Mary del Priore lança livro sobre mestiçagem e é atacada nas redes sociais. Por que a Universidade não a defende?
19 setembro 2026 às 23h34

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Lembro-me que, na Escola Gercina Borges Teixeira, na qual cursei o primário — em Porangatu, no Norte de Goiás —, ouvi, pela primeira vez, a palavra “moreno”. Dirigida a mim. Até então, eu não sabia do que se tratava. Ao voltar para casa, perguntei ao meu pai, Raul, e à minha mãe, a professora Frutuoza (Zinha): “O que é ‘moreno’? Sou ‘moreno’?” Os dois ficaram intrigados e, antes de responder, quiseram saber as razões da indagação.
Contei que um colega, branco, havia dito que eu era “moreno”. Desde aquele dia, ganhei o carimbo de “moreno”, o que, atesto, não me incomodou. Logo esqueci da história e aceitei que era mesmo “moreno”, o que acabou “confirmado” pelos meus pais.
A minha família era assim: pai branco, de olhos verdes, e mãe “parda”, de olhos escuros. Raul, descendente de sírio-libaneses, segundo a história familiar. Minha bisavó materna, Frutuoza Martins da Cunha, era negra. Lembro-me de, menino, descaroçar algodão e cardar para ela fiar. Era um prazer conviver com Tuosa, que eu chamava de avó, notadamente porque minha avó materna, Margarida, havia morrido, de câncer no útero, no mesmo ano em que nasci, em 1961. Tuosa é a avó que conheci e eu amava, assim como amava seu filho Pedro, irmão de Margarida, que eu chamava de avô.
Nós, os cinco meninos, sabíamos que éramos pardos — “morenos”, na época —, mas, por termos cabelos louros, principalmente Eliane (ela ficava irritada quando ouvia a música “Cabelo loiro, vai lá em casa passear/ Vai, vai, cabelo loiro/ Vai acabar de me matar”), éramos vistos, por vezes, como “brancos”. Nunca fomos discriminados, ao menos, quando criança, não percebi nada de desagradável. Nem mesmo quando o coleguinha, que deveria ter entre 7 e 10 anos, disse que eu era “moreno”.

Há pouco tempo, uma jovem do Censo do IBGE perguntou se eu era “branco”, “pardo” ou “negro”. Nesta ordem, com negro por último. Disse, de imediato, “pardo”. Ela olhou e ponderou: “Não se considera branco?” Respondi que não. Por mim e por ter me lembrado de Tuosa? Talvez as duas cousas.
O Globo relata que mensagens davam a entender que a obra não deveria ter vindo à luz, que a mestiçagem não se prestaria mais a ser objeto de pesquisas acadêmicas e que os autores estariam protegidos pelo pacto de branquitude
No mundo dos lugares de fala, qual é, afinal, o meu lugar? A fala do “pardo”, e mais próximo dos negros do que dos brancos (tanto que apoio integralmente as cotas). Quando estive na Europa, em 2010, as pessoas entregavam o celular para minha mulher, Candice, fazer fotos delas, e me ignoravam solenemente.
Numa loja do Barcelona, na Espanha, e na Livraria Fnac, em Lisboa, no Chiado, dois atendentes, depois de me observarem com atenção, perguntaram, apreensivos: “O sr. é árabe?” Respondi: “brasileiro”. Percebi uma leve sensação de alívio. O pardo que “assustava” era outro: o da herança árabe.
Ao contar as histórias acima para uma professora universitária, não vi “escândalo” em seus olhos. Mas me advertiu: “Cuidado com seu pardismo”. Quis saber: o pardo é um pária? “Não foi isto que eu quis dizer”, respondeu. Mas nada acrescentou.
Percebi que, de alguma maneira, o meu lugar de fala é o “silêncio”. Corro algum tipo de risco? Não sei qual, digo com sinceridade. Mas renunciar à minha cor, parda, seria o mesmo que renunciar à minha bisavó Tuosa, o que nunca farei. É por ela e por mim que estou alinhado com as lutas dos pretos.

