O Centro de Goiânia não morreu. Foi abandonado à própria sorte
20 outubro 2026 às 18h57

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Na segunda reportagem da série especial pelos 93 anos de Goiânia, Bolha revisita o Centro que foi, investiga o que fizeram dele e pergunta o que ainda pode ser recuperado antes do centenário.
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O Centro de Goiânia não está morto. Convém esclarecer isso antes que alguém resolva providenciar o atestado de óbito e transformar o velório em mais um projeto de revitalização urbana. Ele continua ali, entre a Praça Cívica, a Avenida Goiás, a Anhanguera e um emaranhado de ruas que guardam mais histórias do que boa parte dos arquivos oficiais. Milhares de pessoas ainda trabalham, compram, vendem, caminham e sobrevivem naquele território. O Centro tem comércio, serviços, moradores, memória e uma vida cotidiana que resiste à insistência com que se anuncia sua decadência.

O que ele perdeu não foi a vida, mas a centralidade. E essa diferença é enorme. Durante décadas, o Centro foi o endereço onde Goiânia se reconhecia. Ali estavam o poder político, os cinemas, os hotéis, as lojas mais elegantes, os cafés, os escritórios, os encontros amorosos, as disputas partidárias e os acontecimentos que depois seriam transformados em história.

Ir ao Centro não era simplesmente deslocar-se de um bairro para outro. Era participar da cidade. Hoje, para muitos goianienses, a região se tornou sobretudo um lugar de passagem, trabalho ou compras. Um território que se utiliza durante o dia e do qual se procura sair antes que anoiteça.

Isso não aconteceu de repente. Tampouco foi um acidente. O esvaziamento relativo do Centro é resultado de decisões urbanísticas, transformações econômicas, mudanças nos hábitos de consumo, expansão imobiliária e sucessivas administrações que aprenderam a anunciar sua recuperação com uma eficiência muito superior à capacidade de realizá-la. A ironia é que tudo começou com um plano.

Uma capital desenhada para ter coração
Quando Attilio Corrêa Lima concebeu o núcleo inicial de Goiânia, na década de 1930, não estava apenas distribuindo ruas e edifícios. Estava organizando espacialmente uma ideia de poder.

A Praça Cívica seria o centro administrativo, de onde partiriam grandes vias. A Avenida Goiás funcionaria como eixo monumental, estabelecendo uma ligação simbólica entre o governo e a cidade em formação. Havia referências ao urbanismo europeu, aos bulevares e à preocupação com perspectivas, arborização e espaços públicos. A cidade deveria ser moderna, organizada e, sobretudo, reconhecível. A história tratou de acrescentar gente ao desenho.

O Grande Hotel, inaugurado em janeiro de 1937, tornou-se um dos primeiros endereços da sociabilidade goianiense. Hospedou visitantes, recebeu encontros políticos e abrigou conversas que ajudaram a construir a vida cultural da capital. Ao redor dele, Goiânia foi adquirindo hábitos.

Havia o passeio pela Goiás, o chamado footing, quando caminhar era uma forma de namorar sem necessariamente admitir a intenção. Havia as vitrines, as confeitarias, as sessões de cinema, os encontros diante do Grande Hotel. O Teatro Goiânia, inaugurado em 1942, acrescentou outra dimensão à vida cultural da cidade.

A modernidade também tinha suas pequenas cerimônias: vestir-se para sair, encontrar conhecidos, observar quem passava, comentar a vida alheia com a discrição possível numa cidade em que quase todos se conheciam. O Centro não era apenas um lugar. Era um comportamento.
A Avenida Anhanguera, cruzando a Goiás, consolidou o movimento comercial na Praça do Bandeirante. A Rua 8 (depois passou a ser chamada de rua do lazer) e outras vias como a Rua 7 com a Anhanguera, onde ficava o Café Central, tornaram-se referências de convivência, assim como os mercados públicos, os hotéis e os estabelecimentos populares demonstravam que a cidade não pertencia apenas aos frequentadores dos salões elegantes. Havia também trabalhadores, ambulantes, funcionários públicos, estudantes, comerciantes e migrantes.

A Goiânia oficial aparecia nas fotografias dos edifícios recém-inaugurados. A cidade real começava a se formar nas calçadas. E talvez esteja aí uma das grandes ironias de sua história: o Centro foi planejado por urbanistas, mas ganhou identidade pelas pessoas que aprenderam a ocupá-lo.

O endereço que deixou de ser obrigatório
A partir da segunda metade do século XX, Goiânia cresceu muito além das dimensões imaginadas em sua concepção inicial. No final dos anos de 1950, a cidade que tinha sido planejada para 50 mil habitantes já tinha o triplo dessa população. A expansão residencial, a valorização de outros setores, a multiplicação de avenidas comerciais e, posteriormente, dos shopping centers modificaram a geografia do consumo e da convivência. O Centro deixou de concentrar tudo.
Essa transformação não foi exclusivamente goianiense. Muitas cidades brasileiras experimentaram processos semelhantes. Atividades comerciais migraram, empresas procuraram novos endereços, famílias passaram a morar em bairros mais distantes e a vida urbana se reorganizou em torno do automóvel.
Mas Goiânia acrescentou ao fenômeno uma particularidade: tinha um núcleo central relativamente jovem, planejado e dotado de infraestrutura, que passou a perder prestígio antes mesmo de completar um século.

