Goiânia nasceu dividida. De um lado, o concreto dos palácios, as avenidas planejadas e a promessa de modernidade. Do outro, o barro, a palha e a miséria de quem construía a nova capital. Às vésperas do aniversário da capital, vale conhecer a Goiânia que não aparece nos discursos de comemoração. Na quinta reportagem da série Goiânia, 93 anos, Bolha vai atrás de uma história que é pouco contada. Dos trabalhadores esquecidos, das famílias do Botafogo e de uma cidade que nasceu moderna na arquitetura, mas profundamente desigual na vida real.

____________________________________________________________________________

As duas Goiânias

Goiânia nasceu em dois ritmos e com dois materiais. De um lado, concreto, avenidas largas, edifícios públicos e a promessa de uma capital moderna (para 50 mil habitantes, dizia-se). Do outro, madeira, barro, palha e famílias tentando sobreviver às margens do Córrego Botafogo.

A primeira Goiânia era desenhada nas pranchetas dos arquitetos, discutida nos gabinetes e celebrada nos discursos oficiais do governo. A segunda surgia quase por conta própria, levantada por trabalhadores que chegavam de diferentes regiões de Goiás e do país em busca de emprego e de alguma possibilidade de melhorar de vida.

Eram duas (ou até mais: uma urbe é feita de várias urbes) cidades crescendo simultaneamente. Uma tinha endereço no futuro. A outra mal conseguia encontrar lugar no presente. Aos 93 anos, Goiânia preserva a memória de seus governantes, arquitetos, engenheiros e pioneiros ilustres. Seus nomes estão nas ruas, nas praças, nos edifícios e nos livros. Mas existe uma multidão de pessoas – homens e mulheres, em seus vários fronts – que participou da construção da capital e que ainda permanece anônima. A capital goiana teve seus candangos antes dos candangos de Brasília (esta, como se sabe, uma espécie de filha de Goiânia).

Trabalhadores anônimos que construíram Goiânia. (Foto: Divulgação)

São os homens que carregaram pedras, assentaram tijolos, abriram ruas e ergueram os primeiros edifícios. São as mulheres que sustentaram famílias, trabalharam nas casas, no comércio e nos serviços indispensáveis ao funcionamento de uma cidade ainda em formação. A história oficial reconhece os autores do projeto. Conhece muito menos seus executores – verdadeiros artífices. E há uma diferença considerável entre desenhar uma cidade e construí-la.

A capital dos palácios e dos ranchos de palha

Nos primeiros anos da construção de Goiânia, a paisagem ao longo do Córrego Botafogo contrastava violentamente com a imagem de modernidade que o governo pretendia apresentar. Na Praça Cívica, os edifícios monumentais começavam a tomar forma, enquanto os trabalhadores e suas famílias se instalavam em moradias improvisadas, muitas delas feitas de materiais precários. A pobreza não estava escondida em alguma região distante, mas ao lado das obras que simbolizavam o progresso. Era o trabalho “empurrando” o capital.

À beira do Córrego Botafogo, famílias se instalavam em moradias improvisadas, feitas de matérias precários. (Foto: Divulgação)

Um levantamento histórico referente a 1935 registra aproximadamente 600 pessoas vivendo em 136 ranchos improvisados nas proximidades do Botafogo. Entre elas, havia mais de uma centena de crianças em idade escolar. São números reveladores, porque não se tratava de meia dúzia de “aventureiros” acampados provisoriamente no Cerrado. Era uma comunidade inteira tentando organizar a própria existência. Todos aqueles homens e mulheres participavam da construção da capital. Entretanto, o trabalho que realizavam não lhes garantia condições adequadas de moradia. Durante o dia, erguiam paredes destinadas a abrigar a administração pública. À noite, voltavam para construções de barro, madeira e palha. A contradição estava diante dos olhos de todos. Só não via quem não queria ver.

Trabalhadores viviam em condições precárias à beira do Córrego Botafogo. (Foto: Divulgação)

Goiânia pretendia representar uma ruptura com o passado (político, arquitetônico). Mas parte de seus construtores – seres de uma fibra inaudita – vivia em condições que pouco combinavam com a propaganda de uma capital moderna. O futuro chegava depressa aos edifícios públicos. Às famílias dos operários, nem tanto. Elas ficaram com o ônus – nunca com o bônus.

