UFG e UNESCO lançam primeira Cátedra sediada em Goiás voltada a patrimônio, biodiversidade e cidadania
22 setembro 2026 às 13h07

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A Universidade Federal de Goiás (UFG), em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), inaugurou a Cátedra Saberes Patrimoniais, Biodiversidade e Cidadania, a primeira cátedra da UNESCO sediada em Goiás. A coordenação ficará a cargo da professora Izabela Tamaso, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, em parceria com a professora Ema Pires, da Universidade de Évora, em Portugal.
Em entrevista ao Jornal Opção, Izabela Tamaso explicou que a cátedra atuará em diálogo constante com instituições parceiras, pesquisadores da UFG, docentes de graduação e pós-graduação, além de técnicos administrativos, todos envolvidos na construção de projetos voltados a diferentes populações e territórios. Segundo ela, a iniciativa está centrada no Bioma Cerrado, com foco inicial na cidade de Goiás (reconhecida como patrimônio mundial) e na Chapada dos Veadeiros, considerada patrimônio natural pela UNESCO.
Além desses dois pontos, a coordenadora adiantou que o mapeamento de novas frentes de atuação já começou, incluindo populações indígenas, quilombolas, camponesas e urbanas de áreas periféricas.
De acordo com Tamaso, as atividades da cátedra giram em torno de três eixos principais: um inventário dos saberes patrimoniais das populações tradicionais, o levantamento dos fatores que ameaçam a preservação desses conhecimentos e a formulação de propostas colaborativas de intervenção. Por enquanto, a estrutura funciona de forma temporária em uma sala da Faculdade de Ciências Sociais, mas a expectativa é de que a cátedra conquiste, futuramente, um espaço próprio dentro da universidade.

Questionada sobre como pretende aproximar patrimônio cultural, biodiversidade e políticas públicas, a coordenadora fez questão de esclarecer um ponto conceitual: “A Cátedra entende que não há dicotomia entre natureza e cultura. Então, a Cátedra não visa aproximar patrimônio cultural de biodiversidade, até porque a gente entende que os saberes patrimoniais, eles são e só existem em relação à biodiversidade”. Por isso, o objetivo é mapear conhecimentos que, em sua própria constituição, já garantem a sustentabilidade dos territórios onde essas comunidades vivem. Esse mapeamento, segundo ela, deve gerar relatórios técnicos capazes de subsidiar políticas públicas voltadas à proteção dessas populações e de seus ambientes.
Quanto às comunidades que serão contempladas, Tamaso admitiu que esse recorte ainda está em construção, já que o projeto original submetido à UNESCO indicava apenas a cidade de Goiás e a Chapada dos Veadeiros como pontos certos de atuação. Um avanço recente, no entanto, já está confirmado: há cerca de 15 dias, a cátedra selou parceria com o Instituto Intercultural Indígena Takinahaky, da própria UFG, o que deve permitir a identificação dos primeiros territórios indígenas a serem trabalhados.
Sobre a produção de conhecimento, a coordenadora destacou que a cátedra vai priorizar os saberes das próprias populações parceiras em vez de se concentrar apenas em conhecimento científico sobre os patrimônios. “Embora o conhecimento produzido sobre os patrimônios importe, o nosso propósito na Cátedra é os saberes que são constitutivos dessas populações e que garantem a existência dessas populações nos ambientes nos quais elas vivem. Então, esse diálogo entre a universidade e os saberes dessas populações é onde a gente entende que é a riqueza da Cátedra”, afirmou.
Ainda segundo ela, serão as próprias comunidades que indicarão suas demandas e interesses, cabendo à cátedra atuar como mediadora entre esses saberes e as políticas públicas nacionais e internacionais.
Em relação ao planejamento futuro, a coordenadora revelou que a cátedra segue um plano de trabalho de quatro anos, com possibilidade de renovações ilimitadas, desde que as atividades continuem alinhadas à temática proposta. Apesar da chancela concedida pela UNESCO, ela explicou que a iniciativa não conta com recursos financeiros próprios, o que tem levado a equipe a submeter projetos a agências de fomento, processo que deve viabilizar o início efetivo das atividades apenas no próximo ano.
Está prevista também, na metade do cronograma, a criação de uma plataforma multimídia reunindo toda a produção da cátedra, incluindo conteúdos de interesse das populações parceiras, que também passarão a integrar formalmente a estrutura da iniciativa. “O que eu acho que é o diferencial e pode contribuir com a rede de cátedras da Unesco é propor uma cátedra que subverta um pouco a relação entre conhecimentos científicos e saberes e conhecimentos tradicionais”, resumiu Tamaso.
A solenidade de lançamento reuniu ainda outras autoridades. Damiane dos Santos, coordenadora de Projetos Estruturantes da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação, destacou a importância de iniciativas que “transpõem os muros” da rotina acadêmica, afirmando que “essa Cátedra, sem dúvidas, nos dá um quentinho no coração, já que reafirma a universidade como um espaço de formação gratuito, público, laico e de qualidade”.
A vice-prefeita de Goiânia, Cláudia Lira, relembrou uma operação que realizou na Chapada dos Veadeiros quando ainda atuava como policial militar e expressou o desejo de que “essa Cátedra se eternize e tenha uma vida longa, assim como o nosso Cerrado”. Já o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Deyvisson Gusmão, enviou mensagem gravada ressaltando que o próprio nome da cátedra aproxima a instituição desse grupo voltado à valorização dos saberes tradicionais, reforçando que o patrimônio funciona como um “pretexto para o acesso à cidadania”.
Representando a UNESCO no Brasil, a oficial de Projeto de Cultura Greciene Dantas apresentou a organização, fundada em 1945 e hoje presente em 194 países, lembrando que o Brasil conta atualmente com 39 cátedras UNESCO. Segundo ela, essas estruturas funcionam como “laboratórios de ideias e pontes de conhecimento entre a sociedade civil, instituições e políticas públicas”.
A diplomata Irina Feisthauer Silveira, da Comissão Nacional do Brasil para a UNESCO, destacou que o projeto nasceu de uma articulação iniciada em 2024 e representa um marco institucional para o estado. Já a reitora da UFG, Sandramara Matias Chaves, lembrou a recente criação da Secretaria de Arte e Cultura da universidade e afirmou que a cátedra chega para somar forças em um campo considerado essencial do ponto de vista social.
Estiveram presentes na cerimônia, a Reitora da Universidade Federal de Goiás, Profa. Sandramara Matias Chaves; a Diplomata e Primeira Secretária da Comissão Nacional do Brasil para a UNESCO no Itamaraty, Irina Feisthauer Silveira; a Oficial de Projeto de Cultura da UNESCO no Brasil, Greciene Dantas; a Diretora e Representante da UNESCO no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto; a Diretora do Camões – Centro Cultural Português em Brasília, Sandra Pires; a Embaixadora de Portugal no Brasil, Isabel Brilhante Pedrosa; a Vice-Prefeita de Goiânia, Coronel Cláudia Silva; a Coordenadora de Projetos Estruturantes da Coordenação-Geral de Extensão da Diretoria de Desenvolvimento Acadêmica da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação, Damiane dos Santos; a Secretária Municipal de Cultura da Cidade de Goiás, Goiandira Fátima Ortiz de Camargo;; o Secretário de Relações Internacionais da UFG, prof. Alexandre de Araujo Badim; a Diretora da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, profa. Camila Romero Lameirão; e a Titular da Cátedra e professora da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, profa. Izabela Maria Tamaso.


