em diferentes partes do mundo, por protestos, mobilizações políticas e mudanças culturais.
O livro se tornou uma das obras mais conhecidas sobre aquele período e posteriormente serviu como uma das inspirações para a minissérie “Anos Rebeldes”.
Pouco depois, outro episódio histórico levaria Zuenir a uma das coberturas mais marcantes de sua vida.
Em 1989, o jornalista viajou para o Acre para acompanhar as investigações sobre o assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes. A apuração deu origem a uma série de reportagens, mas também teve consequências que ultrapassaram o trabalho profissional.
Durante a cobertura, Zuenir conheceu Genésio, adolescente que era testemunha do caso e vivia sob ameaça. Diante da situação, o jornalista assumiu a tutela do garoto, que passou a viver com sua família até completar 18 anos.
Um Rio dividido
A violência urbana e a desigualdade voltariam ao centro do trabalho de Zuenir alguns anos depois. Após a chacina de Vigário Geral, que deixou 21 mortos no Rio de Janeiro em 1993, o jornalista passou a acompanhar de perto a realidade da comunidade.
A experiência deu origem a “Cidade Partida”, publicado em 1994. O livro aborda as distâncias sociais existentes dentro do Rio de Janeiro e discute violência, exclusão e as relações entre diferentes partes da cidade.
O trabalho recebeu o Prêmio Jabuti e se consolidou entre os títulos mais conhecidos da carreira do jornalista.
Zuenir também foi vencedor do Prêmio Esso e do Prêmio Vladimir Herzog. Em 2008, recebeu reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) por sua contribuição à defesa dos direitos humanos no Brasil.
Da literatura ao audiovisual
A produção de Zuenir não ficou restrita ao jornalismo impresso e aos livros. O escritor também participou de projetos audiovisuais.
Em 2000, esteve envolvido na codireção de “Um Dia Qualquer”. Três anos depois, assinou o roteiro do documentário “Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje”, dirigido por Izabel Jaguaribe.
Em outubro de 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Zuenir passou a ocupar a cadeira número 32, anteriormente pertencente ao escritor Ariano Suassuna.
A entrada na ABL representou mais um capítulo de uma trajetória construída entre redações, livros, salas de aula e projetos audiovisuais. Aos 95 anos, Zuenir deixa uma obra diretamente ligada à tentativa de registrar e compreender as transformações políticas, sociais e culturais vividas pelo Brasil nas últimas décadas.
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