O problema não foi o surgimento de novas centralidades. Uma metrópole precisa delas. O problema foi permitir que o antigo coração da cidade perdesse progressivamente moradores, atividades noturnas, manutenção e atratividade. O abandono, entretanto, não deve ser confundido com ausência de gente.
Há trabalhadores que dependem daquele comércio, famílias que continuam morando ali e pequenos empresários que mantêm as portas abertas apesar das dificuldades. Há uma economia popular que frequentemente desaparece das propostas de revitalização, como se recuperar o Centro significasse substituir seus atuais frequentadores por consumidores mais elegantes. Uma cidade não se recupera expulsando as pessoas que a mantiveram viva. Tampouco se recupera apenas pintando fachadas.
A revitalização como promessa permanente
Poucas expressões foram tão utilizadas em Goiânia quanto revitalizar o Centro. Essa palavra atravessou administrações, projetos e campanhas. Apareceu associada à recuperação de calçadas, reorganização do trânsito, iluminação, segurança, patrimônio arquitetônico e incentivos econômicos.
Algumas intervenções produziram melhorias. Outras tiveram alcance limitado. O conjunto, entretanto, não conseguiu reverter de maneira duradoura a perda de centralidade da região. Em 2026, surgiu uma iniciativa que merece atenção: o programa Morar no Centro.
A Lei Complementar nº 391, de 30 de setembro de 2026, instituiu benefícios para estimular a ocupação residencial no Setor Central, inclusive mediante a recuperação de imóveis desocupados e a adaptação de antigos hotéis para moradia. A proposta contempla incentivos tributários e apoio financeiro para locação, dependendo das condições regulamentares.
A iniciativa parte de uma constatação importante: o Centro precisa voltar a ser um lugar onde as pessoas vivam, e não apenas trabalhem. Mas aprovar uma lei não equivale a produzir resultados. Será necessário acompanhar quantos imóveis efetivamente serão recuperados, quantas famílias passarão a morar na região, quais faixas de renda serão atendidas e como o patrimônio arquitetônico será integrado à política habitacional.

Há ainda uma questão fundamental: trazer moradores para o Centro não pode significar simplesmente abrir caminho para uma nova valorização imobiliária que, em poucos anos, torne a região inacessível à população que se pretendia atrair. Revitalização sem inclusão social pode ser apenas uma forma mais sofisticada de substituição urbana.
A cidade que já está construída
Goiânia passou décadas expandindo seus limites, abrindo loteamentos e levando infraestrutura a regiões cada vez mais distantes. Enquanto isso, seu núcleo original já possuía ruas, redes de serviços, equipamentos públicos, transporte, comércio e edifícios que poderiam receber novos usos.
Há algo de economicamente contraditório em abandonar estruturas urbanas consolidadas enquanto se investem recursos para reproduzir parte delas em áreas periféricas. A recuperação do Centro deveria ser tratada não como uma questão exclusivamente estética, mas como parte da política habitacional, ambiental, cultural e econômica da capital.

Edifícios subutilizados podem abrigar residências, bibliotecas, escolas, ateliês, pequenas empresas, espaços culturais e serviços públicos. Antigos hotéis podem receber usos compatíveis com sua arquitetura. Ruas podem ganhar calçadas acessíveis, arborização e iluminação adequada. E o patrimônio histórico, longe de impedir essas transformações, pode ser um de seus maiores atrativos. Mas existe uma condição: a recuperação precisa ser planejada para durar mais do que um mandato.
O Centro não precisa de uma sucessão de inaugurações, mas de continuidade administrativa. Também necessita de algo que nenhuma obra pública consegue entregar sozinha: a sensação de pertencimento. Uma cidade começa a perder seus espaços quando os habitantes deixam de considerá-los parte da própria vida.
O centenário começa no Centro
Em 2033, Goiânia completará cem anos. A cidade terá crescido mais, provavelmente terá novos bairros, edifícios, outras avenidas e problemas que ainda nem conseguimos antecipar.
Mas a Praça Cívica continuará sendo o lugar onde se materializou a ambição política de construir uma nova capital. A Avenida Goiás continuará carregando a memória de seus primeiros habitantes. O Grande Hotel, o Teatro Goiânia, os mercados e as ruas antigas continuarão oferecendo pistas sobre a cidade que existiu antes da metrópole.
Isso, naturalmente, se tivermos a inteligência de preservar e utilizar esses espaços.
O desafio não consiste em devolver ao Centro a condição de único endereço importante de Goiânia. Esse tempo passou, e não há motivo para desejar seu retorno. A questão é muito mais interessante: transformar o núcleo histórico numa região viva, habitada, economicamente diversa, culturalmente relevante e integrada à cidade contemporânea. Não precisamos reconstruir a Goiânia de 1940, mas temos que impedir que a Goiânia de 2033 seja incapaz de reconhecer aquela que lhe deu origem.

Talvez a palavra revitalização já tenha sido utilizada em excesso, melhor falar em reocupação, conservação, habitação, cultura e vida urbana. Porque o Centro nunca deixou inteiramente de viver. Apenas carece, há tempos, de receber a atenção proporcional à sua importância.
E, convenhamos, é quase inacreditável pensar que uma cidade que nasceu planejada precise, menos de cem anos depois, de tantos planos para recuperar o lugar onde começou.
Aos 93 anos, Goiânia deveria responder a uma pergunta: se não consegue devolver dignidade ao próprio Centro, que espécie de cidade pretende apresentar ao mundo quando completar um século?
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