A primeira coisa que Frei Nazareno Confaloni pintou em Goiás foi uma “dúvida”.

Não uma aparição, uma glória celestial, um santo instalado na eternidade ou qualquer dessas Lcertezas que, durante séculos, fizeram da pintura religiosa uma passagem segura entre o homem e Deus. Confaloni começou pelo avesso. No primeiro dos quinze afrescos pintados na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Cidade de Goiás, uma figura retira uma máscara.

“As Dúvidas”, Igreja do Rosário, Cidade de Goiás: “Ecce Homo”, “Eis o homem”. (Foto: Herbert Moraes)

A obra é conhecida como “As Dúvidas”. Mas ninguém tinha dúvida: um grande pintor havia se tornado, por assim dizer, “goiano”.

Talvez esteja ali uma das maneiras mais sugestivas de começar a entender Confaloni.

O frade italiano, que desembarcou em Goiás no início dos anos 1950, não passou os 26 anos seguintes oferecendo apenas respostas. Sua obra e sua atuação suscitaram perguntas para a arte, a religião, o gosto de uma sociedade que ainda se acostumava à modernidade e, sobretudo, para uma cidade que esperava encontrar santos e deparou com seres humanos.

Nazareno Confaloni desembarcou em Goiás, em 1952, e fez do Cerrado sua casa. (Foto divulgação)

Os pés eram grandes. As mãos, enormes. Os corpos escapavam da proporção clássica e os rostos nem sempre eram bonitos. Havia algo profundamente incômodo naquilo. Era o que a arte promove: chamar a atenção para o invulgar, para a diferença, digamos assim.

Confaloni não chegou a Vila Boa apenas para decorar uma igreja. Trouxe, conforme indicam os registros de sua formação, uma educação europeia rigorosa, a experiência religiosa dos dominicanos, o desenho, a pintura italiana e uma ideia de beleza distante de qualquer superfície agradável. Em declarações atribuídas a ele, aparece a busca do belo; o problema é que, para Confaloni, o belo não estava necessariamente no rosto bonito. Sua noção de belo era e é mais ampla. O belo, para o artista italiano, estava na diversidade. Naquilo que encanta o olhar para além do lugar-comum.

Nos retratos, isso ficava ainda mais evidente. Há relatos de que algumas pessoas não gostavam de se ver pintadas por Confaloni. A interpretação mais recorrente é que não pretendia reproduzir apenas aquilo que o retratado aprendera a reconhecer diante do espelho. Queria atravessar a aparência, enxergar de algum modo o que havia por dentro. (Vale lembrar que, quando Picasso pintou Gertrude Stein, a escritora americana disse que não ficara parecido com ela. O criador espanhol teria respondido: “Vai ficar”. Mais tarde, ela concordou.)

Para Confaloni, o belo não estava necessariamente num rosto bonito. (Foto: Herbert Morais)

E ninguém gosta muito de ser enxergado por dentro ou de maneira ampla, com virtudes, defeitos e contradições.

Essa tensão ajuda a explicar o estranhamento provocado pelos afrescos da Igreja do Rosário. As imagens não obedeciam à delicadeza religiosa esperada por parte dos moradores. Os santos tinham peso, tensão, sofrimento, pés capazes de tocar a terra e mãos grandes o bastante para trabalhar nela. Algo profano? Nem tanto. Humano, isto sim. (Afinal, como sugeriu Terêncio, nada do que é humano deve ser considerado estranho. Por sinal, Karl Marx apreciava a frase.)

Segundo relatos sobre a recepção inicial, chegaram a chamá-lo de “louco”. Não seria a última vez que Goiás demoraria a compreender aquilo que já estava diante de seus olhos. (Quem não se lembra que um dos maiores poetas de Goiás, José Décio Filho, era considerado louco e chegou a ser internado? Sua poesia persiste e sempre bela.)

O homem que provocava tamanho desconforto tinha 33 anos – a idade de Jesus Cristo quando morreu – quando veio para o Brasil. Chamava-se Giuseppe Nazareno Confaloni, nascera em 23 de janeiro de 1917 (o ano da Revolução Russa), em Grotte di Castro, na Itália, e, segundo biografias sobre sua vida, recebera na infância um apelido de delicadeza quase incompatível com a força que sua pintura assumiria: Borboleta.

