Em tempos de conflitos acerbos, as avaliações sobre (supostos) adversários são peremptórias e quase nunca precisas. São mais ataques do que interpretações. Recomenda-se calma, mas o “medicamento” mais usado é raiva.

Durante a semana, acompanhei os “ataques” à repórter Malu Gaspar, de “O Globo”. Aqui e ali, uma defesa, sempre sucinta e tímida. No geral, “críticas” a rodo, notadamente nos espaços de militância da esquerda.

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Sede do Supremo Tribunal Federal: lugar de impuros ou de seres normais? | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

De acordo com vários críticos — mais militantes —, Malu Gaspar é “fascista” e “bolsonarista”. Pelo WhatsApp, recebi mensagens tanto de amigos quanto de conhecidos “garantindo” que Malu Gaspar é “direitista juramentada”.

Malu Gaspar é uma grande repórter. Por isso, dependendo do momento, tanto a direita quanto a esquerda a atacam. O jornalista que publica fatos desabonadores a respeito de certos políticos não tem mesmo como agradar todo mundo.

Um pesquisador me disse que tem “certeza” de que Malu Gaspar faz o jogo da Faria Lima (do capital financeiro) e dos donos do Grupo Globo — a família Marinho.

O que há mesmo de verdade no que dizem de Malu Gaspar? Nada, ou quase nada.

Malu Gaspar é, de fato, uma grande repórter. Por isso, dependendo do momento, tanto a direita quanto a esquerda a atacam.

Poema de Emily Dickinson sobre a verdade

Porque o repórter que publica fatos desabonadores a respeito de certos políticos, empresários e magistrados não tem mesmo como agradar todo mundo. Sempre alguém, descontente, vai reagir com pedras.

As redes sociais e sites veicularam, sem dó nem piedade, que as fontes de Malu Gaspar são o perito criminal João Cláudio Nabas e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

Será que são mesmo? E, se forem, o que tem de errado? Repórteres investigativos, se ficarem selecionando fontes, dificilmente publicarão matérias exclusivas, de amplo espectro e impacto.

Não é função de repórter defender fontes. Malu Gaspar estaria defendendo André Mendonça? Seu problema é outro: parece acreditar no jornalismo justiceiro, aquele que, assertivo, contribuirá para a purificação da sociedade

Ademais, João Cláudio Nabas e André Mendonça, como fontes, são muito bem informados. Portanto, qualquer repórter, desde que não ideologizado ao extremo, terá informações exclusivas se cultivá-los. (Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, ministros do STF, são, por certo, outras grandes fontes.)

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Daniel Vorcaro: o banqueiro é um retrato do agressivo capitalismo brasileiro? | Foto: Divulgação

Aos ouvir as fontes, Malu Gaspar submete-se ao que dizem, sem um escrutínio detido, com o objetivo de verificar se o que informam é verdadeiro? Pelo menos até agora, a repórter não foi desmentida de maneira categórica. Sinal de que não publicou informações falsas.

Ressalve-se que não é função de repórter defender suas fontes. Elas que se defendam. Malu Gaspar estaria defendendo André Mendonça? Recomenda-se que seus críticos e leitores fiquem de olho nisto.

O problema de Malu Gaspar, e não só dela, é outro, o que não tem sido apontado. A jornalista parece acreditar no jornalismo justiceiro, aquele que, sendo assertivo, contribuirá para “purificar” a sociedade.

O que falta ao jornalismo brasileiro, e não se está falando de Malu Gaspar, é mais nuance — menos pressa em, mesmo com informações “verdadeiras”, condenar e crucificar indivíduos. Na busca de justiça — de se criar uma sociedade dos puros —, a imprensa acaba por gestar injustiças.

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André Mendonça e Alexandre de Moraes: guerra declarada no Supremo Tribunal Federal | Fotos: Divulgação

A onda moralista empolga a sociedade, sugere que alguém, ao menos na imprensa, está fazendo a “coisa certa”. Mas, adiante, se poderá concluir que as “provas”, apresentadas como indícios fortes — até como verdade irretorquível —, tinham escasso valor. Clamor popular às vezes tem pouco a ver com a questão factual.