Bairro Popular, Setor dos Funcionários e a geografia da desigualdade

A divisão social da nova capital também pode ser compreendida pela formação de seus primeiros espaços residenciais. O Bairro Popular, o Setor dos Funcionários e as ocupações próximas ao Botafogo ajudam a revelar as diferentes condições de vida existentes na Goiânia nascente. É necessário distinguir suas trajetórias. Não eram bairros socialmente homogêneos, tampouco possuíam exatamente as mesmas características.

O Bairro Popular tornou-se uma referência importante da ocupação residencial e comercial dos primeiros tempos da cidade. Pesquisas sobre a história da habitação em Goiânia identificam, por exemplo, casas operárias na Rua 71. (Note-se, inclusive, o nome do setor – “Popular”.)

Bairro Popular: na imagem vê-se ao fundo a Rua 71, com casas operárias idênticas umas às outras. (Foto: Divulgação)

Já os espaços associados aos funcionários públicos expressavam outra dimensão da formação da capital: a necessidade de instalar os servidores, técnicos e profissionais que acompanhavam a transferência da estrutura administrativa estadual. Havia diferenças entre funcionários graduados, servidores de menor remuneração e trabalhadores braçais. A questão de classe social está sempre presente, desde tempos idos.

A hierarquia existente nos gabinetes também se refletia nas possibilidades de moradia. Enquanto alguns encontravam acomodações vinculadas à estrutura administrativa ou tinham condições de construir residências mais sólidas, outros dependiam de alojamentos precários e soluções improvisadas. Nas margens do Botafogo, a situação podia ser particularmente difícil. (Vale inclusive discutir sobre o início da especulação imobiliária em Goiânia: quando e quem a começou? Quais eram os potentados?)

A cidade planejada estabelecia avenidas, setores e perspectivas monumentais. A cidade vivida precisava encontrar espaço para cozinhar, dormir, criar filhos e sobreviver. Uma obedecia ao desenho urbano, já a outra, às necessidades imediatas de seus habitantes. O contraste era explícito em todos os aspectos: arquitetônico, social, econômico e político.

Os trabalhadores que incomodavam Pedro Ludovico

Há um episódio particularmente perturbador nessa história. Pesquisas acadêmicas que recuperaram documentos e depoimentos sobre as primeiras ocupações de Goiânia registram ações de fiscalização, demolições de moradias e relatos de violência contra moradores instalados em áreas consideradas irregulares.

Os testemunhos mencionam homens ligados à fiscalização governamental que derrubavam construções e intimidavam famílias. Entre os personagens citados aparece um fiscal conhecido como Luisão, descrito por antigos moradores como alguém que agia de maneira violenta, inclusive armado. Há também relatos sobre incêndios e confrontos durante tentativas de expulsão. (Esta, infelizmente, é quase uma história apócrifa – muito pouco conhecida e contada. Por isso precisa sair dos livros acadêmicos e ganhar os jornais e as ruas.)

Os testemunhos associam essas ações à administração de Pedro Ludovico Teixeira, principal responsável político pela transferência da capital. É indispensável, entretanto, estabelecer uma distinção: os relatos históricos de violência não equivalem, por si só, à comprovação de uma ordem pessoal do interventor determinando espancamento ou incêndios.

Sua última entrevista foi concedida ao Jornal Opção, realizada por seu fundador, jornalista Herbert Moraes Ribeiro, em 1979. Pedro negou categoricamente que nunca esteve por trás de tais atrocidades. (Em breve, o Jornal Opção deverá republicar a última entrevista do fundador de Goiânia para um órgão de imprensa. *Ele morreu duas semanas depois.)

Em 1979, Pedro Ludovico Teixeira concedeu entrevista histórica ao jornalista e fundador do Jornal Opção, Herbert Moraes Ribeiro, e ao editor-chefe do jornal à época, José Luiz Bittencourt. (Foto: Jornal Opção)

Até aqui, não foi identificada uma determinação assinada pelo interventor com esse conteúdo. O que existe, além dos depoimentos, são registros administrativos que demonstram a disposição do poder público de combater determinadas ocupações.

