Ediciones de la Flor, a editora da Argentina que publicou Mafalda por 55 anos, fecha as portas
22 setembro 2026 às 14h26

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O leitor já imaginou o fechamento das editoras José Olympio, Civilização Brasileira, Zahar, Record e Companhia das Letras? Seria dia de luto para a cultura brasileira. Editoras, afinal, são casas civilizatórias — buscam o local e o mundo para os olhos, cérebros e mãos dos que leem.
Pois a José Olympio da Argentina está fechando as portas. Trata-se, simplesmente, da Ediciones de la Flor, que, durante 55 anos, publicou Mafalda, do argentino Quino (Joaquín Salvador Lavado Tejón). A editora argentina está no mercado há 60 anos — mais de meio século.
O jornal argentino “Página 12” publicou no domingo, 21, a reportagem “Llora Mafalda: la editora sobrevivió a la censura, pero no a la crise atual” (“Chora Mafalda: a editora sobreviveu à censura, mas não à crise atual”), de Soledad Ferrari. A base de meu texto é a publicação do país hermano.

Durante a ditadura argentina — de 1976 a 1983 (com “saldo” de cerca de 30 mil mortos) —, apesar da censura rigorosa, a Ediciones de La Flor, de belo e sensível nome, sobreviveu. Escapou também das várias crises econômicas.
Além da crise econômica em si, que afasta os leitores das livrarias e provoca a insustentabilidade das editoras, outra questão afetou as finanças da Ediciones de la Flor. A obra de Quino, o criador de Mafalda, saiu da editora
(Em 2025, quando procurava o livro “Borges y Yo”, de Jay Parini, na livraria Hernández, na Avenida Corrientes, em Buenos Aires, conversei, por alguns minutos, com um professor. Entusiasta do presidente Lula da Silva, me disse: “A crise é tão permanente na Argentina, qualquer que seja o governo, que o nome do país deveria ser mudado para ‘Crise de la Argentina’. Rimos. Mas o mestre complementou: “Estou falando sério”. Desta vez, até um livreiro riu.)

Não há mais ditadura na Argentina. Mas o presidente Javier Milei, seguindo seu ideário libertário-liberal, não investe em cultura. As livrarias estão em crise e em 2026 três fecharam as portas: En el Viento Libros, El Atril (Tandil), AARS Libreros (La Librería de Ana). Espera-se que as outras resistam. Afinal, os argentinos são um povo resistente, de fibra.
A diretora da Ediciones de la Flor, Ana María Miller, a Kuki, de 82 anos, critica Milei: “O governo não tem nenhum respeito pela cultura e não aporta nada”. A “emergencia livrera” — a crise das livrarias — não comove o poderoso chefão.
“As livrarias estão em uma situação extrema — não se vende nada”, afirma Kuki Miller.
A Ediciones de la Flor, durante décadas, foi a casa de Mafalda, Quino e Roberto Fontanarrosa. Economista, Kuki Miller se sente “quase adormecida” (ou entorpecida). Mas, ante a gravidade da crise, não há como manter a editora.

“As liquidações das consignações” — nas livrarias — “mostram uma queda que já não admite eufemismos”. Kuki Miller relata que pediu às livrarias que devolvam os exemplares da Ediciones de la Flor.
Dois grupos de editoras dominam o mercado: as independentes bancam escritores e as companhias poderosas os levam. Um pequeno livreiro tampouco pode competir com uma cadeia de cinquenta locais (como Yenny)
Além da crise econômica em si, que afasta os leitores das livrarias e provoca a insustentabilidade das editoras, outra questão afetou as finanças da Ediciones de la Flor. A obra de Quino, o criador de Mafalda, saiu da editora.
A crise da Ediciones de la Flor começou, de maneira mais intensa, em 2025 — quando foi compelida a demitir funcionários.
Mesmo sendo uma editora importante, cujos livros vendiam bem, a Ediciones de la Flor nunca foi um investimento para se ganhar muito dinheiro — “la plata” —, e “sim uma forma de interferir na cultura”, assinala a experimentada empresária.
Kuki Miller diz que não teve e não tem coragem de vender a editora, por receio de que publiquem obras de baixa qualidade. “Estou muito orgulhosa do trabalho que fizemos.”