Entrou cedo para a vida religiosa. Vieram o seminário, os dominicanos (que sempre tiveram presença ativa em Goiás), a troca de Giuseppe por Nazareno, a ordenação sacerdotal em 24 de setembro de 1939 e a formação artística em Florença. Arte e religião nunca seriam, no caso dele, carreiras paralelas. Estavam misturadas desde o princípio, como sugerem sua trajetória e sua produção.

Então apareceu Goiás, o Estado que fica no coração do Brasil.

Confaloni não atravessou o Atlântico, ao que indicam os registros disponíveis, movido por um projeto grandioso de refundar as artes plásticas do Centro-Oeste brasileiro. Veio porque havia uma igreja e uma encomenda: pintar os Mistérios do Rosário.


Só isso. O que, claro, não é pouco – dado o resultado do que deixou.

É justamente aí que a história começa a ficar interessante.

Ele poderia ter realizado o trabalho, recebido os cumprimentos, guardado os pincéis e voltado para a Itália.

Não voltou.

Escolheu permanecer num Estado que tentava inventar a própria modernidade e que, em muitos aspectos, ainda não tinha a estrutura necessária para aquilo que ele sabia fazer.

É importante imaginar Goiás naquele momento sem as comodidades da retrospectiva. Hoje sabemos o que viria depois: universidades, faculdades de arquitetura, museus, galerias, cursos de artes, artistas reconhecidos internacionalmente e uma produção plástica poderosa. Confaloni, porém, não chegou a esse Goiás.

Chegou antes.

E chegar antes é sempre muito diferente.

Havia uma capital ainda jovem, um campo cultural em formação, uma elite que desejava a modernidade e nem sempre sabia o que fazer quando ela aparecia de verdade. Goiânia carregava, no desenho urbano e na arquitetura, o discurso do novo, mas uma cidade não se torna moderna apenas porque constrói fachadas modernas.

É preciso produzir pensamento, formar gente e criar ambiente. Enfim, formatar uma alma, um espírito do tempo.

A atuação de Confaloni contribuiu para isso, segundo estudos e relatos sobre sua passagem pelo Estado.

Luiz Curado soube que havia na cidade de Goiás um padre italiano que pintava de maneira estranha. Foi atrás dele, conforme a narrativa preservada sobre esse encontro. A aproximação se tornaria uma dessas pequenas colisões capazes de alterar o rumo da história cultural de uma cidade.

Com Henning Gustav Ritter, Luiz Curado e Confaloni ajudariam a estabelecer a Escola Goiana de Belas-Artes.

Frei Confaloni é o fundador da Faculdade de Arquitetura da PUC Goiás e da Escola de Belas Artes. (Foto divulgação)

A partir dali a história deixa de ser apenas a de um pintor, mas a de uma contaminação… positiva, claro.

Confaloni dava aula, desenhava, discutia, pintava, abria espaço, emprestava material e participava da formação daqueles jovens. Sua atuação também ajudou a legitimar uma ideia hoje óbvia, mas então nada evidente: Goiás poderia produzir arte moderna sem pedir licença aos grandes centros.

Sua influência alcançaria artistas que seguiriam rumos muito diferentes. Ana Maria Pacheco está associada a essa linhagem. Siron Franco também atravessou esse ambiente ainda muito jovem. Não se trata de procurar nos quadros deles uma impressão digital de Confaloni. Influência artística raramente funciona assim, e qualquer afirmação mais específica exigiria documentação individualizada. Mas há ecos de suas obras e ideias na arte de pintores de Goiás e, quem sabe, de outros Estados. Influência, por sinal, não é cópia.

Painel “Energia Elétrica: a origem”. Afresco pintado, em 1961, por Confaloni para o antigo prédio da Celg (o prédio foi demolido no início desse ano). (Foto divulgação)

A herança mais importante talvez fosse outra: a permissão para fazer.

O marchand e crítico de artes plásticas PX Silveira, que, décadas depois se dedicaria a recuperar, estudar, catalogar e reorganizar a presença de Confaloni na história de Goiás, percebeu algo fundamental: a obra do frei não estava apenas nas paredes e nas telas. Estava também nos “corações e mentes” daqueles sobre os quais havia interferido, segundo formulação atribuída a PX Silveira.

PX Silveira: biógrafo de Frei Confaloni. (Foto divulgação)

É uma definição precisa.