Em janeiro de 1938, por exemplo, um documento da Diretoria Geral de Saúde sugeria impedir o fornecimento de energia elétrica à ocupação do Botafogo. Em março daquele ano, outro expediente solicitava providências da Segurança Pública para a demolição de construções não autorizadas. A questão ultrapassava, portanto, a simples preocupação com o ordenamento urbano. Envolvia o próprio direito de permanência de famílias que viviam e trabalhavam na capital.

O paradoxo é difícil de ignorar. O governo precisava dos braços daqueles trabalhadores para construir Goiânia. Mas parte das moradias que eles improvisavam era considerada incompatível com a cidade que se pretendia criar. Os pobres, afinal, estão sempre na rabeira da história.

Os homens eram necessários às obras. Suas casas, nem sempre.

É uma passagem pouco confortável da história da capital. Talvez por isso mereça ser examinada com mais atenção do que recebeu nas comemorações oficiais. A modernidade também atrasava salários. As dificuldades dos primeiros trabalhadores não se limitavam à habitação.

Pesquisas sobre o cotidiano operário na construção de Goiânia identificam atrasos salariais, dificuldades de abastecimento, conflitos trabalhistas e mobilizações durante a década de 1930. Entre 1934 e 1936, trabalhadores participaram de movimentos relacionados às condições de trabalho e ao pagamento de salários. A construção da capital exigia um enorme esforço humano. Era necessário abrir vias, transportar materiais, levantar edifícios, instalar serviços e transformar uma região de características predominantemente rurais em sede administrativa do Estado. E tudo isso dependia de gente.

Durante os primeiros anos da construção de Goiânia, os trabalhadores também enfrentaram falta de pagamento, transporte e abastecimento. Os conflitos trabalhistas eram constantes. (Foto: Divulgação)

Gente que precisava comer, vestir-se, morar e sustentar a família. O entusiasmo político com a transferência da capital não eliminava as dificuldades concretas enfrentadas pelos trabalhadores. Em determinados momentos, a distância entre a propaganda governamental e a experiência cotidiana podia ser considerável.

A nova capital representava oportunidades reais para muitos migrantes. Também significava jornadas difíceis, insegurança econômica e condições precárias de sobrevivência. As duas realidades coexistiam. A história não precisa transformar Goiânia num fracasso para reconhecer suas contradições. Basta abandonar a ideia de que sua construção foi uma sucessão ininterrupta de feitos heroicos.

Pedro Ponchet Meireles: um nome entre milhares

Entre os depoimentos recuperados por pesquisadores competentes e abnegados está o de Pedro Ponchet Meireles, que chegou a Goiânia em 1939. Como tantos outros, foi atraído pelas notícias sobre as oportunidades abertas pela construção da capital. Trabalhou como servente de pedreiro.

Seu relato descreve dificuldades para conseguir moradia e adquirir os objetos mais elementares da vida doméstica. Durante os primeiros meses, dependeu da hospitalidade de conhecidos. A experiência de Pedro Ponchet ajuda a compreender o significado concreto da migração para Goiânia.

Não bastava chegar. Era necessário encontrar trabalho, conseguir um lugar para dormir, estabelecer relações e enfrentar as dificuldades de uma cidade que ainda não possuía estrutura suficiente para receber todos os que procuravam nela um futuro.

A trajetória individual permite enxergar aquilo que frequentemente desaparece nas estatísticas. Por trás de cada trabalhador havia uma vida inteira carregada de expectativas, frustrações, relações familiares, pequenas conquistas e derrotas.

Eles eram milhares, e cada um deles carregava a sua própria história de superação e sobrevivência. (Foto: Divulgação)

Pedro Ponchet não representa automaticamente todos os operários da capital. Mas sua história ajuda a recuperar uma dimensão humana que os relatos monumentais costumam deixar de lado.

As mulheres que também construíram Goiânia

A memória tradicional da fundação de Goiânia é predominantemente masculina; portanto, excludente. Pedro Ludovico, Attílio Corrêa Lima, Armando Augusto de Godoy, Andrelino Rodrigues e outros personagens ocupam os capítulos principais. As mulheres aparecem com menos frequência. E, quando surgem, muitas vezes são identificadas apenas como esposas ou familiares dos pioneiros.

É uma representação incompleta. As mulheres participaram da formação da cidade por meio do trabalho doméstico remunerado e não remunerado, do comércio, da educação, dos serviços e das redes de apoio que permitiam às famílias sobreviver.

