Flávio erra ao subestimar o peso político de Michelle Bolsonaro?
26 junho 2026 às 17h57

COMPARTILHAR
Desde que assumiu a presidência nacional do PL Mulher, Michelle Bolsonaro deixou de ser apenas a esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro para ocupar um espaço político próprio dentro da direita brasileira. Sua missão vai muito além de participar de eventos partidários ou pedir votos durante as campanhas. Ela passou a representar o principal canal de diálogo do partido com aquele que é, hoje, o maior contingente eleitoral do Brasil: as mulheres.
A nomeação, anunciada em 2023, teve justamente o objetivo de ampliar a participação feminina no partido e fortalecer esse segmento da legenda.
A relevância dessa missão é explicada pelos números. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que as mulheres representam 52,47% do eleitorado brasileiro, o equivalente a mais de 81 milhões de eleitoras. Além disso, elas são maioria em cerca de seis em cada dez municípios do país. Em uma democracia, quem conquista a confiança da maioria larga na frente. Quem perde essa conexão, naturalmente, começa a disputa em desvantagem.
É justamente por isso que Michelle se tornou uma peça estratégica para o campo conservador. Durante a campanha presidencial de 2022, ela assumiu um protagonismo inédito, especialmente na tentativa de reduzir a resistência que parte do eleitorado feminino demonstrava em relação ao então presidente Jair Bolsonaro. Depois das eleições, essa função foi institucionalizada dentro do PL Mulher, transformando Michelle em uma das principais lideranças nacionais da legenda.
Mas ocupar esse espaço também significa carregar uma responsabilidade proporcional ao cargo. Quem lidera o braço feminino de um partido precisa transmitir, antes de tudo, capacidade de diálogo, acolhimento e unidade. Afinal, sua atuação não se limita às filiadas do partido. Ela influencia a percepção que milhões de mulheres têm sobre a forma como aquela legenda valoriza a participação feminina na política.

Nesse contexto, qualquer episódio que envolva desentendimentos públicos entre Michelle Bolsonaro e outras lideranças do próprio campo político inevitavelmente ganha uma dimensão maior do que uma simples divergência interna. O debate deixa de ser apenas sobre estratégias eleitorais e passa a envolver símbolos, respeito institucional e a imagem que o partido projeta para um eleitorado decisivo.
Isso não significa que divergências não possam existir. Pelo contrário. Elas são naturais em qualquer organização política. O problema é quando deixam de ser administradas internamente e passam a dominar o debate público. Enquanto as lideranças discutem entre si, o eleitor espera respostas para os problemas reais do país. A exposição constante de conflitos internos acaba desviando o foco daquilo que realmente interessa.
Outro ponto importante é que o eleitorado feminino costuma avaliar não apenas propostas, mas também atitudes. A forma como mulheres em posições de liderança são tratadas dentro das próprias estruturas partidárias pode influenciar a percepção sobre respeito, representatividade e coerência. Em um cenário eleitoral cada vez mais competitivo, detalhes que antes pareciam secundários podem fazer diferença na hora do voto.
No fim das contas, Michelle Bolsonaro ocupa hoje uma posição que vai muito além de um cargo partidário. Ela representa uma estratégia política construída para aproximar o PL do maior grupo de eleitores do país. Preservar essa ponte talvez seja um dos maiores desafios da legenda nos próximos anos. Afinal, nenhuma força política consegue chegar ao poder ignorando mais da metade do eleitorado brasileiro.
Então, analisando os últimos acontecimentos envolvendo o pré-candidato ao Palácio do Planalto, o senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, o que parece é que ele ainda não entendeu a dimensão da relevância e da importância da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro quando o assunto é o voto feminino, que, aliás, volto a repetir, representa a maioria do eleitorado brasileiro.
Se ela está certa ou não ao emitir sua opinião sobre a coerência do partido em apoiar Ciro Gomes — um direitista “melancia”, ou seja, verde por fora e vermelho por dentro — no Ceará, em detrimento do senador Eduardo Girão, aliado fiel da direita no Congresso Nacional, isso é passível de debate. O que não dá a Flávio o direito de tratá-la com desrespeito, não apenas por ser uma aliada política, mas, sobretudo, por ser um ser humano digno de respeito.
Ao agir dessa forma, Flávio acaba “ciscando para fora”, em vez de se preocupar em unir, e não espalhar, forças dentro do próprio campo político. Embora tenha gravado vídeos pedindo desculpas, é bem possível que o estrago já tenha sido feito.
A pergunta que fica é: Flávio erra ao subestimar o peso político de Michelle Bolsonaro?
Leia também:



