O que acontece enquanto você olha para a tela?
29 maio 2026 às 18h45

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Vivemos em uma sociedade que oferece distrações para todos os lados. Somos constantemente bombardeados por informações, entretenimento, produtos, propagandas e promessas de felicidade imediata. Enquanto isso, problemas profundos e antigos continuam presentes diante de nossos olhos: a pobreza, a desigualdade, a violência e a exclusão social. A questão é que, muitas vezes, somos levados a não enxergá-los.
Existe uma lógica que transforma a atenção humana em mercadoria. Empresas disputam nosso tempo, políticos disputam nossa indignação e diferentes instituições disputam nossa confiança. Nesse cenário, sobra pouco espaço para refletir sobre as estruturas que produzem injustiças e limitam as oportunidades de milhões de pessoas. Em vez de questionarmos as causas dos problemas, somos incentivados a consumir mais conteúdos, produtos e opiniões prontas.
Enquanto grande parte da população está ocupada tentando sobreviver ou se entreter, crianças continuam crescendo em condições precárias, sem acesso adequado a direitos básicos. A desigualdade deixa de ser uma manchete distante e se torna uma realidade cotidiana, visível nas ruas das cidades. No entanto, a repetição dessas cenas acaba produzindo um efeito perigoso: a normalização do sofrimento.
Também é comum que a sociedade ofereça respostas superficiais para problemas complexos. Muitas vezes, espaços de consumo e entretenimento são apresentados como símbolos de realização pessoal, enquanto discussões sobre distribuição de renda, acesso à educação e qualidade de vida ficam em segundo plano. Isso não significa que o lazer ou a religião sejam problemas em si, mas que eles podem funcionar como distrações quando substituem a reflexão crítica sobre a realidade.
Outro aspecto preocupante é a forma como a memória coletiva é enfraquecida. A velocidade das informações faz com que tragédias, injustiças e até mesmo vidas inteiras sejam rapidamente esquecidas. Pessoas comuns trabalham, pagam suas contas, enfrentam dificuldades e, muitas vezes, desaparecem sem que suas histórias sejam lembradas. A sensação é de que a vida segue em frente sem tempo para compreender o significado dessas perdas.
Por isso, é necessário recuperar a capacidade de observar o mundo com atenção e senso crítico. Questionar as estruturas que moldam nossa realidade não é um exercício de pessimismo, mas de cidadania. Enxergar os problemas não os resolve automaticamente, mas ignorá-los certamente contribui para sua permanência. Em uma época marcada pelo excesso de estímulos e pela disputa constante por nossa atenção, talvez o maior ato de resistência seja simplesmente olhar para a realidade sem desviar os olhos.
Em um mundo marcado pelo excesso de informações, pelo consumo constante e pela busca incessante por distrações, torna-se cada vez mais difícil enxergar aquilo que permanece diante dos nossos olhos: a desigualdade, a precariedade da vida e os mecanismos que moldam silenciosamente a sociedade. O poema a seguir nasce dessa inquietação. Com um tom de denúncia, os versos convidam o leitor a questionar aquilo que lhe é apresentado como normal e a refletir sobre tudo o que se perde quando deixamos de olhar para a realidade que nos cerca.
Te cobram os olhos da cara
Que é pra ver se tu não enxerga
O próprio pau de arara
E continua seguindo as regrasTe cobram os olhos da cara
Que é pra tu não ver
A mão invisível que te bate com a vara
E limita o teu viverTe cercam de igrejas, shoppings e tricôs
Que é pra tu não perceber no que o mundo se tornouUm deserto, lotado
Um show, de horrores
Mas só pra quem tem ingresso pago
Um banquete, de dissaboresTe cobram os olhos da cara
Que é pra tu ficar só com os buracos
E se esquecer que a vida é rara
Nesse universo cheio de vácuoTe enfiam ideias, vídeos e fotos
Que é pra tu te esquecer dos mortosQue viviam como você
Seguindo a própria vida
Até um dia morrer
Sem nem quitar as dívidas.
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