O feitiço das palavras: por que o jornalismo ainda importa
31 julho 2026 às 12h41

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A magia pode ser definida de muitas formas. Uma delas é a capacidade de manipular o concreto, o real, através de elementos abstratos; é dizer “que haja luz!” e a luz surgir, é gritar “Abra-te, Sésamo!” e abrir qualquer porta. Mas veja: apesar de mágica, ainda existem regras. É preciso utilizar as palavras certas, os elementos ordenados e ter fé de que aquilo pode funcionar. A esperança é tão necessária quanto a técnica.
Nesse ponto de vista, o jornalismo não se diferencia tanto da magia, não quando é bem feito e bem-intencionado. As palavras, bem postas, organizadas e escolhidas a dedo para contar as histórias que precisam ser contadas, mudam a realidade, alteram as rotas do poder e dão visibilidade àquilo que está escondido, ainda que de forma insuficiente.
É verdade que o poder da magia é maior, afinal de contas, ela é inventada e não existem limites para a imaginação. Já o jornalismo precisa se adaptar às tristes paredes impostas pelo real; não pode transformar tudo e, muitas vezes, é subjugado e deturpado.
Mas, da mesma forma que bruxas e magos insistem em praticar suas invenções, ainda que perseguidos pelos reis de suas histórias, os bons jornalistas fazem o mesmo. Sem reconhecimento, diante de ameaças, sob a censura do capital, vão insistindo e conquistando espaços, alterando a realidade que lhes é permitida alcançar.
Assim, são expostas muitas das mentiras contadas pelos poderosos, são escancaradas as desigualdades e, ainda que não mude tudo o que é necessário, o jornalismo tira das sombras segredos que crescem no escuro. Quantas leis não foram criadas por conta de investigações jornalísticas? Quantos políticos já não recalcularam suas estratégias ou até mesmo foram aposentados pelo bom jornalismo? Quantas maldades não foram cessadas quando expostas na mídia?
É evidente que o jornalismo, por vezes, tropeça e cai. É certo que nem todos da classe se esforçam para fazer um trabalho bem-feito e nos entregam vergonhosos textos. Mas, enquanto houver quem acredite na boa apuração, que tenha fé no trabalho jornalístico, a magia não há de morrer.
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