Quadro se mede. Afresco se fotografa. Acervo se cataloga. Influência, não. Mas, com notou o crítico americano Harold Bloom, há mesmo uma angústia da influência. Às vezes é a tentativa de se libertar de uma influência, ou de mudá-la – acrescentando uma pitada nova –, que gera o grande artista.

Talvez por isso Confaloni tenha permanecido durante tanto tempo “menor”, na memória brasileira, do que aquilo que sua trajetória parece representar.

Goiás conhece o nome. Isso não significa necessariamente que (se) conheça Confaloni.

Seu percurso ganha outra dimensão quando chega a Goiânia. A cidade nova oferecia algo que Vila Boa não podia oferecer da mesma maneira: paredes ainda vazias, à espera de uma narrativa.

Em 1953, Confaloni pintou na Estação Ferroviária os grandes painéis que colocam frente a frente os antigos e os novos bandeirantes, conforme registros sobre as obras. (Por sinal, permanecem lá, convidando os goianos e os demais brasileiros a conhecê-los.)

O tema poderia ter resultado numa celebração burocrática do progresso. Não resultou.

Confaloni olhou para a modernização de Goiás e viu trabalho: braços, mãos, corpos, gente empurrando a história. (Não muito diferente do que fez Portinari, noutro estilo.)

Essa talvez seja uma das diferenças fundamentais entre o que se dizia sobre Goiás e aquilo que ele pintava. O discurso oficial gostava das palavras progresso, desenvolvimento, futuro, construção. Confaloni parecia mais interessado na anatomia necessária para que tudo isso existisse.

Daí as mãos. Daí os pés. Representando o fazer, o agir.

Não é necessário interpretar essas “deformações” como incapacidade anatômica. A leitura mais plausível, considerando sua formação e o conjunto da obra, é a de uma escolha expressiva.

Ele aumentava justamente aquilo que ligava o corpo ao mundo. A mão trabalha. O pé sustenta e possibilita a caminhada, o avanço. Há inteligência nessa deformação.

Enquanto a propaganda da modernidade procurava máquinas, prédios, estradas e velocidade, Confaloni devolvia peso ao corpo humano.

O Goiás moderno continuava precisando de alguém para carregá-lo. E, também, registrá-lo por meio da arte.

Em 1953, Confaloni pintou os painéis da Estação Ferroviária de Goiânia. (Fotos: Herbert Moraes)

Depois vieram outras encomendas, murais e paredes. A energia elétrica entrou em sua pintura. A aviação e a industrialização também. A cidade nova passou a integrar esse repertório, conforme a leitura de suas obras e dos temas a elas associados.

Algumas dessas obras, porém, desapareceram.

Um painel realizado no antigo Aeroporto Santa Genoveva foi destruído, segundo registros sobre sua preservação. Trabalhos feitos para outros espaços também se perderam. Obras que deveriam ter atravessado o tempo não chegaram a sobreviver algumas décadas.

Há algo especialmente cruel nisso quando se trata de um muralista.

Uma tela pode ser retirada. Uma escultura pode ser transportada. Um mural depende de um pacto entre o artista, a arquitetura e o futuro. Se o prédio desaparece, a obra pode desaparecer junto. Se alguém decide que a parede vale mais sem a pintura, o artista desaparece com ela. É a vigência da desmemória, solapamento da memória.

Confaloni conheceu, sem saber, a fragilidade da memória urbana de Goiânia.

Painel de Frei Confaloni, destruído por vândalos, em Goiânia. (Foto divulgação)

Mas não pintava apenas paredes. Felizmente para os pósteros.

Há um Confaloni íntimo, talvez ainda mais interessante que o monumental. Nos retratos, nas figuras religiosas, nas mães e nos trabalhadores reaparece a tentativa de atravessar a superfície. Sua pintura não parece satisfeita com aquilo que vê. Vai além. Busca o entendimento da alma, do espírito. O zeitgeist.

Procura algo atrás.

Talvez por isso o primeiro afresco da Igreja do Rosário continue tão perturbador tantos anos depois.

A máscara está saindo.

Não entrando.

Confaloni parece começar sua vida em Goiás dizendo que é preciso arrancar alguma coisa para enxergar. Essa é uma interpretação, não uma declaração comprovada de sua intenção.

A própria trajetória acabaria fazendo isso com a arte goiana, ao menos segundo a leitura de seus estudiosos. Retirou algumas máscaras: a ideia de que a modernidade precisava chegar pronta de fora; a de que a arte religiosa deveria ser dócil; e a de que o artista deveria limitar-se à própria obra.