O papel das mulheres na construção da nova capital de Goiás foi fundamental, mas elas foram suprimidas dos capítulos principais, por isso, aparecem com menos frequência. (Foto: Divulgação)

Nas moradias precárias, eram frequentemente responsáveis por tarefas essenciais à manutenção da vida cotidiana: preparar alimentos, cuidar de crianças, buscar água, lavar roupas e organizar a sobrevivência doméstica exigia trabalho contínuo. De algum modo, com seu trabalho de base ou sustentação, as mulheres garantiam que os homens se levantassem de manhã para trabalhar nas melhores condições possíveis.

Também havia professoras, comerciantes e mulheres que exerciam atividades remuneradas, mas suas experiências não eram iguais. A condição social determinava diferenças profundas entre a vida de uma mulher pertencente à elite administrativa e a de uma trabalhadora que morava nas proximidades do Botafogo.

O mesmo vale para a população negra e para outros grupos cuja participação precisa ser recuperada mediante documentação específica, sem atribuições genéricas ou personagens inventados. A história dessas mulheres não pode ser reduzida a uma homenagem protocolar. Precisa ser investigada. Afinal, uma cidade não se constrói apenas com edifícios, mas também com o trabalho necessário para que seus habitantes continuem vivos.

O que as fotografias não mostram

As imagens históricas de Goiânia constituem um patrimônio extraordinário. Registram avenidas ainda vazias, edifícios em construção, máquinas, operários, solenidades e autoridades. Entre os fotógrafos que documentaram os primeiros anos da capital está Alois Feichtenberger.

Uma fotografia atribuída a Alois Feichtenberger, datada de 1936 e preservada no acervo do Museu da Imagem e do Som de Goiás, registra ranchos construídos às margens do Córrego Botafogo. É uma imagem fundamental para compreender o nascimento da cidade. Ali está uma Goiânia muito diferente daquela que costuma aparecer nos cartões-postais. Não há monumentalidade. Há moradias improvisadas. Não há fachadas art déco. Há a precariedade de uma população que precisava encontrar onde viver. Sim, há vida, movimento. São um retrato dos construtores esquecidos.

Numa outra Goiânia não havia monumentalidade, apenas moradias improvisadas e precárias. (Foto: Divulgação)

O contraste entre essas imagens e as fotografias dos edifícios públicos revela duas dimensões simultâneas da mesma história. Nenhuma delas deve ser apagada. O problema começa quando apenas uma é escolhida para representar o passado, quer dizer, a história. O que ficou, como história – a dos grandes homens –, praticamente excluiu a dos trabalhadores e trabalhadoras.

Edifícios públicos monumentais contam a outra história da cidade: a que exclui da foto a classe trabalhadora. (Foto: Divulgação)

Durante décadas, a narrativa da fundação privilegiou o planejamento, as decisões políticas e as realizações arquitetônicas. A vida dos trabalhadores recebeu atenção muito menor. Mas a memória urbana não pode ser construída exclusivamente a partir daquilo que o poder decidiu fotografar. Também é necessário procurar o que ficou fora do enquadramento.

A cidade que cresceu para além do projeto

Goiânia foi concebida como uma capital planejada. Essa característica permanece central para compreender sua formação. Entretanto, nenhuma cidade existe apenas no papel. O crescimento populacional, a migração, as necessidades de moradia e as desigualdades econômicas rapidamente produziram situações que ultrapassavam as previsões urbanísticas. A ocupação das margens do Botafogo e a formação de áreas populares são expressões desse processo. A cidade real foi se impondo sobre a cidade idealizada.

O fenômeno não era exclusivo de Goiânia. Outras capitais planejadas também enfrentaram contradições entre os projetos oficiais e as condições de vida dos trabalhadores. Mas, em Goiânia, essas diferenças aparecem desde os primeiros anos. Não foram simplesmente consequências de um crescimento desordenado ocorrido décadas depois. Estavam presentes enquanto os edifícios públicos ainda eram erguidos. A desigualdade acompanhou a fundação. E essa constatação obriga a olhar para a história da capital por um ângulo diferente. O planejamento urbano representou uma transformação importante para Goiás. Mas a modernidade arquitetônica não significou igualdade social.

