Já não bastava a luta contra as fake news que há anos desafia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Agora, o desafio dos eleitores passa a ser desconfiar não apenas do que leem, mas também do que ouvem e veem durante as campanhas eleitorais. Se a tecnologia permite que uma inteligência artificial faça um político dizer algo que nunca disse, ou até mesmo apareça em um lugar onde jamais esteve para defender um candidato sem ter participado fisicamente daquele evento, o que ainda pode ser considerado prova na política?

O episódio mais recente envolvendo um vídeo produzido por inteligência artificial e atribuído à imagem e à voz do ex-presidente Jair Bolsonaro é um bom exemplo de como essa tecnologia começa a ocupar um espaço que, até pouco tempo, parecia restrito às campanhas tradicionais. O vídeo foi apresentado durante um evento político e recriou com grande fidelidade as características e a voz de Bolsonaro em uma manifestação favorável ao filho, o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro.

Era previsível que as redes sociais pegassem fogo, que a repercussão fosse intensa e que o caso chegasse rapidamente à Justiça Eleitoral. De um lado, há quem sustente que o conteúdo foi apresentado de maneira transparente, com a indicação de que se tratava de uma produção feita por inteligência artificial. De outro, permanece uma discussão que vai muito além daquele vídeo. A pergunta que fica é: até que ponto o eleitor consegue distinguir, em meio a uma enxurrada de informações, o que é real e o que foi fabricado?

Talvez esse seja o maior desafio das eleições de 2026. Mas é importante lembrar que a política brasileira já conhece os efeitos das notícias falsas, dos vídeos editados fora de contexto e das informações manipuladas. A principal diferença é que, agora, a inteligência artificial deu mais um passo. Já não cria apenas textos enganosos. É capaz de produzir imagens, vozes e vídeos praticamente indistinguíveis da realidade.

Um político pode aparecer em um vídeo que nunca gravou. Pode parecer estar em um lugar onde jamais esteve. Pode ter sua voz reproduzida para dizer algo que nunca disse. E, quando esse conteúdo chega ao celular de milhões de pessoas, o desmentido quase sempre corre atrás de um prejuízo já consolidado. A mentira não precisa ser verdadeira para viralizar. E é justamente aí que mora o perigo.

Mas não me entendam mal: o problema não é usar a inteligência artificial. O problema começa quando ela é utilizada para confundir.

Hoje, a discussão envolve Bolsonaro. Amanhã, pode envolver Lula. Depois, qualquer outro candidato. A inteligência artificial não escolhe ideologia. Ela pode ser utilizada por qualquer grupo político que descubra como explorar suas possibilidades para informar, persuadir ou manipular.

Por isso, o debate sobre inteligência artificial nas eleições não deveria ser tratado apenas como mais uma disputa entre partidos ou como uma controvérsia jurídica pontual. Isso porque, se a tecnologia avançar mais rápido do que a capacidade de fiscalização, a próxima eleição poderá ser disputada não apenas por candidatos, partidos e propostas, mas também por versões artificiais da realidade.

E, nesse cenário, talvez o maior desafio de 2026 não seja descobrir em quem votar. Será descobrir no que acreditar.

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