Dois advogados e três repórteres dizem que o nome da garota de programa que saiu com Kássio Nunes é Maria Carolina. Um médico disse: o nome da garota é Amanda. Não soube explicar de onde extraiu a informação

(Por sinal, a condenação moral da corrupção, incrustada não apenas no setor público, passa ao largo de como funciona o capitalismo real, não o idealizado. Quem deve ganhar quantias vultosas? Só os banqueiros? Aposto que Balzac e Marx, se vivessem hoje, estampariam um sorriso largo no rosto ao ler que banqueiros estão cobrando “mais transparência”. Mesmo quem não se entusiasma com Lênin há de perceber algum valor numa de suas frases: o que é assaltar um banco perto de um banco. A frase é atribuída, erroneamente, a Brecht, inclusive por Ruy Castro.)

Uma palavrinha sobre o ministro Kássio Nunes. Com o apoio das redes sociais, a imprensa esbalda-se em contar, quase de maneira literária, que Daniel Vorcaro supostamente pagou uma garota de programa para uma escapada com o magistrado do Supremo Tribunal Federal.

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Flávio Bolsonaro e Lula da Silva: no olho do furacão | Fotos: Reproduções

Se a informação for verdadeira, Kássio Nunes cometeu um erro, sendo ministro do STF, ao aceitar o “presente” de Daniel Vorcaro. Se, insistindo, aceitou mesmo.

Mas é provável que o “suborno” — se foi isto mesmo — esteja chocando menos. O que está abalando mais os moralistas é o fato de Kássio Nunes Marques, um homem casado e católico, ter mantido um relacionamento, de alguns minutos ou horas, com uma garota de programa.

Há, possivelmente, quatro “condenações”. Primeiro, como homem casado religioso, Kássio Nunes “não” deveria ter saído com outra mulher. Ora, milhares de casados, entre homens e mulheres, saem com outros parceiros. O ministro não é exceção.

Segundo, o piauiense de 54 anos teria saído com uma mulher mais jovem, possivelmente com idade entre 20 e 30 anos. Condena-se: o “velho” não pode manter relacionamento com alguém abaixo de sua idade. Etarismo? Quem sabe.

Malu Gaspar: uma das mais notáveis repórteres de sua geração | Foto: Reprodução

Terceiro, a sexualidade é apresentada, com escracho, como “problema”. Há uma condenação conservadora do sexo, mas feita, digamos, por “progressistas”.

Quarto, a garota de programa — “prostituta” nas redes sociais — é quase apresentada como um ser “depravado”, sem direito de ganhar seu dinheiro, como outros profissionais. As redes, e inclusive advogados experimentados, como Wálter Fanganiello Maierovitch, especularam sobre seu nome.  O jurista disse que já se sabe quem é. Querem execrá-la publicamente? Mulheres são quase sempre vítimas de escracho.

Pelo WhatsApp, ao menos dois advogados e três repórteres me disseram que as iniciais de seu nome são M. C. (Seria Maria Carolina.) Não sei de onde tiram a informação. Um médico me disse: “O nome da garota é Amanda”. Quis saber de onde havia extraído o nome. Não soube explicar.

Retomando à questão de Malu Gaspar como repórter. Em defesa da democracia — porque o bolsonarismo é golpista, portanto antidemocrático —, o repórter ganha o direito de mentir ou de omitir a verdade? É válido expor a “verdade”, nua e crua, para “destruir” o sistema democrático e permitir que políticos antidemocráticos cheguem ao poder?

Há momentos de julgamento difícil, sobretudo quando se deve escolher entre civilização e barbárie. A filósofa Hannah Arendt postulava que julgar é crucial, notadamente em momentos decisivos, como agora.

O leitor, lendo o arrazoado, certamente perguntará: em nome do jornalismo, do bom jornalismo — o que não doura fatos —, Malu Gaspar estaria a serviço da barbárie, ou seja, do bolsonarismo? Não está, postulo. Mas vale, tanto ela quanto nós, refletir a respeito. A vida exige posição e escolhas. Que cada uma faça as suas — erradas ou certas.

A democracia é assim: tão fundamental quanto imperfeita. Porque permite, inclusive, que antidemocratas a usem para combatê-la e, até, destruí-la.