Na atualidade, de acordo com Kuki Miller, “dois grupos [de editoras] dominam o mercado: as independentes constroem (bancam) autores e, quando se instalam, as companhias poderosas os levam. Um pequeno livreiro tampouco pode competir com uma cadeia de cinquenta locais” (grandes são Yenny/El Ateneo e Cuspide. Há livrarias médias de alta qualidade, como Eterna Cadencia, Guadalquivir, Libros del Pasaje, Librería Hernández, Edipo).
(Há uma questão não abordada na reportagem do “Página 12”. Os livros na Argentina são muito caros, sobretudo aqueles que são importados de Barcelona e Madri, na Espanha. São precificados pelo euro, não pelo peso argentino.)
A crise econômica, enfatiza Kuki Miller, “expulsou compradores das livrarias. O preço do papel subiu e o livro digital mudou o mercado”. A editora diz que a inteligência artificial “representa um perigo para os direitos dos autores”.
A editora diz que Fontanarossa, Caloi, Maitena e Quino, que publicou, eram como “membros da família”. “Entrei na editora no mesmo ano que Mafalda” (o personagem símbolo da Argentina que nós brasileiros também amamos). Kuki Miller publicou a arte visceral, divertida, sutil e incisiva de Quino durante 55 anos.
“Quino era meu confidente”, afirma Kuki Miller. Os sobrinhos do cartunista retiraram Mafalda da Ediciones de la Flor. Ela diz que, se Quino pudesse se levantar do túmulo — ele morreu em 2020, aos 88 anos —, certamente os desautorizaria.
De acordo com o “Página 12”, Quino “era o autor que sustentava boa parte das vendas da editora”. Entretanto, Kuki Miller assegura que o fechamento da Ediciones de la Flor não tem a ver com a perda da obra do cartunista. “O determinante foi que já não podia seguir com a editora que eu queria. Não me permitiam a situação econômica, o mercado nem a estrutura editorial do momento.”
“Página 12” revela um aspecto interessante, o que mostra a importância de uma editora séria, que não pensa tão-somente no lucro imediato. Kuki Miller não descartou, durante anos, os livros que não eram vendidos — o encalhe. “Conservou milhares de exemplares e gastou uma fortuna em depósitos para mantê-los. Agora, títulos com mais de 50 anos estão sendo vendidos”, e com sucesso.
“Os pedidos, em vez de diminuir, aumentaram”, conta Kuki Miller. Por causa dos estoques velhos — verdadeiras relíquias, quem sabe. “Muitas pessoas buscam o livro que as marcou há 30 anos, que perderam ou nunca voltaram a encontrar.”
A Ediciones de la Flor vai continuar vendendo até outubro, depois as portas serão fechadas. “Não é uma liquidação qualquer: é um catálogo de uma casa que nunca tratou seus livros como descarte”, pontua o “Camisa 12”.
A editora foi fundada em 1966 por Daniel Divinsky, já falecido, Tito Finkelberg e Jorge Álvarez. Kuki Miller entrou na Ediciones de la Flor em 1970, mesmo ano em que a casa publicou a primeira história de Mafalda. Divinsky e Kuki Miller foram casados.
O primeiro livro publicado pela Ediciones de La Flor foi a antologia “Buenos Aires — De la Fundacion a la Augustia” (“Buenos Aires — Da Fundação à Angústia), com textos de Julio Cortázar, Rodolfo Walsh e David Viñas.
Em 1970, Kuki Miller uniu-se à editora e publicou o primeiro livro de tiras em quadrinhos de Mafalda, do grande Quino.


