Durante muito tempo, parecia impensável que alguém defendesse publicamente o fim do voto feminino no Brasil. Hoje, essa ideia voltou a circular. Não porque tenha conquistado respaldo jurídico, histórico ou democrático, mas porque passou a fazer parte de uma lógica política que transforma a provocação em estratégia e o absurdo em ferramenta de visibilidade.

Nas últimas semanas, uma sequência de declarações chamou atenção. O influenciador Paulo Figueiredo afirmou que mulheres “votam estatisticamente mal”, especialmente as solteiras. Dias depois, a influenciadora Pietra Bertolazzi declarou ser contrária ao voto feminino. Na esteira da repercussão, a deputada federal Julia Zanatta minimizou as declarações de Figueiredo, defendendo que, no campo da direita, as pessoas têm liberdade para dizer o que quiserem.

Analisadas isoladamente, essas falas poderiam ser tratadas apenas como opiniões individuais. Juntas, entretanto, revelam algo maior: a tentativa de deslocar os limites do debate público, fazendo com que ideias que negam direitos fundamentais passem a ser discutidas como se fossem apenas mais uma posição política legítima.

Existe uma diferença enorme entre defender pautas conservadoras e defender a retirada de direitos políticos. O conservadorismo democrático pode discordar de políticas públicas, modelos econômicos ou costumes sociais. Outra coisa completamente diferente é questionar se metade da população deve continuar exercendo plenamente sua cidadania.

O direito ao voto não é um privilégio concedido às mulheres. É uma garantia constitucional e um dos pilares da democracia representativa. Colocá-lo sob suspeita significa questionar a igualdade política entre cidadãos.

Talvez a maior contradição esteja justamente em quem faz esse discurso.

Pietra Bertolazzi grava vídeos, influencia milhares de pessoas, participa do debate público e constrói uma carreira utilizando direitos conquistados por mulheres que vieram antes dela. Se a sociedade que ela parece defender existisse, dificilmente ela teria espaço para ocupar um microfone, produzir conteúdo ou influenciar pessoas nas redes sociais. Sua presença pública é consequência direta das transformações sociais que agora ela escolhe questionar.

Essa contradição, entretanto, não é apenas individual. Ela revela um fenômeno político mais amplo: direitos conquistados por gerações anteriores passam a ser utilizados como plataforma para defender a redução desses mesmos direitos.

Mais preocupante ainda é perceber como esse tipo de discurso vem sendo tratado.

Ao comentar a repercussão das declarações de Paulo Figueiredo, Julia Zanatta preferiu deslocar a discussão para o terreno da liberdade de expressão. Evidentemente, ninguém discute que qualquer cidadão tenha o direito de manifestar suas opiniões dentro dos limites da lei. A questão nunca foi essa.

O problema surge quando o conteúdo deixa de ser analisado e toda a discussão passa a girar exclusivamente em torno do direito de alguém dizê-lo.

Essa estratégia produz um efeito conhecido. Em vez de debater se é aceitável afirmar que mulheres votam mal ou defender que elas não deveriam votar, o debate passa a ser sobre uma suposta tentativa de censura contra quem fez essas declarações. Aos poucos, o foco deixa de ser o ataque aos direitos e passa a ser a proteção do discurso que os questiona.

Não se trata de responsabilizar Julia Zanatta pelas falas de Paulo Figueiredo, nem de afirmar que todos compartilham exatamente a mesma visão. Trata-se de reconhecer que minimizar declarações que colocam em dúvida a capacidade política das mulheres contribui para reduzir a gravidade desse tipo de discurso no espaço público.

Há outro aspecto que merece atenção.

As redes sociais recompensam a radicalização. Quanto mais extrema a afirmação, maior tende a ser seu alcance. A indignação gera compartilhamentos. A polêmica produz audiência. A audiência gera influência política e retorno financeiro. Nesse ambiente, declarações que antes seriam vistas como incompatíveis com valores democráticos passam a funcionar como instrumentos de construção de relevância.

Isso não significa que toda declaração polêmica seja planejada como estratégia. Mas significa que o ambiente digital frequentemente incentiva discursos cada vez mais extremos, justamente porque eles atraem atenção.

É por isso que o problema vai muito além de Pietra Bertolazzi ou Paulo Figueiredo.

O que preocupa é a naturalização de uma narrativa que passa a tratar direitos fundamentais como temas negociáveis. Hoje questiona-se o voto feminino. Amanhã pode ser a participação política, a ocupação de cargos públicos ou qualquer outra conquista histórica apresentada como se fosse um excesso a ser corrigido.

A democracia não se enfraquece apenas quando leis são alteradas. Ela também se fragiliza quando parcelas da sociedade deixam de reconhecer determinados grupos como cidadãos plenos e quando discursos que relativizam direitos passam a ser recebidos com indiferença.

Há pouco mais de nove décadas, mulheres brasileiras precisaram enfrentar resistência política, jurídica e cultural para conquistar o direito ao voto. Muitas pagaram um preço alto para que as gerações seguintes pudessem participar da vida pública em condições mais igualitárias.

Hoje, mulheres ocupam cadeiras no Congresso Nacional, comandam empresas, produzem conteúdo, influenciam milhões de pessoas e disputam eleições justamente porque essa luta produziu resultados concretos.

É legítimo discordar do feminismo, criticar movimentos sociais ou defender agendas conservadoras. O que não pode ser tratado como uma simples divergência de opinião é a tentativa de relativizar direitos que constituem a própria democracia.

Quando uma influenciadora usa sua liberdade para defender que outras mulheres tenham menos liberdade, quando um influenciador afirma que mulheres votam mal e quando agentes políticos escolhem tratar essas declarações apenas como mais uma manifestação protegida pela liberdade de expressão, o debate deixa de ser sobre preferências ideológicas.

Passa a ser sobre os limites da democracia e sobre a disposição da sociedade de defender direitos que custaram décadas de luta para serem conquistados.

A história demonstra que nenhum direito desaparece de uma única vez. Antes de qualquer retrocesso institucional, existe sempre um processo de normalização. Primeiro, a ideia parece absurda. Depois, torna-se polêmica. Em seguida, passa a ser considerada apenas “mais uma opinião”. Quando esse caminho se consolida, aquilo que antes parecia impensável começa a ocupar espaço no debate público.

É justamente por isso que declarações como essas não podem ser tratadas apenas como provocações passageiras. Elas dizem menos sobre quem as profere e muito mais sobre o tipo de sociedade que estamos dispostos a aceitar.

Leia também: Partidos não querem mulheres eleitas, querem apenas mulheres suficientes para cumprir a lei