Na última reportagem desta série especial do aniversário de Goiânia, Bolha olha para trás não por nostalgia, mas para cobrar respostas sobre os sete anos que nos separam do centenário.

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Aos 93 anos, a capital de Goiás não precisa de mais um discurso sobre suas avenidas largas, seus parques, sua gastronomia ou a conhecida hospitalidade de seus habitantes. Tudo isso existe e merece reconhecimento. Mas não explica a cidade inteira.

A Goiânia que completa aniversário neste 24 de outubro é também a cidade dos edifícios desaparecidos, das árvores sacrificadas, dos córregos maltratados, das calçadas que expulsam pedestres e dos trabalhadores que ajudaram a construir uma capital na qual nem sempre encontraram lugar.

É a cidade que nasceu planejada e aprendeu, ao longo das décadas, a conviver com o improviso. Ergueu monumentos à modernidade e, depois, descobriu que a preservação dos mesmos poderia atrapalhar os negócios.

Goiânia cresceu, enriqueceu, expandiu seus limites e se transformou em metrópole, mas ainda não resolveu inteiramente uma pergunta elementar: para quem, afinal, estamos construindo essa cidade?

Durante cinco reportagens, Bolha procurou respostas na história. Nesta sexta e última, a pergunta se desloca para o futuro. O que queremos encontrar quando Goiânia completar cem anos? A resposta não pode esperar até 2033.

O que o futuro reserva para Goiânia? (Foto: Divulgação)

A cidade que nasceu para ser o futuro

No início da década de 1930, construir uma nova capital em Goiás era uma decisão que misturava ambição política, ruptura histórica e uma extraordinária confiança na capacidade humana de transformar o território.

Pedro Ludovico Teixeira queria mais do que transferir a sede do governo. Andrelino Rodrigues doou as terras para a construção da nova capital que deveria representar outra época. Attilio Corrêa Lima deu forma urbanística a essa ambição. Armando de Godoy contribuiu para redefinir seus caminhos. Engenheiros, arquitetos, técnicos e administradores participaram do empreendimento. Mas foram milhares de trabalhadores que converteram desenhos em realidade.

Homens que abriram ruas, transportaram materiais, levantaram paredes e enfrentaram as dificuldades de construir uma cidade praticamente do nada. Muitos vieram de longe. Outros chegaram das regiões vizinhas. Alguns permaneceram. Outros partiram. Nem todos tiveram seus nomes preservados.

A história oficial foi generosa com os dirigentes e parcimoniosa com os trabalhadores. Essa desigualdade de reconhecimento não foi a única. Enquanto a cidade monumental surgia em torno de seus edifícios públicos, outra Goiânia crescia fora dos limites do conforto imaginado pelos planejadores.

Uma cidade de alojamentos precários, famílias trabalhadoras, serviços improvisados e oportunidades desiguais. Duas Goiânias nasceram praticamente ao mesmo tempo. A diferença é que uma delas aparecia nas fotografias das inaugurações. A outra estava ocupada construindo o cenário.

Noventa e três anos depois, a distância entre essas duas cidades continua sendo uma das questões fundamentais da capital. Mudaram os bairros, os edifícios e os personagens. A desigualdade adquiriu outras dimensões. Mas a pergunta permanece: quem desfruta plenamente da cidade que todos ajudam a sustentar?

O progresso tem uma memória curta

A cidade concebida para representar o futuro passou a tratar parte de seu próprio passado como inconveniente. O art déco, que ajudou a definir a identidade arquitetônica da nova capital, tornou-se patrimônio histórico. Entretanto, a preservação de edifícios, fachadas e conjuntos urbanos continua exigindo atenção permanente.

Relógio monumental, 1942, Av. Goiás. (Foto: Herbert Moraes)

A questão ultrapassa a arquitetura. Goiânia perdeu construções, modificou paisagens e transformou espaços que guardavam referências importantes de sua formação. O Centro, antes expressão de prestígio e vitalidade, passou a conviver com imóveis desocupados, descaracterizações e dificuldades de manutenção de seus espaços públicos.

Não significa que tenha morrido. O Centro continua trabalhando, vendendo, comprando, recebendo gente e produzindo vida urbana. O problema é que sua importância histórica nem sempre encontra correspondência nas políticas de preservação e revitalização. É preciso abandonar a ideia de que preservar significa impedir o desenvolvimento.

Uma cidade não se moderniza simplesmente porque substitui construções antigas por edifícios novos, mas quando consegue incorporar seu patrimônio à vida contemporânea. Paris não precisou destruir sua história para continuar sendo uma metrópole. Londres tampouco. Barcelona transformou parte de sua memória urbana em instrumento de desenvolvimento.

As comparações têm limites, naturalmente. São cidades com histórias, recursos e realidades diferentes. Mas ensinam uma lição: patrimônio não é apenas aquilo que sobrou do passado. É também aquilo que uma sociedade considera importante transmitir ao futuro. Goiânia precisa decidir o que deseja transmitir, porque uma cidade que elimina sistematicamente suas referências acaba produzindo uma paisagem na qual tudo parece recente, mesmo aquilo que já nasceu velho.

Estação Ferroviária de Goiânia, 1952, Setor Norte Ferroviário. (Foto: Divulgação)

O metro quadrado não pode valer mais que a cidade

A expansão imobiliária é uma das expressões mais visíveis da transformação de Goiânia. Novos edifícios alteraram a paisagem, valorizaram regiões e responderam à demanda por moradia, comércio e serviços. O setor movimenta investimentos, empregos e uma cadeia econômica importante. Nada disso deve ser ignorado. O problema começa quando a valorização imobiliária passa a ser confundida com a valorização da vida urbana.

Um bairro pode tornar-se mais caro sem se tornar mais agradável, assim como uma avenida pode receber empreendimentos milionários e continuar hostil aos pedestres. Uma região pode concentrar edifícios sofisticados enquanto seu entorno enfrenta dificuldades de mobilidade, drenagem e acesso a espaços públicos.

Coreto, 1942, Praça Cívica. (Foto: Herbert Moraes)

A verticalização não é, por si só, um erro. Cidades compactas podem aproveitar melhor sua infraestrutura e reduzir deslocamentos. Mas adensar exige planejamento. Exige transporte coletivo, saneamento, arborização, equipamentos públicos e capacidade de atendimento à população.

O crescimento não pode ser analisado apenas pela quantidade de metros quadrados comercializados. É preciso perguntar quem suporta seus custos. Quem paga pelo trânsito? Quem convive com a perda de áreas permeáveis? Quem sofre quando a drenagem não acompanha a ocupação? Quem precisa morar cada vez mais longe dos empregos e dos serviços?

Essas perguntas não podem ser respondidas exclusivamente pelo mercado. Cabe ao poder público estabelecer regras, fiscalizar seu cumprimento e garantir que os benefícios do desenvolvimento não sejam apropriados por poucos enquanto seus custos se espalham pela cidade. E cabe à sociedade acompanhar essas decisões. Porque o território urbano não é uma mercadoria qualquer. É o lugar onde a vida acontece.

“Monumento às três raças”, 1964, Praça Cívica. (Foto: Herbert Moraes)

O futuro de Goiânia não pode ser reduzido a um lançamento imobiliário com imagens bonitas, árvores digitais e pessoas sorridentes que jamais precisarão enfrentar o trânsito de segunda-feira.

Uma cidade que perde a sombra perde mais do que árvores

Goiânia construiu parte de sua identidade em torno da vegetação, dos jardins e dos espaços verdes. Essa herança deveria ser uma vantagem extraordinária. Mas a existência de parques conhecidos não resolve, isoladamente, os problemas ambientais de uma metrópole.

É necessário olhar para a distribuição da arborização, a conservação das nascentes, a proteção dos córregos, a drenagem urbana e a qualidade dos espaços públicos. A sombra de uma árvore não é um luxo paisagístico. É infraestrutura ambiental. Reduz a exposição ao calor, melhora o conforto dos pedestres e ajuda a tornar as ruas habitáveis.

O mesmo vale para os cursos d’água. Durante muito tempo, cidades brasileiras trataram córregos como obstáculos a esconder, canalizar ou contornar. O resultado dessa mentalidade aparece nas dificuldades de drenagem, na degradação ambiental e na perda de paisagens naturais.

“Monumento às três raças”, 1964, Praça Cívica. (Foto: Herbert Moraes)

Goiânia precisa compreender que sua relação com a água será decisiva para o futuro. O desafio ambiental não se resume a plantar mudas em cerimônias oficiais. É necessário garantir que cresçam, sobrevivam e integrem um sistema de proteção ambiental.