Confaloni ensinava, construía, projetava, pintava, rezava e participava da criação de instituições.

Esteve ligado à estruturação do ensino de arquitetura que mais tarde se consolidaria na Universidade Católica de Goiás, conforme registros historiográficos. A Escola Goiana de Belas Artes seria incorporada ao universo universitário. Aos poucos, o italiano que viera atender a uma encomenda religiosa ajudava a construir estruturas permanentes da cultura goiana.

É possível chamar isso de Renascimento em Goiás, como faz o livro que recupera sua trajetória. Porque, sim, sua arte e ele próprio eram inspiradores.

Frei Nazareno Confaloni, um modernista. (Foto divulgação)

A expressão funciona como interpretação porque Confaloni tinha algo de personagem deslocado no tempo: pintura, desenho, arquitetura, construção, ensino e religião não pareciam departamentos distintos de sua vida. Circulava entre todos com naturalidade, segundo os relatos sobre sua atuação.

Também havia futebol.

Confaloni era atleticano, de acordo com memórias e registros associados à sua vida em Goiânia.

A informação, aparentemente lateral, devolve ao personagem alguma temperatura. Afasta a imagem excessivamente bem-comportada que produzimos quando transformamos mortos em patrimônio.

Patrimônio não torce.

Gente torce.

Confaloni podia estar diante de um tema religioso num dia e envolvido com o Atlético no outro. Trabalhos seus chegaram a existir nas dependências do clube e também se perderam, segundo relatos.

O mesmo indivíduo que estudara arte na Itália, entrara para a ordem dos dominicanos e pintara os Mistérios do Rosário podia discutir futebol em Goiânia. E com sapiência esportiva.

Ainda bem. Aumenta sua humanidade.

Atlético Goianiense: paixão de Frei Confaloni. (Foto divulgação)

A história melhora quando o personagem respira.

Respira também na Igreja de São Judas Tadeu.

Ali, Confaloni deixou de ser apenas alguém que interferia visualmente no espaço religioso. Participou da concepção e da construção, tornou-se seu primeiro vigário e novamente misturou funções que, em qualquer currículo organizado, apareceriam em linhas separadas, conforme registros sobre a igreja e sua atuação. 

Igreja São Judas Tadeu, setor Coimbra, obra de Frei Confaloni, que também foi seu primeiro vigário. (Foto divulgação)

Para levantar recursos, os quadros entravam em cena.

Há obras que chegaram às casas de famílias goianienses porque faziam parte daquele esforço de construção, segundo relatos preservados sobre a formação desses acervos. O artista pintava, a igreja precisava nascer, a comunidade ajudava.

Décadas depois, isso produz uma situação curiosa: parte de sua obra permaneceu espalhada por acervos particulares, casas, famílias, instituições, igrejas e lugares que nem sempre sabiam a importância do que guardavam.

Foi preciso reencontrar Confaloni.

Talvez nenhuma personagem dessa segunda vida tenha sido tão importante quanto o intelectual PX Silveira.

Ele não conheceu o frei. Conheceu o “rastro” – a arte – e decidiu segui-lo.

Começou a procurar pinturas, documentos, histórias, pessoas e coleções. Catalogou, pesquisou, escreveu e insistiu. Essa obstinação ajudou a recolocar Confaloni no lugar que sua obra exigia, segundo a avaliação de pesquisadores, e contribuiu para uma nova consciência sobre sua dimensão.

É uma história bonita por uma razão simples: às vezes a memória também precisa de alguém que chegue depois.

Confaloni espalhou a obra.

PX Silveira começou a juntar os pedaços para exibir a harmonia criadora do conjunto.

Um museu permanente dedicado ao artista passou a existir justamente na antiga Estação Ferroviária, diante dos painéis realizados décadas antes, conforme informações sobre a instituição.

Há algo muito goiano nessa volta.

O artista retorna ao lugar onde já estava.

Talvez a grande ironia seja esta: nunca tenha ido embora.

Bastava olhar.

Essa é uma questão importante quando se aproxima 2027, ano em que sua morte completará meio século.

O que significa lembrar Confaloni cinquenta anos depois?

Certamente não deveria significar apenas pendurar sua fotografia numa parede, organizar uma cerimônia, repetir algumas datas e transformá-lo definitivamente num busto cultural.