Sou agnóstico, mas herdei de Tuosa superstições que vivem fortemente em mim. Não posso ver uma sandália virada que desviro na hora. Porque pode morrer alguém da família se continuar virada.
Mestiçagem, racismo e violência
Por que lembrei da minha história na infância, sobretudo de minha bisavó Tuosa, uma mulher forte e firme? Eu adorava seus terços, principalmente por causa do biscoito amor-perfeito e do bolo brevidade — ambos madeleines de meus tempos de menino magrelo e apaixonado por futebol (adorava meu kichute e minha bola dente-de-leite).
Grupos de poder nas universidades querem controlar ideologicamente o que pode ser pesquisado e discutido. Meus colegas se queixam disso o tempo todo. Muitos acadêmicos ficam em silêncio por medo das redes sociais, diz del Priore
A lembrança tem a ver com a reportagem “Mary del Priore comenta ataques por livro sobre mestiçagem: ‘É gravíssimo. Meus colegas se queixam disso o tempo todo’”, escrita por Ruan de Sousa Gabriel e publicada em “O Globo” (quarta-feira, 16).
Os historiadores Mary del Priore e Gian Melo — professor da Universidade Federal de Alagoas — lançaram, recentemente, o livro “História das Mestiçagens no Brasil” (Editora Unesp). A obra contém 17 ensaios de pesquisadores do tema. (“O Globo” erra e acrescenta um “s” — “Histórias”, e não o correto, “História”.)
De imediato, Mary del Piore começou a ser atacada nas redes sociais. Ruan Sousa conta que “as mensagens davam a entender que a obra não deveria ter vindo à luz, que a mestiçagem não se prestaria mais a ser objeto de pesquisas acadêmicas e que os autores estariam protegidos pelo ‘pacto de branquitude’”.
Para lançar o livro na 28ª Bienal Internacional do Livro, que terminou no dia 13 deste mês, Mary del Priore pediu proteção à Unesp, que contratou seguranças para protegê-la na sessões de autógrafos.

Entrevistada pelo “Globo”, Mary del Priore tanto lamenta quanto denuncias as agressões: “É gravíssimo — grupos de poder dentro das universidades querem controlar ideologicamente o que pode ser pesquisado e discutido. Meus colegas, em faculdades Brasil afora, se queixam disso o tempo todo. Muitos acadêmicos ficam em silêncio por medo dos alunos e das redes sociais. (…) Me impressionou o silêncio da Universidade a respeito desse episódio de intolerância”.
Em tempos de revisões históricas sobre negritude, branquitude e pardismo, compreender as múltiplas raízes do Brasil é algo essencial para pensarmos no agora e no amanhã, com mais equidade, respeito e pluralidade, dizem historiadores
Ressalve-se que a Fundação Editora Unesp condenou, em nota, “qualquer tentativa de silenciamento” e solidarizou-se com Mary del Priore.
Com 567 páginas, “História das Mestiçagens no Brasil” é uma pesquisa alentada, reabrindo a discussão de um tema árido e complexo. É livro sério — não militante. Sobretudo, não faz nenhuma apologia do racismo; pelo contrário, o combate.
Na apresentação, Mary del Priore e Gian Melo, organizadores do livro, assinalam: “Em tempos de revisões históricas e debates sobre negritude, branquitude e pardismo, compreender as múltiplas raízes do Brasil é algo essencial para pensarmos no agora e no amanhã, com mais equidade, respeito e pluralidade”.
Um professor, autor de um dos ensaios do livro, “foi alvo de insultos homofóbicos”. Um colega disse que o livro era uma “negação do racismo”. O mestre, de uma universidade federal, decidiu se manter anônimo, mas disse ao Globo”: “A incapacidade de admitir o contraditório, o argumento divergente e o dissenso” prejudica “a luta importante, legítima e necessária contra o racismo”.
Por que o livro está causando tanto desconforto? Mary del Priore acredita que a razão é a afirmação de “que a mestiçagem não resulta unicamente do estupro sistemático de mulheres escravizadas por seus senhores, mas também de encontros entre pessoas pobres, das mais diversas origens, que formaram ‘famílias plurais’, preocupadas com a ascensão social e a libertação dos filhos que nasciam no cativeiro”.
Autora de livros importantes, com pesquisas agudas e vazados num tom em geral coloquial — daí ter se tornado best-seller —, sublinha: “É importante deixar claro que nós não celebramos o branqueamento nem o mestiço em detrimento do preto. Só queremos mostrar”, por meio “de documentos que, desde o primeiro censo do Império, em 1872, o pardo já aparece como maioria da população brasileira”.
Gian Melo corrobora: “Ninguém quer recriar o mito da democracia racial”. O mestre sugere que é necessário “distinguir entre a ‘ ideologia da mestiçagem’ e a mestiçagem como fenômeno popular. A primeira foi uma ideologia de Estado que realmente visava a embranquecer a população brasileira. A outra é um fenômeno popular indissociável da cultura nacional”.
O professor da Ufal frisa que “em nenhum momento” o livro nega “a violência e o racismo. Ninguém quer reviver a ideologia da mestiçagem, que é danosa e cujas consequências sofremos até hoje”.
“A história da mestiçagem”, frisa Gian Melo, “é uma história de violência, de imposição do poder, mas também de adequações. (…) A mestiçagem não tem a ver só com reprodução sexual, mas com a cultura como um todo: alimentação, música, religiosidade, jeitos de falar. A mestiçagem marcou tanto o Brasil que não dá para dizer o que é europeu, africano ou indígena”. O autor não menciona, ao menos ao jornal, árabes, japoneses.


