Quando a campanha começar, o eleitor já terá mudado
02 agosto 2026 às 16h45

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Dentro de poucos dias, as convenções partidárias chegarão ao fim, as candidaturas serão oficializadas e começará, enfim, a campanha eleitoral. Como acontece a cada quatro anos, as ruas ganharão bandeiras, os programas eleitorais voltarão ao rádio e à televisão, as redes sociais serão inundadas por vídeos cuidadosamente produzidos e os candidatos iniciarão uma intensa maratona de agendas públicas.
A dúvida é se a política percebeu que o eleitor já não é o mesmo.
Durante muito tempo, bastava construir uma boa campanha. O marketing era capaz de transformar desconhecidos em favoritos, slogans se tornavam marcas eleitorais e promessas grandiosas encontravam espaço em um ambiente onde a informação circulava lentamente. Hoje, essa lógica parece cada vez menos suficiente.
O eleitor chega às eleições carregando uma experiência que nenhuma campanha consegue apagar: a memória.
Ela está nos vídeos antigos que podem ser recuperados em segundos, nas promessas esquecidas que reaparecem nas redes sociais, nas entrevistas contraditórias, nos compromissos não cumpridos e, principalmente, na sensação de que a política frequentemente promete mais do que entrega.
Isso muda completamente a disputa.
Não significa que campanhas deixaram de ser importantes. Elas continuam sendo fundamentais para apresentar propostas, confrontar projetos e permitir que a sociedade conheça quem pretende governá-la. O problema surge quando candidatos confundem campanha com espetáculo.
O eleitor não precisa de um político que descubra, em agosto, onde fica a feira da cidade. Também não espera que alguém apareça apenas durante o período eleitoral para entrar na fila do pastel, tomar café em uma padaria, vestir um capacete de obra ou percorrer bairros que permaneceram esquecidos durante anos. Esses gestos podem aproximar representantes da população, mas deixam de transmitir autenticidade quando acontecem apenas diante das câmeras.
Presença é diferente de aparição.
Também parece ter diminuído a disposição para acreditar em promessas sem explicação. Depois de tantas eleições, poucas pessoas ainda se impressionam quando um candidato afirma que resolverá todos os problemas da saúde, acabará com a violência, reduzirá impostos, melhorará a educação e fará grandes obras. O eleitor continua desejando mudanças, mas passou a exigir algo que antes aparecia com menos frequência no debate público: credibilidade.
Em Goiás, essa transformação acontece diante de um eleitorado que supera cinco milhões de pessoas. O estado chega às eleições de 2026 com um cadastro eleitoral mais atualizado e uma cobertura biométrica próxima de 94%, um avanço importante para a segurança da votação. Ao mesmo tempo, outro dado merece reflexão: caiu o número de jovens de 16 e 17 anos aptos a votar em relação às eleições municipais de 2024. Enquanto a tecnologia fortalece o processo eleitoral, a redução da participação justamente da geração que mais ocupa o ambiente digital deveria provocar um debate sobre o futuro da representação política.
Talvez esse seja um dos principais desafios desta eleição.
Os candidatos precisarão convencer um eleitor mais informado, mais conectado e muito menos disposto a aceitar respostas fáceis. A inteligência artificial, os vídeos curtos e os algoritmos poderão ampliar o alcance de uma campanha, mas dificilmente substituirão aquilo que continua sendo indispensável na política: coerência entre discurso e prática.
A democracia não depende apenas de eleições livres. Ela depende de confiança. E confiança não nasce durante quarenta e cinco dias de campanha.
Ela é construída durante os quatro anos que separam uma eleição da outra.
Quando a propaganda eleitoral começar oficialmente, muitos candidatos tentarão convencer o eleitor de que representam a mudança. A pergunta que ficará para a sociedade é outra: quem realmente passou os últimos anos construindo essa mudança, e quem apenas começará a falar dela quando a campanha autorizar?
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