Um marco modernista que integra liturgia religiosa e arte no coração de Goiânia
26 junho 2026 às 18h38

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Com concreto aparente, linhas geométricas e vitrais abstratos monumentais, o templo dialoga diretamente com o brutalismo, mas também com a leveza e simbolismo da luz, típicos do modernismo. Embora não seja uma obra amplamente citada do movimento, a igreja se destaca como um marco da arquitetura religiosa modernista regional, porque consegue integrar arte, estrutura e contexto urbano. Em suma, é um pedaço interessante desse grande mosaico do modernismo brasileiro (derivativo, em parte, do modernismo europeu, mas sem perder sua especificidade tropical).

Em 1962, o crítico britânico Reyner Banham disse que o Brasil foi o primeiro país a criar um “estilo nacional de arquitetura moderna”.
O desenvolvimento do modernismo em toda a expressão artística brasileira esteve ligado à busca por um projeto nacional (desde a literatura, com Mário de Andrade e seu romance “Macunaíma”). O uso do concreto armado, formas geométricas simples, ausência de ornamentos complexos, a valorização da funcionalidade e a integração com o entorno natural são algumas características da arquitetura modernista que, a partir dos anos de 1960, chamou a atenção da Igreja Católica no Brasil que investiu no estilo e se espalhou por todo país.
Em Goiânia não foi diferente. Desde os anos 1950 que a arquitetura moderna foi absorvida rápida e positivamente pela população e passou a ter grande representatividade na paisagem urbana, impulsionada por arquitetos paulistanos e cariocas.
Mas foi no início dos anos 1970 que os clérigos resolveram ousar e construir o primeiro templo religioso da capital no estilo modernista.

Os agostinianos foram os idealizadores da igreja moderna que iria nascer na praça do avião ( hoje praça Santos Dumont) onde antes funcionava o antigo aeroporto da cidade. A região do Setor Aeroporto (em Goiânia os bairros são chamados de setores) era um ponto em expansão e a praça se tornou rapidamente um lugar estratégico para erguer a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, porque dali poderiam acompanhar o crescimento da capital e atender a uma comunidade emergente.
No local onde a igreja foi construída existia uma pequena capela que acolhia quem chegava e partia do antigo aeroporto da cidade, que funcionou ali dos anos 1930 aos 1950. Mesmo com a mudança do terminal aéreo, a capela foi preservada até que, nos anos 1970, deu lugar à paróquia dos agostinianos.
Um projeto audacioso de Zanettini
O projeto da Igreja de Nossa Senhora de Fátima foi encomenda dos padres agostinianos, que queriam um templo moderno para a paróquia de Goiânia. Buscavam um profissional com experiência em estruturas inovadoras, então convidaram o renomado arquiteto Siegbert Zanettini para criar o projeto.

Zanettini, de 92 anos, é conhecido por sua pioneira utilização de estruturas metálicas e pela industrialização da construção. O arquiteto e professor da Universidade de São Paulo é crítico da ocupação urbana desordenada. Ao longo de décadas, desenvolveu mais de 1200 projetos realizados, dentro e fora do Brasil, com foco em sustentabilidade e que lhe renderam reconhecimento internacional pela atuação em arquitetura sustentável. Ele considera o trabalho que fez em Goiânia um de seus projetos favoritos, o único realizado pelo arquiteto na região Centro-Oeste.
A Igreja de Nossa Senhora de Fátima possui referências buscadas no Santuário Dom Bosco, em Brasília, tanto na volumetria quanto no uso dos vitrais, mas ganhou vida própria em solo goiano.
O projeto combina brutalismo e simbolismo espiritual, refletindo como o modernismo brasileiro se adaptava a diferentes contextos. A fachada monumental formada por dez arcos de concreto aparente se abre para vitrais coloridos que transformam o interior do prédio num espaço de contemplação que envolve os fiéis num ambiente luminoso e acolhedor.

Numa das enormes paredes, próximas ao altar, centenas de escotilhas coloridas se espalham do chão ao teto. Em 14 delas, as cenas da Via Sacra narram a Paixão de Cristo misturando luz e cor com propósito de criar um ambiente contemplativo e espiritual, reforçando o simbolismo da fé junto à estética contemporânea da igreja.
No seu interior, ainda se destacam uma imensa imagem de metal com Cristo crucificado no altar e um púlpito de concreto aparente que dialoga com as características modernas do templo religioso.
Os vitrais de Hubert van Doorne
A relação entre o Santuário Dom Bosco, em Brasília e a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Goiânia, está na inspiração estética principalmente no uso dos vitrais que foram criados para os dois prédios pelo artista belga, Hubert van Doorne, conhecido por seu trabalho com vidros coloridos especialmente em obras no Brasil.
Foram os vitrais que ele criou para o Santuário Dom Bosco, em Brasília, que fizeram a obra ser considerada um ícone modernista. Van Doorne espalhou em mais de 2000m² de área, vidros coloridos em tons azuis que criam um efeito de céu estrelado no interior da igreja. Sua obra é importante por unir a tradição do vitral com modernidade, destacando-se pela forma como manipula a luz nos espaços sagrados. O artista belga integrava técnica artesanal com linguagem moderna ao seu estilo que resultava em ambientes invadidos por efeitos únicos de luminosidade.
Após finalizar o trabalho na capital federal, Hubert foi convidado pelo arquiteto Siegbert Zanettini para transformar seu projeto numa obra de arte com os vitrais que só ele sabia fazer. O criador aceitou o desafio e morou em Goiânia durante dois anos até concluir a missão de transformar a Igreja de Nossa Senhora de Fátima numa obra de arte grandiosa.

Para fazer os vitrais, Hubert van Doorne usava uma técnica tradicional e secreta que foi passada de pai para filho durante várias gerações da família Doorne, na Bélgica. Cada pedaço de vidro colorido era cortado conforme o desenho e, para os detalhes, usava-se esmalte ou tinta para vidro, que era então queimado em alta temperatura.
Após o resfriamento os milhares de pedaços de vidro colorido eram unidos com perfis de chumbo ou latão, e a estrutura era então reforçada com esmalte transparente. Tudo isso se perdeu após a morte do artista — que não deixou filhos —, em 1979. Os vitrais que criou para a igreja de Goiânia ficaram prontos em 1974. Este foi seu último trabalho.
Um marco de fé e estilo
Desde que foi aberta, em 1974, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima é palco de celebrações e momentos de fé e se tornou parte da vida dos goianos, celebrando casamentos, batizados e momentos de contemplação. De alguma maneira, é uma escultura em forma de edifício religioso.

O encontro entre arte e arquitetura faz igreja da praça do avião ser não apenas um monumento modernista, mas um símbolo atemporal que se entrelaçou ao cotidiano goianiense. Entre o concreto e a luz, o modernismo toca a alma da cidade e de seus moradores. Um movimento que deixou para Goiânia uma joia viva que emociona o coração de quem entra ali e logo se sente iluminado.







