Brado retumbante: você sabia que o Hino do Brasil pode ser resultado de plágio
23 junho 2026 às 14h41

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Não foi apenas o 3 x 0 do Brasil contra o Haiti que trouxe a esperança de que a seleção volte a jogar o futebol que os torcedores brasileiros esperam. Um pouco antes da partida, na Filadélfia, o jornal americano “New York Times” publicou uma notícia que encheu os brasileiros de orgulho.
Segundo um ranking estabelecido pela publicação, a partir de uma pesquisa realizada por jornalistas esportivos, o hino nacional do Brasil foi apontado como o mais bonito da Copa do Mundo entre os hinos das 48 seleções que participam do campeonato mundial.

O jornal destacou a força da melodia, a emoção transmitida pela composição e o fato de a letra exaltar a beleza, a esperança e o amor pela pátria sem referências a guerras ou conflitos. O destaque ficou para a introdução instrumental que antecede o famoso trecho “ouviram do Ipiranga” — considerada um dos pontos altos da composição.
O “New York Times” considerou marcante a mensagem de esperança e patriotismo presente na letra, classificando o hino do Brasil com a maior nota do ranking. Os hinos da França e de Portugal ficaram em segundo e terceiro lugares na classificação elaborada pelo diário.
É importante destacar que a lista representa uma avaliação editorial e não uma premiação oficial da Fifa ou da Copa do Mundo. Mesmo assim, a iniciativa realizada pela publicação chamou a atenção por reunir opiniões sobre os hinos das seleções participantes e gerar debate entre os torcedores de diferentes países a respeito da música que os representa.
Um plágio que já dura dois séculos
Ao lado da nossa Bandeira, o Hino Nacional é o símbolo mais representativo do Brasil. O que a maioria das pessoas desconhece é a história por trás de sua composição — que começa na Independência e só termina dez anos depois da Proclamação da República.
A dupla que assina o Hino Nacional jamais se encontrou. Mais do que isso, Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada nunca cruzaram olhares ou estiveram, sequer, no mesmo ambiente. Porque o primeiro morreu cinco anos antes de o segundo nascer.

Outra curiosidade sobre a composição é que não tem absolutamente nada de autoral. O hino brasileiro é uma colcha de retalhos, uma compilação de trechos operísticos costurados sem muita medida e que, num passado sem Google, YouTube ou Pro Tools, não teria como ser questionado.
A melodia do Hino Nacional foi composta por Francisco Manuel da Silva (1795-1865), entre 1822 e 1823, por ocasião da Independência do Brasil, como “Marcha Triunfal”. Há quem defenda que foi composta em 1831. Mas, quando D. Pedro I abdica e põe fim ao Primeiro Reinado, em abril deste mesmo ano, a música já era conhecida e apenas ganhou versos políticos, que comemoram sua renúncia. Francisco Manuel teve, desde cedo, educação musical, sendo aluno dos mais proeminentes do ainda Brasil colônia. Era considerado um cravista destacado e das suas quase 250 composições que sobreviveram ao tempo constam títulos didáticos e até mesmo modinhas.

Mesmo assim, sua produção não é considerada fecunda. Aos 14 anos, ingressou no coro da Capela Real e, pouco depois, iniciou seus estudos com o violoncelo – mais tarde, violinpiano, órgão e composição. A proximidade com D. Pedro I é o provável motivo de sua indicação para compor o que viria a ser, no futuro, parte do nosso hino nacional.
Francisco Manuel firmou-se como um dos aduladores do imperador. Ainda jovem, compôs um hino litúrgico (“Te Deum”) para o monarca que, em retribuição, prometeu financiar seus estudos na Europa. A promessa jamais seria cumprida, mas Francisco Manuel seguiu ocupando postos de prestígio, como o de compositor (nomeado em 1841, por D. Pedro II) e mestre de capela da Câmara Imperial. Sua única composição preeminente, dentre um catálogo considerado medíocre, é o Hino Nacional.



Mas de onde Francisco Manuel teria encontrado inspiração para sua melodia?
A resposta: de vários manuscritos. Francisco Manuel exerceu as funções de copista e arquivista da corte, entre os anos de 1821 e 22. Ou seja, por suas mãos passavam e foram exaustivamente copiadas obras como a Sonata nº 1 em Lá Menor, da Centone di sonate, Op. 64, MS 112, de Niccolò Paganini (1782-1840); e a Sinfonia Nº 3 (Eroica) de Ludwig van Beethoven (1770-1827), mais especificamente seu segundo movimento: “Marcha Fúnebre – Adagio assai”.






Mas o plágio principal que compõe sua obra-prima tem origem na Matinas – Missa – de Nossa Senhora da Conceição, composta em 1810. É desta peça sacra, para coral, que o copista extrai a parte “cantada” do Hino Nacional, bebendo em outras fontes para as partes “instrumentais”.

Tema do hino não foi sucesso imediato
O tema do Hino Nacional não foi um sucesso imediato e sua melodia só recebeu os primeiros versos, mesmo assim genéricos, após a abdicação (1831) de D. Pedro I, ganhando popularidade. Só em 1841, depois da coroação de D. Pedro II, quando ganhou uma letra “oficial” e virou hino.
Mas demorou quase um século para que o Hino Nacional, conforme o conhecemos, ganhasse sua versão definitiva. A letra de Joaquim Osório Duque-Estrada (1870-1927) foi escrita para um concurso, em 1906. Antes disso, em 1890, o governo republicano recém-constituído do marechal Deodoro da Fonseca (primeiro presidente da República do país) promoveu a escolha de um hino oficial, vencido por Medeiros e Albuquerque (1867-1934), autor dos versos, e Leopoldo Miguez (1850-1902), autor da música.

O problema é que a nova composição não agradou o povo, nem Deodoro — que depois acabou cedendo, porque tinha pressa, e assim nasce o Hino da Proclamação da República.

A letra de Duque-Estrada foi declarada vencedora, em 1909, mas a propriedade intelectual foi garantida em 1922; portanto, um século depois da melodia ser composta. Duque-Estrada foi professor e ensaísta, além de imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), mas, a exemplo de Francisco Manuel da Silva, tem como expressão máxima, na poesia, a letra do Hino Nacional. Ele também foi crítico literário no “Correio da Manhã” e no “Jornal do Brasil”.

O aspecto autoral de seus versos é inegável, mas é aqui que o tempo prega uma peça no conjunto da obra. É que, enquanto a música do Hino Nacional é de cunho romântico-operístico, a letra é positivista e encaixar os versos na melodia foi uma tarefa tão difícil que ficou a cargo do compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920), este, sim, um mestre da música brasileira.
Uma curiosidade a respeito da letraj do Hino Nacional é que, ainda na era imperial, havia três estrofes que eram cantadas junto com a introdução – supostamente de autoria do ex-presidente das Províncias do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro Américo de Moura Marcondes de Andrade.
O Hino Nacional que cantamos hoje — eleito pelo “New York Times” como o mais bonito do mundo — só foi oficializado em setembro de 1971. O maior símbolo do país teve caráter provisório durante 150 anos. Foram necessários dois séculos para que o brado retumbante fosse reconhecido pelo mundo como a representação máxima da expressão de orgulho da brava gente brasileira.