Em Goiânia, as avenidas podiam ser largas, mas as oportunidades, nem sempre. Eram desiguais, e continuam até os dias de hoje. (Foto: Divulgação)

E depois que construíram Goiânia, para onde foram os trabalhadores?

A história dos trabalhadores não terminou quando os primeiros palácios ficaram prontos. Esta talvez seja uma das perguntas mais importantes sobre a formação da capital. Afinal, o que aconteceu com os homens e mulheres que chegaram ao Cerrado para participar de sua construção? Foram embora? Permaneceram? Conseguiram uma casa? Continuaram trabalhando na cidade?

Os trabalhadores que construíram Goiânia também ajudaram a erguer a cidade que cresceu ao redor deles, mas nem todos tiveram o mesmo destino. (Foto: Divulgação)

A resposta não é única. Muitos permaneceram em Goiânia. Constituíram famílias, estabeleceram relações de vizinhança e participaram da formação de bairros populares que cresceram para além dos limites originalmente previstos pelos urbanistas. (Muitos deles, mais tarde, teriam ido construir Brasília?)

A Vila Nova tornou-se um dos exemplos mais expressivos dessa permanência. Sua formação está relacionada à chegada de trabalhadores e migrantes que procuravam emprego nas obras e passaram a ocupar áreas a leste da cidade planejada. (Era a nascente periferia, na época?)

A Vila Operária, na região entre Campinas e o Córrego Capim Puba, também se consolidou como espaço de moradia de famílias trabalhadoras. O Bairro Popular integrou essa geografia social, embora sua ocupação tenha apresentado características próprias.

Esses lugares não foram apenas soluções improvisadas para um problema habitacional. Com o passar dos anos, transformaram-se em bairros, desenvolveram atividades comerciais, estabeleceram relações comunitárias e passaram a integrar a vida econômica e social de Goiânia.

Aqueles trabalhadores não construíram somente os edifícios da administração pública. Também ajudaram a construir a cidade que cresceu ao redor deles. Seus filhos nasceram ou cresceram na capital. Famílias criaram raízes. Pequenos negócios surgiram. Relações de vizinhança transformaram ocupações inicialmente precárias em comunidades urbanas.

A Goiânia que havia sido concebida nos gabinetes começava a adquirir uma identidade que nenhum arquiteto poderia desenhar sozinho. Mas nem todos tiveram necessariamente o mesmo destino. O trabalho nas obras era instável. Havia períodos de contratação intensa, interrupções, atrasos salariais e dificuldades econômicas. Parte da mão de obra circulava conforme a disponibilidade de emprego.

Depois da construção de Goiânia muitos operários ficaram, outros partiram em busca de novas oportunidades. (Foto: Divulgação)

É plausível que alguns trabalhadores tenham procurado oportunidades em outras localidades, embora as pesquisas consultadas não permitam estabelecer quantos deixaram Goiânia depois de participar de sua construção.

Não existe, nas fontes examinadas, uma contabilidade definitiva dos que permaneceram e dos que partiram (para onde?). A ausência dessa informação também revela uma lacuna importante. Goiânia registrou seus edifícios com muito mais precisão do que o destino dos homens que os levantaram.

A história de Pedro Ponchet Meireles e os depoimentos preservados de antigos moradores demonstram que parte daqueles migrantes conseguiu estabelecer vínculos duradouros com a capital. Outros permaneceram em condições difíceis, acompanhando a expansão da cidade e procurando novas formas de sobrevivência.

O crescimento urbano não eliminou automaticamente as desigualdades que marcaram os primeiros anos. A formação de bairros populares representou, ao mesmo tempo, uma conquista de espaço e a continuidade de dificuldades sociais.

É necessário evitar uma interpretação excessivamente romântica desse processo. Permanecer em Goiânia não significava necessariamente prosperar. Conseguir um terreno não significava dispor de infraestrutura. Formar um bairro não significava receber imediatamente os serviços públicos existentes nas áreas mais valorizadas.

Construção de ponte sobre o Córrego Capimpuba. Com o passar do tempo, os trabalhadores se tornaram cidadãos goianienses. (Foto: Divulgação)

A permanência dessas famílias demonstra algo essencial: os trabalhadores não desapareceram da história quando terminaram as primeiras obras. Continuaram participando da construção de Goiânia, agora não apenas como operários, mas como moradores, comerciantes, pais, mães e integrantes de uma sociedade que crescia rapidamente. Ao final, foi parte da população que inicialmente não encontrava lugar na cidade planejada que acabou ajudando a formar a Goiânia para além do planejamento.