Seria uma maneira eficiente de “matá-lo” pela segunda vez.

Túmulo de Frei Confaloni: a morte do artista completa 50 anos, em 2027. (Foto divulgação)

Confaloni interessa porque continua produzindo atrito, ao menos para quem se dispõe a olhar sua obra sem convertê-la em peça decorativa. Sua arte, afinal, dialoga com o tempo e os tempos históricos da pintura.

Suas figuras ainda não são confortáveis. Seus santos continuam estranhos. As mãos permanecem grandes demais, e os pés também. A religiosidade é humana demais. Há algo de profano? Bem, é algo a explorar.

Talvez a melhor maneira de celebrar um artista moderno seja permitir que ele continue causando desconforto.

Há ainda outra questão.

Confaloni não nasceu em Goiás.

Escolheu Goiás, segundo os registros de sua trajetória. Talvez tenha se tornado o mais goiano dos italianos. Porém, a rigor, é um mestre de envergadura nacional. Ele trouxe o mundo para Goiás e levou Goiás para o mundo.

Isso muda bastante a história.

Pertencimento não é apenas uma questão de certidão.

Ele poderia voltar à Itália depois da encomenda na Igreja do Rosário. Poderia reencontrar um ambiente cultural mais estruturado, uma tradição artística consolidada, museus, academias e referências conhecidas desde a juventude.

Preferiu ficar.

Não parece uma decisão pequena.

Permaneceu justamente num lugar onde quase tudo ainda precisava ser inventado e passou o restante da vida inventando junto, ou participando dessa invenção, como sugerem os registros de sua atuação. De alguma maneira, com sua arte, ele entendeu e reinventou Goiás — dando-lhe um caráter universal.

Talvez essa seja a medida mais justa de sua relação com Goiás.

Não veio procurar uma identidade pronta.

Participou de sua fabricação.

Quando morreu, em 4 de junho de 1977, tinha 60 anos. Preparava-se para voltar à Europa com sua obra, segundo relatos sobre os planos daquele período.

É difícil não perceber a simetria.

O jovem italiano atravessara o Atlântico para pintar uma igreja em Goiás. Quase três décadas depois, era a pintura produzida em Goiás que se preparava para atravessar o Atlântico com ele.

O retorno não aconteceu.

Confaloni morreu antes.

Mas sua obra já havia feito a viagem mais complicada.

Tinha atravessado Goiás. Estava nas igrejas, nas casas, na universidade, nas paredes públicas, nos alunos, nos artistas que vieram depois, na arquitetura, na memória de quem o viu trabalhar e na grande quantidade de obras que precisariam ser localizadas muitos anos mais tarde, conforme registros e pesquisas posteriores.

E estava, sobretudo, naquele primeiro afresco.

Uma pessoa retira a máscara.

As Dúvidas.

É difícil imaginar uma estreia mais adequada.

Confaloni não entregou a Goiás uma estética pronta, muito menos uma cartilha sobre modernismo. Fez algo que sua trajetória permite interpretar como mais importante: introduziu uma perturbação.

Depois dele, algumas imagens já não poderiam ser exatamente as mesmas.

O santo podia ter pés enormes.

Nossa Senhora podia parecer uma mulher.

O trabalhador podia ocupar uma parede monumental.

A fé podia conviver com a deformação.

Uma cidade no meio do Brasil podia produzir arte moderna sem imitar ninguém.

Um menino podia entrar numa escola de arte em Goiânia e descobrir que aquilo também lhe pertencia.

E um padre podia atravessar o mundo para cumprir uma encomenda e, no caminho, escolher outro lugar para existir.

Daqui a pouco, cinquenta anos terão se passado desde a morte de Confaloni.

Talvez seja um bom momento para deixar de homenageá-lo apenas como uma figura importante das artes goianas.

Importante é uma palavra correta e quase inútil.

Confaloni foi mais incômodo do que isso. Mais contraditório. Mais moderno. Mais vivo. Mais artista.

Quando chegou a Goiás, encontrou paredes à sua espera. Pintou nelas santos, trabalhadores, máquinas, crença, dúvida, progresso, miséria, força, medo e gente.

Mas sua obra mais radical talvez tenha sido outra.

Confaloni mexeu no olhar.

E esse tipo de obra não cabe numa moldura.

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