Não basta inaugurar parques. É preciso mantê-los, anunciar recuperação de nascentes, acompanhar seus resultados. O desafio vai muito além de chamar Goiânia “cidade verde”, é mais que necessário mostrar bairro por bairro, que essa identidade corresponde à experiência de seus moradores. Uma árvore centenária não pode ser substituída por uma promessa de compensação ambiental como se ambas tivessem o mesmo valor imediato. A natureza trabalha em uma escala de tempo que não acompanha o calendário eleitoral.

A política precisa aprender a pensar além de quatro anos

O maior desafio de Goiânia não é arquitetônico, ambiental ou econômico, mas político. Uma cidade que se aproxima do centenário precisa de compromissos capazes de sobreviver às mudanças de governo. Prefeitos, vereadores, secretários, governadores, todos passam. A cidade permanece. Ou deveria permanecer.

Planejamento urbano exige continuidade administrativa, transparência, participação social e capacidade de avaliar resultados. Não pode depender apenas da vontade de quem ocupa temporariamente um gabinete.

É legítimo que diferentes administrações tenham prioridades distintas. A alternância de poder faz parte da democracia. Mas a proteção de nascentes, a conservação de edifícios históricos, a organização do transporte coletivo e a manutenção dos espaços públicos não deveriam ser tratadas como projetos pessoais de governantes. São responsabilidades institucionais.

O centenário de Goiânia oferece uma oportunidade rara: estabelecer uma agenda pública de sete anos, com metas verificáveis e acompanhamento permanente. Uma agenda que inclua a recuperação do Centro, a proteção do patrimônio, a mobilidade, a habitação, a arborização e a preservação dos recursos hídricos. Com orçamento, cronograma, responsáveis e prestação de contas.

Brasão do município de Goiânia, 1964, Praça Cívica. (Foto: Herbert Moraes)

Sem isso, corremos o risco de chegar a 2033 com uma programação de festas muito bem organizada e os problemas de sempre esperando do lado de fora. A cidade não precisa de uma comissão encarregada apenas de preparar seu aniversário, mas de estabelecer um compromisso coletivo com aquilo que deseja ser.

O centenário deveria servir como prazo para resultados, não como desculpa para produzir propaganda. E essa responsabilidade não cabe recai a um partido ou a uma administração específica. Ela pertence a todos os que exercem o poder público e, em última instância, aos cidadãos que têm o direito de fiscalizá-los.

O que devemos aos que vieram antes

Existe uma maneira particularmente injusta de contar a história de uma cidade: celebrar seus grandes personagens e esquecer aqueles que tornaram suas realizações possíveis. Goiânia conhece bem esse mecanismo.

Conhecemos os nomes dos políticos que decidiram construir a capital. Dos urbanistas que a desenharam. Dos administradores que conduziram suas primeiras décadas. Mas quantos trabalhadores da construção conhecemos pelo nome?

Quem são as mulheres que sustentaram famílias durante aqueles anos iniciais? Quantos pequenos comerciantes, operários, costureiras, cozinheiras e trabalhadores anônimos receberam o reconhecimento que mereciam?

A cidade não foi construída apenas nos gabinetes. Ela estava nos canteiros de obras, nas pensões, nas oficinas, nas cozinhas e nas casas improvisadas. Foi erguida por gente que provavelmente jamais imaginou aparecer em um livro de história. E, no entanto, sem essa gente, não haveria livro algum. É por isso que preservar a memória de Goiânia não pode significar apenas restaurar edifícios.

É necessário recuperar histórias, documentos, fotografias, depoimentos e trajetórias humanas. A memória não está somente nas fachadas, mas nas pessoas que passaram por elas. Aos 93 anos, Goiânia ainda tem a oportunidade de procurar seus personagens esquecidos, registrar suas experiências e corrigir silêncios.

Não será possível recuperar tudo. O tempo já levou testemunhas, destruiu documentos e apagou vestígios. Mas aquilo que ainda existe merece ser procurado. Uma cidade que desconhece seus trabalhadores conhece apenas metade de sua própria história e transforma seu passado em uma cerimônia de homenagens. Não em conhecimento.

Obelisco em estilo art déco, 1937, Praça Cívica. (Foto: Herbert Moraes)

O centenário começa amanhã

Em 2033, Goiânia completará cem anos. Haverá exposições, discursos, homenagens, documentários e fotografias mostrando a transformação da antiga capital planejada em uma grande metrópole. As imagens serão impressionantes. A cidade dos primeiros edifícios públicos, das ruas ainda em formação e dos trabalhadores cobertos de poeira parecerá distante.

Talvez seja difícil reconhecer, na paisagem contemporânea, o lugar onde tudo começou. O centenário não deveria ser medido apenas pela distância entre duas fotografias. É urgente entender o que existe entre outras duas realidades: Goiânia de 2026 e a Goiânia de 2033.

O que terá melhorado? Quantos espaços históricos terão sido recuperados? Como estarão nossos córregos? Teremos mais árvores protegidas e ruas confortáveis para caminhar? O transporte coletivo avançou em atendimento? O Centro foi recuperado? Os bairros mais afastados receberam investimentos capazes de reduzir desigualdades? Conseguimos construir uma cidade mais acessível às crianças, aos idosos e às pessoas com deficiência? E, sobretudo, conseguimos aprender a discutir o futuro sem considerar o passado um incômodo?  Essas perguntas precisam acompanhar Goiânia durante os próximos sete anos. Não como slogans, mas compromissos.

Goiânia em seu estado primitivo, 1933. Ao fundo, Morro da Serrinha. (Foto: Divulgação)

A cidade que ainda podemos escolher

É tentador imaginar que as cidades possuem destinos inevitáveis, que o crescimento desordenado é uma consequência natural do progresso, a destruição do patrimônio é o preço da modernização ou que as desigualdades sempre existirão e, portanto, pouco pode ser feito.

Essa resignação é confortável. Também é perigosa, porque cidades são construções humanas e não fenômenos naturais. Suas ruas, edifícios, praças, parques e bairros resultam de decisões políticas, econômicas e sociais. Algumas foram acertadas, outras produziram consequências que ainda estamos tentando compreender. Mas nenhuma delas torna o futuro inevitável.

Goiânia não precisa escolher entre permanecer congelada nos anos 1930 e entregar sua paisagem inteiramente às pressões do presente. Existe um caminho mais inteligente. Preservar o que merece permanecer. Transformar o que precisa mudar. Recuperar o que ainda pode ser recuperado. E reconhecer que desenvolvimento não é apenas construir mais. É viver melhor.

A cidade que queremos para 2033 não precisa ser perfeita, mas pode ser mais consciente de sua história e mais responsável com seu território. Precisa oferecer oportunidades sem exigir que seus habitantes renunciem à qualidade de vida. Crescer sem tratar a memória como entulho. E finalmente compreender que sua maior riqueza não está nos edifícios que ostenta, mas nas pessoas que vivem entre eles.

Vista aérea de Goiânia, com o traçado original do plano piloto da cidade, 1937. (Foto: Divulgação)

A Última Página – O Que Deixaremos para o Centenário

Ao longo desta série, voltamos ao nascimento de Goiânia, percorremos suas transformações e procuramos compreender as contradições de uma capital que nasceu sob o signo da modernidade. Encontramos sonhos grandiosos, decisões políticas, projetos urbanísticos, trabalhadores esquecidos, desigualdades e uma cidade que nem sempre conseguiu preservar aquilo que a tornou singular.

Estas reportagens não foram feitas para diminuir Goiânia. Muito menos para cultivar uma nostalgia artificial de um passado que também conheceu injustiças e dificuldades. Escrevemos porque a história de uma cidade não deve pertencer apenas aos seus governantes, aos seus monumentos ou às comemorações oficiais. Ela pertence, antes de tudo, às pessoas que a construíram e continuam construindo.

Goiânia não é apenas a Praça Cívica, a Avenida Goiás, os edifícios art déco ou os bairros que se multiplicaram em todas as direções. É também a memória de quem chegou com uma mala, encontrou trabalho, criou filhos, abriu uma pequena loja, plantou uma árvore diante de casa e decidiu ficar.

É a cidade das primeiras gerações e daqueles que chegaram ontem. Dos que a escolheram e dos que nasceram sem precisar escolher. Dos que enriqueceram com seu crescimento e dos que ainda esperam participar plenamente de seus benefícios. É a cidade que herdamos. E aquela que deixaremos. Talvez seja essa a pergunta mais importante de todas.

Que Goiânia entregaremos às crianças que hoje caminham por suas ruas e que, em 2033, estarão sete anos mais velhas?

“Monumento às três raças”, 1964, Praça Cívica. (Foto: Herbert Moraes)

Elas não participaram das decisões que deram origem à capital. Não escolheram seus governantes do passado, não desenharam suas avenidas, não autorizaram a destruição de seus edifícios e não decidiram o destino de seus córregos. Mas receberão as consequências de tudo isso. Assim como nós recebemos as escolhas das gerações anteriores. Há uma responsabilidade silenciosa nessa transmissão.

Uma cidade é uma herança que nenhuma geração tem o direito de consumir inteiramente. Aos 93 anos, Goiânia já viveu o suficiente para reconhecer seus erros. E ainda possui tempo para corrigir parte deles. Sete anos não serão suficientes para resolver todos os problemas de uma metrópole. Mas são tempo demais para justificar a imobilidade.

O centenário começa agora. Não nos palanques, nas cerimônias ou nas peças publicitárias. Começa nas decisões que tomaremos sobre o patrimônio, as árvores, a água, os espaços públicos e as pessoas, na coragem de reconhecer que nem tudo o que construímos representou progresso. E que nem tudo o que destruímos precisava desaparecer.

Goiânia não precisa voltar a ser a cidade de 1933. Aquela cidade já não existe. Seus pioneiros partiram, suas ruas mudaram, seus horizontes foram ocupados por edifícios que jamais caberiam na imaginação dos primeiros moradores. Mas há algo que não deveria ter desaparecido: a ousadia de pensar uma cidade para além do tempo de seus construtores. Foi essa ousadia que fez nascer Goiânia. E é dela que precisamos novamente.

Durante estas seis reportagens, percorremos 93 anos de uma história feita de ambição, coragem, contradições, injustiças, conquistas e esquecimentos. Encontramos os homens que sonharam com uma cidade. E procuramos aqueles que, sem jamais terem sido convidados a sonhar, tiveram de construí-la.

Descobrimos que a história oficial não conta tudo. Que os monumentos também escondem ausências. Que o progresso pode produzir ruínas. E que uma cidade, por mais jovem que seja, pode envelhecer precocemente quando começa a perder a memória.

Mas esta não é uma despedida melancólica. Goiânia continua viva.Está nas ruas que despertam antes do amanhecer. Nos trabalhadores que atravessam a cidade enquanto outros ainda dormem. Nas famílias que resistem, nos comerciantes que abrem suas portas, nas crianças que brincam onde ainda existe sombra, nos velhos que reconhecem nas esquinas uma cidade que já não está lá.

Está também nos que chegaram ontem, trazendo novos sotaques, novas histórias e a esperança de encontrar aqui uma vida melhor. Porque Goiânia nunca pertenceu apenas aos seus fundadores. Pertence a todos os que fizeram dela seu lugar no mundo.

E é justamente por isso que seu futuro não pode ser decidido apenas nos gabinetes, nos escritórios das construtoras ou nas salas onde se desenham mapas de uma cidade que, muitas vezes, seus próprios planejadores parecem conhecer apenas pela janela dos automóveis.

Nesse 24 de outubro, Goiânia completa 93 anos. Que venham todas as homenagens, discursos, fotografias antigas e celebrações. Uma cidade precisa comemorar sua existência. Mas seria imperdoável transformar o aniversário em um exercício de esquecimento.

Porque a verdadeira homenagem a Goiânia está em garantir que continue sendo uma cidade onde valha a pena viver. E isso exige mais do que amor, mas sobretudo, abandonar a confortável ideia de que o futuro é responsabilidade de alguém que ainda virá. O futuro já começou e nós estamos dentro dele.

Daqui a sete anos, quando Goiânia completar um século, talvez alguém volte a estas páginas e procure compreender o que pensávamos sobre a cidade aos seus 93 anos. Espero que encontre mais do que advertências e que tenha aprendido a cuidar de si mesma.

Porque construir uma cidade exige coragem. Mas preservá-la, corrigi-la e entregá-la melhor às próximas gerações exige uma virtude ainda mais rara: responsabilidade com aqueles que não estarão presentes para nos cobrar.

Feliz aniversário, Goiânia. Que seus 93 anos sejam o início da celebração de uma cidade que soube escolher o caminho. E que, em 2033, quando alguém perguntar o que fizemos com os sete anos que tínhamos pela frente, não precisemos responder com desculpas, fotografias de inaugurações ou promessas que envelheceram antes de sair do papel.

Porque a Goiânia que recebemos foi construída pela coragem de uma geração, e a que deixaremos será o retrato da nossa. E, desta vez, a história não poderá dizer que não fomos avisados.

Em março de 1937, Pedro Ludovico Teixeira assina o decreto que transfere a capital de Goiás para Goiânia. (Foto: Divulgação)

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