Instalação de rede elétrica pública em Goiânia, 1935. (Foto: Divulgação)

E talvez seus descendentes ainda caminhem pelas mesmas ruas sem saber que a história da própria família se confunde com a fundação da capital. A cidade não deixou de precisar deles quando as paredes ficaram prontas. Apenas continuou crescendo sobre o trabalho de uma população que raramente recebeu o reconhecimento concedido aos seus fundadores. (Vale conferir um trecho da música “Cidadão”, de Lucio Barbosa, cantada por Zé Ramalho: “Tá vendo aquele edifício, moço?/ Ajudei a levantar/ Foi um tempo de aflição/ Era quatro condução/ Duas pra ir, duas pra voltar/ Hoje depois dele pronto/ Olho pra cima e fico tonto/ Mas me vem um cidadão/ E me diz, desconfiado/ Tu tá aí admirado/ Ou tá querendo roubar?”

Noventa e três anos depois

 Em 24 de outubro de 2026, Goiânia completa 93 anos. É uma cidade muito diferente daquela que começou a surgir no Cerrado durante a década de 1930. Cresceu, transformou-se numa metrópole, desenvolveu atividades econômicas importantes e consolidou uma identidade própria.

Também preservou parte significativa de sua arquitetura original, embora tenha permitido a destruição ou descaracterização de muitos testemunhos materiais de seu passado. No entanto, a memória de seus fundadores continua presente.

Pedro Ludovico permanece como figura central da história política goiana. Attilio Corrêa Lima é reconhecido pelo plano urbanístico original. Armando Augusto de Godoy ocupa seu lugar nos estudos sobre o desenvolvimento da capital e Andrelino Rodrigues é lembrado como o doador das terras onde a cidade foi erguida.

Esse reconhecimento é legítimo. Mas a história de Goiânia não termina nos nomes dos homens que a planejaram e governaram. Existe uma cidade construída por milhares de trabalhadores que raramente aparecem individualmente nos livros, assim como memória das mulheres que participaram de sua formação, as famílias que viveram nos ranchos do Botafogo, os conflitos por salários, as dificuldades de moradia, as demolições e as tentativas de expulsão.

Existem histórias que sobreviveram em depoimentos, documentos administrativos, fotografias e lembranças familiares. E são parte de Goiânia os bairros que esses mesmos trabalhadores ajudaram a formar depois que os primeiros edifícios ficaram prontos.

Aos 93 anos, Goiânia tem maturidade suficiente para examinar essas contradições sem transformar seus fundadores em santos ou demônios. Reconhecer a importância histórica de Pedro Ludovico não exige ignorar os episódios de repressão ocorridos durante sua administração.

Da mesma forma, identificar a qualidade de um projeto urbanístico não significa fingir que todos os habitantes puderam desfrutar igualmente de seus benefícios. A cidade foi uma realização política, arquitetônica e humana. E também um espaço de disputas, desigualdades e conflitos. A história completa precisa conter tudo isso.

Talvez seja essa uma das tarefas mais importantes da memória: devolver existência àqueles que o tempo transformou em números, sombras ou figuras anônimas nas fotografias. Porque Goiânia não foi construída apenas por quem assinou decretos, desenhou avenidas ou inaugurou palácios, mas também por quem carregou seus tijolos, preparou sua argamassa, abriu suas ruas e encontrou forças para continuar vivendo em condições que a propaganda oficial raramente mostrava.

A capital de Goiás nasceu com duas cidades dentro de si (hoje, talvez seja possível sugerir que há várias Goiânias. Há inclusive “cidades” que, embora modernas, parecem cidades medievais. São os condomínios horizontais cercados. Há, de maneira flagrante, um afastamento entre as classes sociais). Uma ganhou palácios, fotografias e monumentos. A outra ajudou a erguer tudo isso. Noventa e três anos depois, o outro lado ainda espera que sua história também seja contada.

Em 2026, aos 93 anos, o outro lado da história sobre a construção de Goiânia ainda precisa ser contada. (Foto: Herbert Moraes)

Leia também: